segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Restaurante no Fim do Universo

O Restaurante no Fim do Universo

Acabei de ler O Restaurante no Fim do Universo, que seria o volume dois da trilogia de cinco livros de Douglas Adams, iniciada com O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Nada de muito marcante a respeito deste livro.

Uma das coisas é que os personagens começam a viajar pelo tempo no espaço-tempo do universo. Assim, quando o título fala de O Restaurante no Fim do Universo, não é apenas no canto mais longínquo do universo que se está falando, seja lá onde isso fique. Mas também no tempo quando o universo colapsará, chegará ao seu fim. Felizmente o restaurante foi construído com uma proteção contra o fim do universo, que permite a ele continuar a existir mesmo que o universo se acabe. Paradoxos da série de O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Um trecho marcante é quando o autor fala que a população do universo é zero. Não é que seja zero mesmo, mas, como o universo é tão imensamente, colossalmente grande, as distâncias dentro do universo são tão inimaginavelmente longas, e as populações dentro do universo tão restritas, que se dividirmos o número da população pela grandeza do universo, o resultado será alguma coisa muito próxima de zero. Neste caso muito mais próximo de zero mesmo, que de um.

De qualquer maneira, como já disse, nada muito marcante a respeito deste livro. As mesmas piadas irônicas ou melancólicas, do contido humor britânico. É como um interlúdio para os volumes seguintes.


ADAMS, Douglas. O Restaurante no Fim do Universo. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

John Barry

John Barry

O único John Barry de que eu tinha algum conhecimento era um maestro-arranjador, que trabalhou com as trilhas sonoras de filmes da série “007 – James Bond”. Como sou fã da série, e vi a maioria de suas produções, quando encontrei um disco com uma compilação de músicas-tema da série, eu o comprei. E lá está o crédito para John Barry, nas músicas “James Bond Theme”, a mais característica da série, que provavelmente está em todos os filmes. E na música “On Her Majesty's Secret Service”, tema do filme homônimo, de 1969, único estrelado por George Lazenby.

Pois foi ele, John Barry, que morreu neste final de semana. Segundo a BBC, a causa teria sido um enfarte. O maestro estava com 77 anos. A notícia informa que além da série 007, ele foi responsável por outras trilhas sonoras de filmes famosos, como “Dança com Lobos”, e “Em Algum Lugar do Passado”.

Eu fui surpreendido pela notícia enquanto ouvia o rádio, me preparando para ir trabalhar. Não foi uma notícia agradável para começar o dia.

Mais um talento que se vai.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Guia do Mochileiro das Galáxias


O Guia do Mochileiro das Galáxias

Recentemente concluí a leitura do livro O Guia do Mochileiro das Galáxias. É uma leitura rápida.
Como gosto de ler tudo, ou quase tudo, em um livro, a leitura inclui as introduções e apresentações. E fiquei meio chocado ao saber que o autor, Douglas Adams, faleceu em 2001, com apenas 49 anos, por conta de um infarto fulminante.
A minha referência em relação ao livro era o filme homônimo, que assisti há algum tempo.
E inicialmente as obras são muito semelhantes, com os mesmos argumentos iniciais, ou seja, de repente a prefeitura de uma cidadezinha britânica acha que deve destruir a casa do protagonista, Arthur Dent, para a construção de um desvio rodoviário. E simultaneamente um grupo alienígena chega à Terra porque o planeta precisa ser destruído para a construção de uma via expressa intergaláctica.
O livro quer ser humorístico, e alguém me perguntou como eu estava lendo o livro sem dar nenhuma gargalhada. Há alguns motivos para isso. Uma, é que podemos usar um estereótipo, e dizer que o humor britânico é contido (Douglas Adams é britânico). Outro motivo para a falta de gargalhadas de minha parte é que muitas das piadas do livro foram vistas no filme, e parecem sem graça quando repetidas no livro. E um terceiro motivo, é que, apesar das piadinhas, o livro acaba parecendo bem triste mesmo. Bem mais triste que o filme, por exemplo. Além disso o livro é cheio que questionamentos existenciais. O fato de muitos dos questionamentos existenciais serem ditos em tom de piada, não torna eles menos questionamentos existenciais, e não deixam de evocar um certo tom melancólico para a coisa.
Há mais uma coisa. Como eu já disse, uma frota alienígena chega à Terra porque o planeta precisa ser destruído. E ele efetivamente é. Pense em tudo que há ao seu redor, toda a cultura, toda a natureza, todas as cores, os sons, os aromas. E pense em você contemplando tudo isso. E pense depois nisso tudo destruído. Mas há um consolo, existe o Guia do Mochileiro das Galáxias que possui um artigo sobre o planeta Terra. Eis o que diz o artigo sobre o planeta Terra: “inofensivo”. Contudo, um mochileiro passou pelo planeta, e melhorou um pouco o artigo. Veja como ficou o artigo mais desenvolvido: “praticamente inofensivo”. Que tal? Irônico ou melancólico?
Por outro lado, é um romance. Sabe lá se o autor em vez de evocar questionamentos existenciais, não está apenas tirando sarro do leitor?
Fiquei com sentimentos ambivalentes em relação ao livro. Eu diria que não gostei, mas comecei a ler a sequência, O Restaurante no Fim do Universo, ou seja, fui fisgado pelo gancho do autor. Vamos ver como fica.

ADAMS, Douglas. O Guia do Mochileiro das Galáxias. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

27/01/2011
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sábado, 22 de janeiro de 2011

Saraiva Guerreiro (1918-2011)

Saraiva Guerreiro (1918-2011)

Muitas vezes somos surpreendidos pela morte de alguém. Hoje eu fui surpreendido pela morte de Saraiva Guerreiro. Ramiro Elysio Saraiva Guerreiro foi chanceler, isto é, ministro das relações exteriores do Brasil no governo do general-presidente Figueiredo (1979-1985).

Conforme destacou o obituário, sua gestão foi marcada pela aproximação com países vizinhos e com países africanos. Também apoiou a Argentina quando da Guerra com a Inglaterra por conta do arquipélago das Malvinas, em 1982.

Na verdade a minha surpresa foi o fato que o ex-chanceler estivesse vivo até alguns dias atrás. Ele havia se retirado da vida pública, e não se ouvia falar muito dele. Mas o obituário informa que ela havia lançado um livro de memórias, chamado “Lembranças de um Empregado do Itamaraty”, em 1992. Tinha 92 anos e faleceu em decorrência de complicações respiratórias.

A notícia foi da Folha de São Paulo.


21/01/2011.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Moacyr Scliar Sofre um AVC

Moacyr Scliar Sofre um AVC

E hoje fui surpreendido pela notícia que o escritor, e, dizem, médico sanitarista, Moacyr Scliar sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), aquilo que antigamente chamavam de “derrame”, e se encontra na unidade de terapia intensiva do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Triste notícia.

A notícia só destacava obras mais ou menos recentes dele, como O Centauro no Jardim, e Manual da Paixão Solitária, obra que recebeu o Troféu Jabuti em 2009.

Meu contato principal com a obra de Moacyr Scliar foi na minha adolescência. Leituras de literatura na escola. Lembro de uma obra chamada Os Deuses de Raquel. Uma obra interessante, porque li como leitura requerida nas aulas de Português do segundo grau, atual ensino médio. E é interessante também porque falava de Porto Alegre, talvez seja devaneio meu, mas falava inclusive da rua Duque de Caxias. E falava também do tráfico de mulheres. Mulheres judias trazidas das aldeias do leste da Europa para serem tornadas meretrizes em bordéis de Porto Alegre.

Outro livro dele foi A Guerra do Bom Fim. Bom Fim como é sabido, é o bairro onde inicialmente se radicou a colônia judaica em Porto Alegre. E no livro o autor descreve um grupo de meninos do Bom Fim durante a Segunda Guerra Mundial. Se misturam no romance as aventuras dos meninos pelo bairro, as avenidas Osvaldo Aranha, as ruas Tomaz Flores, e Felipe Camarão (ou talvez estas ruas especificamente nem sejam citadas no livro, mas na minha imaginação parece que foram), os filmes de guerra nas matinés dos cinemas da época e as notícias da própria guerra.

Na época eu achava que a literatura de Moacyr Scliar só podia ter relação com a colônia judaica de Porto Alegre.

Tanto que achei muito estranho quando li Cavalos e Obeliscos, um livreto que ele ambienta durante a Revolução de 30, e dos gaúchos que dela participaram, e dos seus cavalos que teriam sido amarrados no obelisco Avenida rio Branco, na cidade do Rio de Janeiro, então Capital Federal. Um livro que achei estranho para Scliar, e não muito memorável.

Eu também costumava ler as crônicas de Moacyr Scliar publicadas no jornal Zero Hora, aqui de Porto Alegre. Na época o seu filho “Beto” Scliar costumava ser um assunto recorrente nessas crônicas. Filho em desenvolvimento, pai em direção à maturidade, uma riqueza de assuntos.

E depois soube que Scliar acabou envolvido num estranho caso de possível plágio um livro seu chamado Max e os Felinos.

Mas isso parece que faz muito tempo. Hoje raramente leio o jornal, e quase nunca leio crônicas atuais de Moacyr Scliar. Não é que eu tenha deixado de gostar da obra de Moacyr Scliar. Mas hoje parece que há muito mais coisas que me cobram atenção...

A notícia informava que Moacyr Scliar atualmente está com 73 anos. Tomara que se recupere!


18/01/2011
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Banca de Trabalho de Graduação

Banca de Trabalho de Graduação

Naquela tarde Leopold estava mais feliz que receoso. Fazia alguns dias que ele havia entregue seu trabalho de conclusão ao seu orientador, e naquela tarde iria enfrentar a banca que avaliaria a pequena obra.

Leopold imaginava que ficaria um pouco mais perto de seu “colega” e ídolo, Robert Langdon. Sendo aprovado pela banca, Leopold conseguiria seu diploma de bacharel em Simbologia, a profissão de Langdon. Embora Langdon fosse um PhD. Ou seja, para chegar a um patamar semelhante ao de Langdon, Leopold ainda precisaria cursar pelo menos mais duas pós-graduações.

Leopold cogitava se sequer teria condições de cursar uma pós-graduação, quanta mais duas. Começara a cursar a faculdade quando muitas pessoas já estavam terminando os graus regulamentares de pós-graduação. E, talvez por causa disso, fez o curso de maneira bastante relaxada, levando oito anos para conseguir seu diploma de licenciatura em Simbologia, o que lhe permitiria ser professor nas escolas de ensino fundamental e nos liceus do país.

Leopold estava mais feliz que receoso, e também otimista, porque não era a primeira vez que estava enfrentando a banca de trabalho de graduação. Seu primeiro trabalho analisava uma determinado aspecto de um certo dramaturgo britânico, e as liberdade simbólicas que um autor podia tomar em relação a um personagem histórico. Havia recebido o conceito “bom”.

E Leopold tinha convicção para consigo mesmo que sua segunda monografia, esta que estaria em avaliação, era melhor que a primeira.

Como chegara antes do horário de enfrentar sua banca, teve tempo de observar as bancas de alguns de seus colegas. Na verdade dois deles. Ambos tinham apresentados trabalhos aparentemente muito bons, recebendo conceito máximo de suas respectivas bancas, trabalhos “ótimos”. A palavra “aparentemente” aqui não é demérito aos trabalhos, é que Leopold não lera os trabalhos, apenas vira a recepção das bancas. A única coisa que encasquetara Leopold, foi que numa das bancas um dos professores demandara que o graduando trocasse as palavras “excedia o período de tempo analisado” por “excedia o marco cronológico”. Leopold ficou se perguntando porque o professor-doutor queria fazer uma troca de seis por meia dúzia. Mas pelo jeito foi algo sem estresse, o aluno prontamente consentiu em trocar os termos demandados.

Chegada a hora, Leopold se dirigiu ao local onde deveria ser realizada a banca que avaliaria seu trabalho.

No caminho encontrou um dos professores que fariam parte da banca. Já eram conhecidos um do outro, e o professor perguntou a Leopold se ele estava tranquilo para defender seu trabalho. Aquela pergunta deixou Leopold intranquilo, mas ele respondeu ao professor: “Sim. Eu não deveria estar?” O professor não respondeu nada. Ambos caminharam para a sala destino.

Como é comum nas bancas, o professor-orientador abriu a sessão, comentando rapidamente sobre o trabalho. Leopold então fez uma breve exposição sobre o que havia pesquisado, algo sobre um sábio filósofo da Antiguidade, os múltiplos significados da sexualidade e da feminilidade.

Abriu-se então o momento para que os professores-avaliadores fizessem suas observações.
Um dos professores tinha um compromisso após a banca, um compromisso algo imprevisto que fizera com que ele fizesse suas observações e saísse. Este professor comentou que apesar do trabalho ter os requisitos para um trabalho de graduação, o estilo estava meio dispersivo. Leopold havia ampliado demais o espectro de sua tentativa de contextualização do assunto, falando demais do tempo e de lugar onde vivera o velho filósofo, e gastando tempo que deveria ser aplicado na hermenêutica da obra do filósofo. Leopold respondeu afirmando que seu desejo era contextualizar, e não havia se dado conta dos excessos. Este professor saiu, então, para seu compromisso.

Foi então que o outro professor, aquele que perguntara a Leopold se ele estava tranquilo, tomou a palavra. Leopold constatou então que tinha motivos para ficar intranquilo.

“Você falou da matriarca, e falou da amante, mas deixou de falar da escrava nesta obra do filósofo”. Leopold ficou atônito. Embora o próprio professor não tivesse certeza do papel importante da escrava, a escrava fugira totalmente ao trabalho de Leopold nos aspectos simbológicos. E infelizmente a obra não estava ali para ser consultada. “Também acho”, continuou o professor, “que você deveria ter consultado a obra no original.” Foi outro baque para Leopold, em seminários no final da graduação, um dos professores garantira que um trabalho de conclusão de graduação não necessitava de conhecimento de línguas antigas, a menos que fosse um trabalho de análise gramatical profunda, o que não era absolutamente o caso. Leopold tentou argumentar que um biógrafo fundamental do filósofo consultara a obra do filósofo em língua moderna. O professor não quis acreditar, e esta biografia não estava ali para ser consultada também. O professor continuou: “a bibliografia usada era bastante antiga, principalmente aquele erudito da Europa Oriental, do final do século XIX”. Leopold falou que aquele erudito, acusado de defasado, ainda era bastante consultado e usado como referência (pelo menos dois outros trabalhos recentes colocados na bibliografia usavam este erudito). O professor afirmou que certa obra para-didática utilizada na bibliografia não deveria ter sido usada, que obras daquele tipo não deveriam ser usadas em trabalhos de conclusão de graduação. Leopold não respondeu a este questionamento, mas ficou se perguntando se o trabalho de um professor-doutor teria menos autoridade por ser uma obra para-didática,e também pensou consigo mesmo, “o professor que acabara de sair era um autor de obras para-didáticas. O que ele pensaria a respeito disso?” Por fim, veio o golpe de misericórdia do professor-avaliador, “Pois é. Eu acho que você não conseguiu demonstrar o que você desejava neste trabalho de conclusão!”

Veio o tempo dos professores debaterem o trabalho sem a presença de Leopold. Porém debate não haveria, pois um dos professores-avaliadores saíra mais cedo por conta do compromisso inesperado, e não cabe ao orientador deliberar, apenas dirigir a banca e divulgar o conceito final.
Leopold ficou bastante preocupado.

Se chegara convicto que tinha feito um trabalho melhor que o anterior, e cogitava se poderia alcançar o conceito “ótimo”, agora pensava que, de fato, ficaria com o conceito “bom”, como recebera o trabalho anterior.

Alguns minutos se passaram, e Leopold foi chamado.

Sentou-se diante da banca, e o professor-orientador leu a deliberação da banca. Leopold recebera o conceito “regular”.

O ânimo de Leopold foi ao chão. Um verdadeiro nocaute.

Algo constrangido o professor-orientador parabenizou Leopold por conseguir o grau de bacharel em Simbologia.

Leopold não disse nada. O conceito “regular” para seu trabalho foi sua maior decepção no decorrer de sua faculdade. Provavelmente o trabalho de Leopold seria considerado o pior trabalho de graduação daquele ano naquela instituição. Cabisbaixo, abandonou o campus, e retornou para sua casa. Também abandonou qualquer ilusão de cursar pós-graduação. Nunca chegaria ao grau de autoridade de Robert Langdon.



17/01/2011
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