domingo, 27 de fevereiro de 2011

E Moacyr Scliar faleceu...

E Moacyr Scliar faleceu...

Semanas atrás estive comentando sobre o fato do escritor Moacyr Scliar ter sofrido um AVC.
E na madrugada deste domingo, dia 27, por volta da uma da madrugada informa o rádio, o escritor faleceu. Falência múltipla de órgãos, em decorrência do AVC.
Então a coisa ficou assim: o camarada entrou numa sala de cirurgia para extirpar pólipos (tumores benignos) dos intestinos; aparentemente tudo corria bem e o escritor se recuperava quando houve o AVC, pelo qual o escritor entrou em coma, do qual nunca mais saiu...
O escritor tinha 73 anos. Quase 74.
Já comentei algo do meu envolvimento com as obras dele. Um belo escritor! E, como muita gente já disse, vai fazer uma falta!...


27/02/2011.

Abençoado!

Abençoado!

No início daquela tarde de domingo, como muitas vezes já havia lhe acontecido, a cera acumulada no canal auditivo de Arnold causou entupimento de seu ouvido.
Contra todos os conselhos, ele tentou vencer a obstrução com um cotonete, e como normalmente acontece, não deu certo.
Sem outras opções, procurou atendimento médico. Chegando à clínica a qual se dirigiu, a atendente informou que o tempo previsto para atendimento era de cerca de quatro horas. Ele perguntou se havia alguma coisa extraordinária acontecendo, e a atendente respondeu que não. Era o sistema de atendimento do médico de plantão que acarretava tal demora.
Feita a ficha, Arnold pensou consigo mesmo que quatro horas era um tempo deveras longo a ser enfrentado simplesmente aguardando ser chamado numa sala de espera. Havia levado uma revista para ler enquanto esperava, mas estava certo que havia mais tempo diante dele que páginas de revista a serem lidas.
Resolveu caminhar. Se possível encontrar uma outra revista para ler. Talvez comer alguma coisa.
Saiu caminhando. Andou pela Osvaldo Aranha, e foi do Pronto-Socorro até a Barros Cassal. Passou por lancherias, mas nada lhe apeteceu. E naquele final de tarde de domingo não encontrou nenhuma banca de revistas aberta. Chegou até a passar em frente à Capela do Bom Fim. Uma missa estava para começar. Subiu a Barros Cassal até a Irmão José Otão.
Na Barros Cassal teve oportunidade de contemplar a sinagoga existente ali. Os rabinos ali seriam mais liberais ou mais ortodoxos? Seriam mais literais ou mais metafóricos?  
Voltou pelo sistema José Otão-Vasco da Gama. Nenhuma banca de revistas ou livraria aberta. Na esquina com a Fernandes Vieira, uma locadora de vídeos. Mas não uma revisteria.
Acabou entrando num supermercado na Fernandes Vieira, onde acabou encontrando uma revista semanal. Não era o que ele queria, mas acabou comprando. Comprou também algo para comer e beber. Pagou e voltou à clínica. Comeu e bebeu um pouco antes de voltar à sala de espera.
Voltou à clínica e sentou-se na sala de espera. Ainda faltava mais de uma hora antes de ser atendido. A revista extra lhe valeu.
Por fim chegou o momento de ser atendido.
O médico lhe perguntou o que o trazia ali. Arnold explicou. O médico perguntou se havia usado cotonete, e Arnold respondeu que sim. “Danou-se”, disse o médico. E, de fato, o médico examinou o canal auditivo, e constatou que estava machucado. Com hematomas e sangue. O médico não iria retirar o excesso de cera de ouvido. Em lugar disso lhe deu uma receita com dois remédios, para serem aplicados no ouvido. Pelo menos foi isso que Arnold entendeu. E o médico disse que Arnold retornasse após o tratamento, e isso significava um mínimo de 48 horas.
No caminho de volta para casa, Arnold passou por três farmácias e em nenhuma delas encontrou a medicação recomendada. O mesmo valeu para uma tele-entrega.
E Arnold foi dormir como tinha estado desde o início daquela tarde. Com o ouvido entupido, e  levemente dolorido, por conta de sua tentativa de desobstruir o canal auditivo por conta própria, com um cotonete.
No dia seguinte, Arnold continuou sua jornada à procura dos remédios indicados. Na farmácia na esquina de casa, não os encontrou. Passou por mais três farmácias. Em nenhuma delas encontrou o que queria.
Ou melhor, em uma encontrou parcialmente. A atendente da farmácia tinha metade da dose de uma medicação, e poderia fornecer a outra dose em 24 horas. Mas Arnold levou algum tempo para mostrar à atendente que o médico havia indicado que a segunda dose, deveria ser tomada 12 horas após a primeira.
Continuou a sua procura. Iria à Assis Brasil. Na Assis Brasil haveria de existir uma farmácia com os remédios das prescrições em seu estoque.
De fato havia. Foi a quarta farmácia em que Arnold entrou na avenida Assis Brasil.
E naquela farmácia, ao conversar com a farmacêutica encarregada, Arnold descobriu uma das medicações indicadas não deveria ser aplicada no ouvido, mas era uma “injeção intramuscular”, conforme viu a farmacêutica. Arnold ficou surpreso. Jurava que a instrução do médico era para que toda a medicação fosse aplicada ao ouvido. Não era. A farmacêutica entrou em contato com o médico, e confirmou que uma injeção deveria ser aplicada em Arnold (na verdade eram duas injeções).
Feita a compra dos medicamentos afinal encontrados, a própria farmácia oferecia o serviço de aplicações de injeções. A injeção lhe foi aplicada no glúteo direito. Deveria voltar 12 horas depois para a aplicação da outra injeção, no outro glúteo. A injeção era levemente dolorida...
Arnold se sentiu abençoado. Achou que Deus o havia protegido. Sabe lá quais seriam as consequências de despejar 4 ml de cortisona no seu ouvido!?
Quando voltou à clínica 72 horas depois, e finalmente a obstrução de cera foi removida, achou uma delícia estar ouvindo normalmente de novo!

27/02/2011.

Falta de Fé

Falta de Fé

Os dois amigos assistiam pela TV à apresentação do “Grammy”, o prêmio da indústria da música àqueles artistas que o pessoal da indústria acha que se destacou no ano anterior.

Lá pelas tantas, se apresenta no programa a cantora Katy Perry, com sua exuberância e seu ar de “pin-up”.

- A Katy Perry é linda! - diz um deles.

- Sensacional ! - concorda o outro.

- E pensar que ela podia ser minha namorada...

- Como assim cara? Tu mora aqui em Porto Alegre, arrabaldes do Brasil. A mina mora nos “States”. Essa transmissão mesmo, se não estou enganado, é originada da Califórnia.

- Sabe o que é? É que, por tradição, eu estaria ligado à um ramo da tradição protestante da fé. Se eu tivesse seguido os ritos da tradição em que fui criado, sei lá se eu não poderia até ser ministro religioso...

- Um reverendo?

- É. Um reverendo.

- Tá. E o que isso tem a ver com a Katy Perry?

- Pois é. Se não estou enganado ela também é originária de uma tradição protestante. Parece inclusive que o pai dela era, ou é, reverendo.

- E então?

- Se eu tivesse seguido os ritos de minha fé, poderia ter sido sagrado reverendo, e talvez convidado a realizar uma pós-graduação nos Estados Unidos. Quem sabe eu não a conheceria antes da fama? Quem sabe ela não se tornaria minha namorada?

- Putzgrila. A coisa parece muito criativa, tu falando assim. Além disso o fato dela estar cantando aí na TV, com este visual um tanto quanto exuberante não seria sinal que ela também não está muito centrada nessa questão de tradições religiosas?

- Pois é. Mas quem sabe, se ela não me conhecesse antes não aspiraria a esta carreira artística, e não ficaria comigo? Talvez não fosse esta exuverância toda, mas ainda seria linda, e estaria comigo...

O outro ficou meio de boca aberta, olhando para o amigo...

- Talvez tenha sido pura falta de fé de minha parte. - por fim concluiu o sonhador, suspirando...

Na tela, Katy Perry continuava cantando...
”We can dance until we die
You and I
We'll be young forever
You make me
Feel like
I'm living a Teenage Dream”...





23/01/2011.


Moacyr Scliar, Millôr e agora o Jens - uma temporada de AVC’s ?

Moacyr Scliar, Millôr e agora o Jens - uma temporada de AVC’s ?

O ano de 2011 está chegando com uma série de AVC’s, com os quais eu não esperava. Aliás, acho que ninguém espera por um AVC... E olha que eu ainda sou do tempo em que se chamava AVC de “derrame”.

Fiquei chateado com os AVC’s do Scliar e do Millôr. E hoje fiquei sabendo que o Jens também sofreu um AVC.

O Jens tem uma longa vivência. É um ex-bancário do Banrisul. Jornalista formado pela Famecos, da PUC-RS, mantém um blog, também com alguma história, que já se chamou “Trincheira do Jens”, e agora se chama “Toca do Lobo”. Já esteve hospedado no UOL, e atualmente está hospedado no Blogger.

A notícia do AVC do Jens também meio que me pegou de surpresa. Mas pelo andar da carruagem, parece que ele está em plena recuperação. A fisioterapia aparentemente está funcionando, e as sequelas, se houver alguma, serão pequenas. Parece que paira apenas uma certa dúvida sobre a necessidade do uso do fraldas geriátricas. Mas parece também que o Jens resiste a usar o tal apetrecho...

Força aí, Jens! Que Deus te ajude na tua recuperação!



23/02/2011.

Sérgio Jockymann (1930-2011)

Sérgio Jockymann (1930-2011)


E por estes dias aconteceu o falecimento do jornalista e escritor Sérgio Jockymann.

Sérgio Jockymann era para mim uma lembrança de criança. Um jornalista colorado, que fazia comentários em telejornais locais no horário do almoço. Eu nem saberia atualmente distinguir em qual canal ele atuava. E ele também escrevia em jornais locais. Acho que na extinta Folha da Tarde.
Ja fazia um tempo que Jockymann estava desaparecido, ou, como dizem, “afastado do espaço público”.

Segundo o blogueiro Emílio Pacheco, ele faleceu dia 16 de fevereiro, em decorrência de insuficiência renal. A este propósito vale ler as lembranças do Emílio Pacheco a respeito de Jockymann.



19/02/2011.

Millôr e as minhas férias

Millôr e as minhas férias


A vida é assim, a gente saí de férias, mas as coisas continuam acontecendo.

Quando voltei da viagem de férias, fiquei sabendo que o Bob, o cachorro da família da minha quase ex-mulher (para não dizer “o cachorro do meu cunhado”) havia morrido. Alguma coisa havia trancado no trato digestivo do bicho, e ele acabou morrendo em consequencia. Não fizeram autópsia para determinar a causa.

Aí resolvo me atualizar com as notícias e descubro que o Millôr Fernandes, 89 anos, sofreu um AVC. O Millôr é ótimo para algumas coisas, e entre outras começou a usar a palavra “saite”, mesmo que o anglicismo fonético “site” esteja consagrado, e os portugueses, bem como os falantes de espanhol usem a palavra “sítio” para se referir às páginas da Internet. Tradutor, jornalista, editor, comentarista, ilustrador, Millôr é um homem de várias utilidades.

Os males do mundo deveriam estar suspensos durante as minhas férias.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Formatura de Gabinete - III

Formatura de Gabinete – III

Formatura de gabinete é aquela em que o aluno faz sua colação de grau sem a pompa e a circunstância da formatura, digamos, tradicional, realizada em salão de atos, e que hoje em dia assume cada vez mais ares de superprodução. Meu filho, corrosivo, afirma que a formatura de gabinete é “formatura de pobre”. Eu escrevi isso em janeiro de 2008. Não concordo com meu filho quando ele diz que a formatura de gabinete é “formatura de pobre”. Pode até acontecer que alguém não tenha condições de arcar com os custos de uma formatura tradicional, mas devem ser pouquíssimos tais casos.

Acho que a opção pela formatura tradicional, de palco, em salão de atos, tem a ver com três fatores, que podem ser alternativos, ou adicionais: o rito de passagem, ou o desejo de celebração, ou a pura preguiça. Este último fator, a preguiça, é para evitar a formatura de palco, afinal a formatura de palco é muito mais trabalhosa, pois é preciso contratar a produtora, levantar fundos para pagar esta produtora, posar para fotos e outros procedimentos. O rito de passagem se estabelece porque possivelmente, após completar seus estudos superiores, a pessoa deixa de ser estudante e vai entrar numa nova fase da vida, como profissional, como trabalhador. O desejo de celebração é auto-explicativo; uma formatura de palco é muito mais uma celebração que uma formatura de gabinete.

Dito isso, em 12 de janeiro passado eu enfrentei uma formatura de gabinete pela segunda vez. Estava colando grau de bacharel em História.

Apesar da Formatura de Gabinete ser uma formatura mais informal, a deste ano foi mais formal que a de 2 anos atrás. A mesa possuía uma toalha, e sobre a toalha havia uma pilha de papéis enrolados que faziam o papel de simulacro de diplomas. Dirigiam a cerimônia o diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, auxiliado pelo professor encarregado da comissão de graduação, e uma outra professora que chamava os formandos pelo nome. O presidente da cerimônia dirigiu algumas palavras ao auditório, comentando que a formatura deveria ter sido em outro auditório, maior, mas que esse estava fechado para reformas, e a cerimônia seria numa sala pequena, onde não cabiam todos os formandos e seus acompanhantes. A mesma sala de dois anos atrás.

Mesmo sendo uma formatura de gabinete não faltaram amigos, pais, mães, avós, irmãos, maridos e esposas, e namorados e namoradas para acompanhar os formandos. Alguns vestidos mais formalmente, alguns tão informais que calçavam chinelos de dedos, bermudas e camisetas sem manga. Mas entre os mais formais, foi possível distinguir, ou destacar, uma menina com um vestido branco curto. Ela chamava a atenção. Certamente sairia dali para comemorar com seus possíveis amigos e familiares em algum lugar sofisticado, ou caro, ou ambas as coisas.

Após as palavras iniciais do diretor do Instituto, um aluno, o primeiro da lista de formandos, foi chamado a fazer um juramento, no qual os graduandos se comprometiam a trabalhar para o bem da humanidade (ou coisa que o valha). O formando ficou meio desconcertado, protestou por ter sido pego de surpresa, mas tomou a si o ofício; convidou os formandos presentes a se levantarem e levantarem suas mãos para acompanharem a leitura do juramento.

Feito isso, os alunos começaram a ser chamados, e lhes era entregue o simulacro de diploma, e o diretor do Instituto declarava ao formando que lhe era “conferido o grau”. Ao contrário de dois anos atrás, todos ficaram até o fim da cerimônia.

Houve o destaque para um aluno do curso de Filosofia que concluiu o curso com láurea. Para isso tinha recebido mais 80% de conceitos “A” nas disciplinas que cursara.

O diretor do Instituto ainda ofereceu um momento para os graduandos dizerem uma palavra a respeito de seu tempo na Universidade. Pegos de surpresa, nenhum formando aceitou a oferta.

Concluída a cerimônia, o grupo se dispersou.

Um ciclo terminava, novas portas estavam abertas àqueles que haviam recebido seus graus de estudos superiores.

Formatura de Gabinete

Formatura de Gabinete

Formatura de gabinete é aquela em que o aluno faz sua colação de grau sem a pompa e a circunstância da formatura, digamos, tradicional, realizada em salão de atos, e que hoje em dia assume cada vez mais ares de superprodução. Meu filho, corrosivo, afirma que a formatura de gabinete é “formatura de pobre”. Como se ele fosse rico, talvez.

Esta semana enfrentei a minha formatura de gabinete, do meu grau de licenciado em História. Aconteceu na terça-feira, iniciando às 15 horas.

Em tese, a formatura de gabinete é um momento menos formal que a formatura em salão de atos, como já dissemos acima, mas continua sendo uma formatura. Assim, eu apareci acompanhado pelo meu filho e por minha irmã. E havia dezenas de colegas na tal formatura de gabinete referente às colações de grau de licenciatura e de bacharelado em História e em Filosofia ali. Muitos dos colegas formandos vieram sozinhos. Mas vários outros vieram acompanhados de pais, mães, talvez avôs e avós, mais namorados, namoradas, cônjuges, todo um séquito de acompanhantes.

A sala, que poderia ter se mostrado adequada para o evento, logo se degradou. Os pequenos aparelhos de ar-condicionado não davam vencimento de renovar o ar e ventilar a sala. A temperatura aqui em Porto Alegre devia estar pouco acima de 30oC . A sala lotou, e alguns dos formandos e seus parentes ou acompanhantes foram obrigados a assistir a formatura em pé.

Felizmente era uma formatura de gabinete, e o vice-presidente do instituto que dirigia a cerimônia, dada a precariedade da situação, solicitou encarecidamente aos alunos que fizessem sua colação de grau que se retirassem da cerimônia.

E assim foi. Primeiramente foram chamados os alunos que faziam a colação de grau no bacharelado de História. A seguir os que faziam a colação de grau na licenciatura de História, o que me incluía. Como a letra inicial de meu primeiro nome é a 10a., às 15 h 30 min, a cerimônia já havia acabado para mim.

Saímos. Minha irmã foi para a casa dela, e eu e meu filho fomos jogar boliche.


Este texto foi publicado originalmente no Voltas em Torno do Umbigo, em 28 de janeiro de 2009