quinta-feira, 28 de abril de 2011

Farmácia

Farmácia

O homem de meia-idade entrou na farmácia.

"Pois não?" - disse a atendente do balcão, solícita.

"Um tira de paracetamol, uma tira de Dorflex1, uma caixa de ibuprofeno, e uma caixa de nimesulida. Nimesulida é um anti-inflamatório, não?" - o homem exitou um pouco, enquanto fazia seu pedido...

A atendente se dirigiu às prateleiras da farmácia, e de lá trouxe os remédios solicitados.

"Algo mais?" - ela perguntou.

"Uma caixa de Buscopan." - o homem respondeu. Quem sabe além de dores ósseas, ele não estaria sob risco de alguma dor em "tecidos moles".
A atendente voltou às prateleiras, e de lá voltou o novo remédio pedido. "O senhor precisa de algo mais?" - ela perguntou.

"Uma caixa de Tilex." - o homem respondeu de pronto. Este é um remédio capaz de dopar um homem.

"Certo. A receita e a sua identidade, por favor." - a atendente pediu.

"Não tenho." - o homem respondeu.

"Sinto muito, mas este remédio é de uso estritamente controlado. Sem a receita não é possível lhe vender."

"..."

"Algo mais?" - a atendente perguntou, imaginando que aquilo fosse uma pergunta retórica, para concluir a venda dos analgésicos de venda livre.

"Sim. Uma caixa de paroxetina, e uma caixa de fluoxetina. "- o homem pediu.

"O senhor tem a receita?"

"Não" - disse o homem, e pensou que, já que estava pensando em suas dores, por que não levar também algo que aliviasse as dores de sua alma? Mesmo que às vezes algumas dessas substâncias lhe fizessem sentir como um zumbi...

"O senhor está brincando comigo? Estes também são remédios de uso estritamente controlado. Não é possível lhe vender sem a retenção da receita." - disse a atendente, já com ar de indignação. Mesmo assim, querendo finalizar a compra, por cortesia, perguntou ao homem: "Alguma coisa mais?"

"Quanto custa uma ampola de morfina?" - perguntou o homem.

"Senhor, nós não trabalhamos com morfina. É uma medicação com alto poder viciante. Mais forte que o Tilex, que o senhor já pediu." - o tom de indignação da mulher aumentou. "O senhor precisa de alguma coisa mais? Alguma vitamina?"

O homem soltou um suspiro de enfado. "Não. O que me foi permitido, é tudo que vou levar." Pensou consigo mesmo que havia lido em algum jornal que "a gente sabe que chegou a uma certa idade quando começa a frequentar mais as farmácias que os bares".

Pagou os remédios, e foi embora.

Enquanto caminhava, pensava nas propagandas de remédio na TV: "Se persistirem os sintomas, procure um médico."




26/04/2011.

1As marcas de remédio citadas neste texto são de propriedade dos laboratórios que os produzem, mas amplamente conhecidas. Por isso a citação.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Um Olhar do Paraíso

Um Olhar do Paraíso

É difícil definir o filme “Um Olhar do Paraíso” (“The Lovely Bones” - 2009, Estados Unidos). Seria um drama, um filme de suspense, ou um filme espírita (tipo “Ghost, do Outro Lado da Vida”)? De fato é um pouco de tudo isso.

É um filme que a gente assiste com atenção e tensão. E também é possível se sentir muito frustrado com o final. Eu assisti o filme junto com duas outras pessoas: uma ficou frustrada com o final. A outra disse que não gostou do filme. Esta eu presumo que também não gostou do final, que o remeteu a “Inteligência Artificial”, o filme de Spielberg, de 2001.

Mas mesmo com tudo isso, achei o filme bastante marcante. A recriação de época é muito boa. A beleza de Saoirse Ronan, a menina Susie Salmon, que é assassinada no filme é marcante. Assim como marcante é a atuação de Stanley Tucci, que faz o papel de George Harvey, o assassino. Eu diria que uns 50 % do filme é Tucci que segura. Dito isso, o perfil psicológico do assassino Harvey podia ser aprofundado. Eis aí um motivo para ler o romance de Alice Sebold que inspirou o filme. E o restante do elenco não compromete o filme. Mark Wahlberg convence como um paí atônito com o sofrimento que lhe é imposto. Rachel Weisz é muito convincente como a mãe que perde o controle com a perda da filha. E Susan Sarandon, como a vovó meio doidona, dá um alívio no clima tenso do filme.

O filme joga bastante com os sentimentos do espectador, e no final não parece se resolver. Acho que é a isso que se deve o sentimento de frustração no final. Mas talvez seja uma maneira que o diretor e os roteiristas encontraram para que o espectador faça suas próprias reflexões.

Por fim, resta se perguntar por que os tradutores traduzem “The Lovely Bones”, por “Um olhar do Paraíso”, ou “Visto do Céu”, na versão portuguesa, conforme a Wikipédia. Talvez tenha a ver com rica variedade de significados que a expressão “The Lovely Bones” na língua inglesa, na qual “Os Adoráveis Ossos”, a mais primária, seria uma opção, mas não daria todo o sentido a ser encontrado no filme.




18/04/2011.


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sobre a Série O Guia do Mochileiro das Galáxias – Um comentário global

Sobre a Série O Guia do Mochileiro das Galáxias – Um comentário global

O que é possível dizer sobre a série de livros de O Guia do Mochileiro das Galáxias? Primeiro que não parece uma série. Na verdade parecem cinco livros, com cinco histórias diferentes, com os mesmos personagens. Há alguma afinidade de fundo, uma tentativa de explicação de alguma coisa de um livro no outro, mas é difícil pensar numa unidade. Eu digo isso por comparação. A afinidade que liga os livros de Douglas Adams é muito diferente da unidade que existe entre a série de livros do bruxinho Harry Potter, da também britânica J. K. Rowling, pensando numa série atual de muito sucesso. Ou dos livros de Tolkien que formaram a trilogia O Senhor dos Anéis, uma série de livros não tão nova quanto a de Rowling, mas que gerou uma recente adaptação de sucesso no cinema.

Os livros de Douglas Adams abusam da sátira, da ironia e do trocadilho (em uns volumes mais que em outros. Penso que o tradutor deva ter sofrido bastante para dar sentido a tantos trocadilhos), mas sempre contém uma melancolia de fundo. Sim, houve momentos de gargalhadas durante a leitura, mas houve mais sorrisos amargos, e alguns momentos de pura tristeza. Isso deve mudar de leitor para leitor. Pode ser que um determinado leitor ache engraçadíssimo que a filha de Arthur e Trillian se chame “Random”, que podemos traduzir por “aleatória”. Já conversei com quem achasse hilárias as tiradas deprimidas do robô Marvin. Em mim tais tiradas provocaram na maioria das vezes um sorriso contido.

E entre uma piadinha e outra o autor conduz reflexões a respeito do caráter do Universo, dos seres viventes no Universo, sobre dimensões titânicas, e sobre frustrantes limitações (um dos livros não se chama “A Vida, O Universo, e Tudo Mais” à toa). E me parece que é ao conduzir este tipo de reflexão que a obra se torna melancólica. Isso claro, se Douglas Adams não for um autor tão satírico que esteja brincando com o leitor enquanto comenta como o Universo é imenso, e como os seres viventes são diminutos.

Mas tudo bem. O intuito da série é divertir. Como em quase tudo na vida, alguns leitores se divertirão mais que outros.






16/03/2011.

A série completa:


- O Guia do Mochileiro das Galáxias;
- O Restaurante no Fim do Universo;
- A Vida, O Universo e Tudo Mais;
- Até Mais e Obrigado pelos Peixes;
- Praticamente Inofensiva.


Praticamente Inofensiva

Praticamente Inofensiva

Praticamente Inofensiva é o último volume da trilogia de cinco livros de O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Pelas artes das viagens através do espaço-tempo, ou do tempo-espaço, a Terra volta a existir. Trillian tem uma filha, Random, cujo pai é Arthur Dent. Contudo Trillian e Arthur não tiveram um relacionamento para que a filha deles fosse gerada. Trillian adquiriu esperma de Arthur através de um banco de sêmen. Por conta deles serem os únicos seres humanos restantes no Universo, era código genético compatível com o de Trillian e disponível era o de Arthur. Se nesta história, há a filha deles, já não estão presentes Marvin, o robô deprimido, nem Zaphod Beeblebrox, o presidente-celebridade-ladrão de naves que era personagem importante da série até o livro quatro.

A editora do Guia do Mochileiro das Galáxias é comprada por um outro grupo empresarial que quer mudar o conteúdo do Guia, pois, afinal, mochileiros não são pessoas que tenham dinheiro em abundância para suas viagens através do Universo. Pois se tivessem dinheiro não seriam mochileiros, procurariam viajar com mais conforto.

Por conta da nova orientação empresarial para a editora do Guia do Mochileiro das Galáxias, Ford Prefect, o amigo de Arthur, e correspondente para o Guia, entra em certos conflitos com a nova direção. Além disso, descobre que a série de roteiros na Terra sobre os quais ele havia escrito para o Guia foram publicados, o que significava que a Terra deveria estar no Universo, para que os leitores do Guia pudessem explorar aqueles roteiros.

Random vem à Terra, e é seguida por Trillian, Arthur e Ford. A população da Terra tem um susto quando uma nave extra-terrestre pousa em Londres. Depois outra, e mais outra. Claro que esta última é praticamente ignorada.

Está montado o cenário no qual Douglas Adams dará um final definitivo à sua série. Melancólico, como os demais livros...



ADAMS, Douglas. Praticamente Inofensiva. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.

14/03/2011.

terça-feira, 19 de abril de 2011

As Obras Intermináveis na Praça da Alfândega

                                      
As Obras Intermináveis na Praça da Alfândega







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Faz algum tempo foram reiniciadas as obras na praça da Alfândega, por conta do Projeto Monumenta, que quer tornar a praça parecida com o jeito que ela tinha lá pela década de 1930.

A primeira vez que fiz referência às obras da Praça da Alfândega no Projeto Monumenta foram em abril de 2010, ou seja, um ano atrás. Depois disso comentei dos preparativos para a Feira do Livro no final de outubro desse mesmo ano, e da realização da Feira do Livro em uma Praça da Alfândega que parecia em ruínas, com cercamentos, e monumentos encobertos por plástico preto.

Terminada a Feira do Livro, a praça voltou a ser cercada, como está atualmente, e não se via movimento de operários.

De uns dias para cá, há operários atuando na Avenida Sepúlveda. O curioso nisso é que parecia que a Avenida Sepúlveda já estava terminada. Mas isso era engano. Novas intervenções estão sendo feitas nesta avenida, com remodelagens dos canteiros centrais, e instalação de canos subterrâneos, prováveis obras de saneamento. Me chamou a atenção isso. Parecia que não havia mais coisas a serem feitas na Avenida Sepúlveda, mas de repente, os operários retomam atividades, remodelam canteiros e abrem buracos para enterrar canos. Deu a impressão de que estava pronto, e então resolveram desmontar para iniciar tudo de novo.

Nesse ritmo quando a praça será devolvida à população porto-alegrense?


30/03/2011.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A perda de referências na cidade em movimento – O hospital Lazzarotto


A perda de referências na cidade em movimento – O hospital Lazzarotto

O Hospital Lazzarotto ficava na avenida Assis Brasil, ali perto da Volta do Guerino.
Eu não sei porque a Volta do Guerino se chama Volta do Guerino, mas fica ali onde a avenida Assis Brasil se encontra com a Plínio Brasil Milano, e com a Brasiliano Índio de Moraes, entre o Passo d'Areia e o IAPI.
Era um hospital de referência em cardiologia. Minha mãe hospedou parentes e amigos que vinham da cidade de Rio Grande para receber tratamento no Lazzarotto. E atendia a saúde pública.
Mas um dia o hospital fechou. Não sei o motivo, mas fechou.
E por muitos anos aquele prédio vazio ficou ali na Assis Brasil. Quem sabe um dia pudesse ser reativado?...
Algum tempo atrás ele começou a ser demolido.
Rapidamente o prédio vazio passou a um monturo. E depois a um terreno vazio.
Em breve algum novo empreendimento imobiliário na zona norte de Porto Alegre.


Este texto é originário do meu blog Voltas em Torno do Umbigo, e foi publicado em 28 de maio de 2009. Resolvi copiar aqui porque ele recentemente recebeu um comentário lá.
Uma atualização precisa ser feita: decepcionantemente o "novo empreendimento imobiliário na zona norte de Porto Alegre" é um estacionamento de chão batido.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Falecimentos na Primeira Semana de Abril de 2011

Falecimentos na primeira semana de abril de 2011

Grim Reaper fez um certo estrago esta semana.

Dia 4 passado faleceu o ex-governador Jackson Lago. Político maranhense, foi governador do estado de janeiro de 2007 a abril de 2009, quando foi destituído do cargo pela justiça eleitoral, em um caso rumoroso, onde há quem pense que ele não seria destituído se o poder judiciário do Maranhão não tivesse tanta influência da família Sarney. Inclusive ele foi destituído para a posse da atual governadora Roseana Sarney, filha do senador José Sarney. Faleceu em decorrência de um câncer de próstata. Tinha 76 anos.

No dia 5 faleceu o jornalista Flávio Alcaraz Gomes. Era jornalista e trabalhou em diversos veículos aqui de Porto Alegre. Foi correspondente de guerra, tendo cobrido a Guerra dos Seis Dias e a Guerra do Vietnã. Em um incidente rumorosa na época, assassinou uma mulher, motivo pelo qual passou alguns anos encarcerado. Eu devo ter lido algumas colunas de Flávio Alcaraz Gomes em jornais locais. Também vi algumas edições de um programa jornalístico meio mambembe que ele moderava na antiga TV Guaíba, os “Guerrilheiros da Notícia”. Tinha 83 anos, e faleceu em decorrência de uma pneumonia.

No dia 9 morreu o cineasta Sidney Lumet, diretor de diversos filmes, a maioria dos quais não vi, ou não me lembro. De qualquer maneira deixou uma filmografia importante. Dentre seus filmes podemos destacar “Sérpico” e “Um Dia de Cão”(“Dog Day Afternoon”). Tinha 86 anos, e faleceu em decorrência de um linfoma.

No mesmo dia 9 morreu o jornalista Reali Júnior. Durante muitos anos ele foi correspondente do jornal O Estado de São Paulo em Paris. Eventualmente também escrevia para outros veículos. Eu acredito que li alguns textos dele, como correspondente. Tinha 71 anos e sofreu um infarto.

É. O tempo passa, e a morte não perdoa...






11/04/2011.






quinta-feira, 7 de abril de 2011

Dia de Luto no Brasil

Um rapaz desequilibrado invadiu uma escola e assassinou 12 crianças e adolescentes, na cidade do Rio de Janeiro. Segundo os relatos, se suicidou quando confrontado por um policial.
O que pode explicar uma insânia dessas?   :(

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Esporte Clube Cruzeiro e os meninos da Vila Cefer

O Esporte Clube Cruzeiro e os meninos da Vila Cefer

O Esporte Clube Cruzeiro de Porto Alegre é um clube de futebol que está fazendo relativo sucesso na primeira divisão do Campeonato Gaúcho deste 2011. No primeiro turno chegou a ser semi-finalista, sendo eliminado pelo Grêmio.

Por uma ironia destas do destino, um dos torcedores mais ilustres do Cruzeiro de Porto Alegre, se não o mais ilustre mesmo, faleceu neste início de ano, ao mesmo tempo em que o clube tinha seus momentos de glória regional. Era o médico e escritor Moacyr Scliar.

A Vila Cefer é um conjunto habitacional construído, se não estou enganado no final da década de 1960, junto à Avenida Antônio de Carvalho, mais ou menos na metade da distância entre as avenidas Protásio Alves e Ipiranga. Foi um de tantos conjuntos habitacionais construídos durante os governos militares. Este nome, Cefer, é derivado da CEF, isto é, da Caixa Econômica Federal, provável agente financiador da construção do conjunto de moradias. A Vila Cefer são duas, e Cefer I e a Cefer II, diferentes por conta dos dois modelos de casas que foram construídas. E foram dezenas, quiçá centenas de casas de cada um dos dois modelos. Claro, que no decorrer destes anos todos, os moradores fizeram as suas customizações. Muitas casas, originalmente de madeira, foram transformadas em casas de alvenaria; outros moradores chegaram a produzir sobrados de dois andares. Infelizmente algumas, poucas, também incendiaram, e já houve caso de saque em que uma casa inteira foi roubada, deixadas de pé apenas as paredes do banheiro.

A minha família se mudou para a Vila Cefer 2 em 1975, e ali eu passei o final de minha infância. Não digo que foram os dias mais felizes de minha infância. Certamente eu era mais feliz quando morava em uma casinha na Chácara das Pedras, sem banheiro, quando este bairro era um arrabalde com iluminação pública precária, ônibus demorados, e muita dificuldades para achar um táxi.

Eu acho que foi no verão de 1978/1979, mas pode ser que tenha sido no verão seguinte, ou mesmo no anterior, mas certamente foi no final da década de 1970.

De repente a gurizada que jogava bola nas ruas da Vila Cefer 2 descobriu a existência da escolinha de futebol do Cruzeiro. De repente, todo mundo se achou boleiro, e seguiu para o Estrelão, para treinar e jogar na escolinha. Bem, nem todo mundo. Eu mesmo nunca cheguei a ir, era muito perna-de-pau para querer tentar jogar em uma escolinha de futebol. Éramos quantos meninos que corríamos atrás de uma bola naqueles dias? Uns sete, oito? Na verdade não me lembro. Não lembro quantos deles iam para o Estrelão, mas eu não fui.

Um dos meus amigos, de então, o Marco Antônio*, até que me incentivou ir, a tentar. Mas junto, contra-argumentando estava o Gavião, comentando, “Pô, Marco, sabe uma ferida? Uma ferida do tamanho de um joelho?” “O que tem isso?”, perguntou o Marco. “Isso é o Zé jogando futebol”. Vejam vocês o quanto o meu futebol era reconhecido.

Mas acho que a turma ia. O Alexandre, que foi à escolinha, mas já era praticante de judô, os irmãos Mário e João (um sempre defendia o outro quando brigávamos, ou seja, ou a briga acabava num, digamos, empate, ou eu apanhava), o Antônio, que pela minha lembrança era um pouco acima do peso, mas sabemos que isso pode não significar nada, depois dos sucessos de Maradona e Ronaldo Nazário. O próprio Marco Antônio que tentara me incentivar.

Ir da Cefer ao Estrelão era fácil. São cerca de 4 quilômetros, em uns 30 ou 40 minutos a turma fazia o percurso. Era um tempo de menos medo. A turma, com idades entre 12 e 15 anos ia a pé, subindo a Antônio de Carvalho e a Protásio, e descendo, também a pé, na volta.

Infelizmente aqueles boleiros não floresceram. E também se tivessem florescido não seria no Cruzeiro que isso iria acontecer. Se o futebol da turma tivesse sido bom a ponto de chegar ao profissional, teriam se tornado futebolistas profissionais ali pela metade para o final da década de 1980. Mas existia futebol profissional no Cruzeiro de Porto Alegre naquela época? Não tenho certeza, mas acho que não.

O destino da turma seguiu outros rumos. Uns se tornaram funcionários públicos, outros pequenos empresários, e é certo que eu ignoro o destino de alguns deles. Infelizmente, o Antônio acabou por morrer prematuramente em um acidente. Pena.

Mas naquele final da década de 1970 alguns meninos da Vila Cefer sonharam em ser jogador de futebol do Cruzeiro de Porto Alegre.






15/03/2011.






*Os nomes e apelidos foram trocados para evitar constrangimentos.

"Estado Burguês"

"Estado Burguês"


Marxistas puros e duros, e mesmo marxistas vulgares (marxistas puros são aqueles que leram o livro O Capital, de Karl Marx; marxistas vulgares são aqueles que só leram O Manifesto Comunistas, ou o Manifesto do Partido Comunista e alguns comentaristas e vulgarizadores da obra do filósofo alemão. Há ainda uma vertente de adeptos dos irmãos Groucho e Harpo Marx) dizem que, com a Revolução Francesa de 1789, a burguesia chegou ao poder no ocidente.

Nos livros de História, aqui no Brasil, eu pelo menos aprendi, até a primeira metade da década de 1980, que a Revolução Francesa de 1789 serviu para "acabar com o Feudalismo na Europa", e que o poder político passou da Nobreza para a Burguesia. Parece que estes mesmos conceitos acabaram sendo transmitidos para meu filho que está no início do segundo grau. Ele havia decorado os conceitos, mas não me respondeu satisfatoriamente o que significava feudalismo, nem nobreza, nem burguesia. Vamos tentar conceituar isso tudo.

O Feudalismo foi um sistema pelo qual parte do poder do rei era concedido aos seus nobres. Na ordem que se estabeleceu no Ocidente, o poder do rei provinha diretamente de Deus, e em nome Dele, o rei reinava e concedia dádivas. Os nobres foram se constituindo a partir de dois meios, a antiga nobreza romana, o patriciado, e os guerreiros que serviam aos reis que por muito tempo foram chamados de bárbaros (na verdade ainda há muitos que chamam os povos germânicos, e os vindos de oriente, e que penetraram na parte ocidental do antigo Império Romano de "bárbaros". Isto servia bem aos romanos que, às vezes, os combatiam [em outros momentos estes mesmos "bárbaros" eram transformados em aliados] para diminuir estes outros povos, hoje não me parece haver muito sentido em chamá-los de "bárbaros", a não ser para dizer que eram diferentes dos cidadãos do Império Romano). O rei, em nome de Deus, era o "dono" de toda a terra que um povo ocupava, mas distribuía parcelas desta terra aos nobres, uma parcela distribuída era um "feudo" (um poço, ou um porto também poderiam ser "feudos" distribuídos, mas vamos aqui, para simplificar, nos ater à terra). Quem recebia a terra era um senhor feudal, e um nobre. Era-se nobre com base em nascimento, naquelas condições anteriores ditas, ou, excepcionalmente, por nomeação do rei. Um nobre valia mais que quem não fosse nobre. Tinha mais direitos, eventualmente tinha poder de vida e morte sobre os camponeses (servos) que trabalhassem em suas terras. Este sistema vigorou, com matizes, no chamado Ocidente Cristão entre aproximadamente o século VI e o século XVIII. O chamado exemplo clássico de feudalismo teria sido o reino da França.

A Revolução Francesa é o auge de um processo que poderíamos situar o início lá pelo século XII ou XIII, quando uma certa prosperidade começa a surgir na Europa, o comércio e as cidades começam a crescer, e um tipo de sistema legal vinculado à terra, e no qual algumas pessoas têm mais direitos que outras começa a se tornar anacrônico.

Assim, os burgueses, isto é, os homens que normalmente viviam em cidades e eram proprietários das pequenas manufaturas que faziam as vezes de indústria da época, bem como os comerciantes, lideraram a luta para que todos fossem iguais perante o sistema legal. Isso aconteceu primeiro na Inglaterra, no século XVII, e só um século depois na França. Com a Revolução Francesa, embora com uma série de idas e vindas, ficou estabelecido que mesmo o rei deveria obedecer a uma constituição, e que todos os homens seriam iguais perante a lei (a tal igualdade do lema "liberdade, igualdade e fraternidade" que enfeita as referências à Revolução Francesa). As pessoas que se consideram politicamente liberais costumam se referir assim a si mesmas.

Espero que tudo tenha ficado claro até aqui. Esta que foi explicada, é a versão digamos assim, idealizada da história da Revolução Francesa. Fim de privilégios da nobreza, fim do poder absoluto do rei, direitos iguais para todos os cidadãos.
A versão marxista variaria um pouco. Em resumo, diria que com a Revolução Francesa, a burguesia, os mesmos comerciantes-negociantes e donos de manufaturas, conseguiram dominar o poder do estado, e desde então procuram tirar benefícios desse poder para si mesmos, com a criação de leis que lhes permitam acumular o máximo de poder e riqueza possível. Assim, são criadas leis com o sentido de dificultar associações de trabalhadores para que eles, os trabalhadores, não possam fazer reivindicações que diminuam a riqueza da burguesia. Também é assim que os primeiros direitos de voto, estabeleciam sistema de votação censitário, em que o eleitor deveria demonstrar ter acesso a certa quantidade de riqueza para poder votar. Simplificando ao extremo, o estado se tornou um instrumento da burguesia.


Este texto foi publicado no meu blog Ainda a Mosca Azul, em 19 de maio de 2011. Resolvi copiá-lo porque tem sido um dos mais visitados daquele blog.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cartão de Infidelidade

Cartão de Infidelidade

Naquela quarta-feira, como muitas vezes fazia, Arnold foi à farmácia. Precisava de alguns remédios, para ele e para sua esposa. Chegou junto ao balcão, e logo foi atendido. Ao citar o nome das medicações, a atendente informou que parte daqueles remédios faziam parte do programa “Farmácia Popular”, do governo. Se ele tivesse a receita, alguns deles seriam gratuitos.

“Pois é. Mas infelizmente eu perdi a receita.” - Informou Arnold à atendente. E sentiu-se chateado de ter que pagar por algo que poderia ter lhe saído de graça.
Escolhidas as medicações, Arnold se dirigiu ao caixa para pagar. Entregou à operadora o cartão de identificação do seguro-saúde, para um desconto; o cartão de crédito, para o pagamento; e o cartão de fidelidade da farmácia...

A operadora de caixa digitou a identificação do plano de saúde, e passou o cartão de fidelidade. O cartão de fidelidade estava vencido. Que fazer?

“O senhor liga para o telefone que está no verso do cartão para pedir novo cartão. Depois o senhor volta à loja para que os pontos desta compra lhe sejam creditados.”

“Muito bem.” - Pensou Arnold.

A operadora passou o cartão de crédito e entregou a papeleta da compra para que Arnold assinasse. Ele assinou e foi embora.

Tão logo se encontrou com um telefone, ligou para o número do verso de seu cartão de fidelidade vencido. A voz robótica lhe demandou que digitasse o número do cartão nas teclas do telefone. Arnold fez isso. “Número inválido! Digite o número de seu cartão!”. Arnold tentou novamente, caprichando para ter certeza que tocava as teclas certas. “Número inválido! Ligue novamente!”. Arnold repetiu a lide, e aconteceu a mesma coisa.

Por fim, resolveu ligar para o suporte ao cliente da rede de farmácias. A atendente lhe sugeriu ligar novamente para o número do cartão e usar a opção de análise de crédito, em lugar de atendimento ao cliente por número do cartão. Uma voz humana o atendeu, mas não adiantou. O número do cartão realmente não existia para aquela administradora.

Arnold voltou a ligar para o suporte ao cliente da rede de farmácias. Arnold relatou novamente o seu caso. “Mas o seu cartão é também de crédito, ou apenas para juntar pontos?” - Perguntou a atendente. “Eu acho que é só para juntar pontos.”. Arnold de fato não estava seguro, mas nunca havia usado o tal cartão de fidelidade da farmácia como cartão de crédito. “Então o senhor volte à farmácia, que a loja deve emitir um novo cartão para o senhor. Mas serão debitados do senhor 150 pontos pela emissão do novo cartão.” Arnold ficou chateado. Por que cargas d'água um cartão de fidelidade tinha data de vencimento? E por que era preciso perder pontos para emitir um novo?

No dia seguinte, Arnold voltou à farmácia. Quando foi atendido, contou a atendente sua desventura com o cartão de fidelidade da rede. Arnold entregou o cartão vencido à atendente. Ela perguntou “O seu cartão é só de pontos? Ele parece é igual ao cartão de crédito da farmácia”. Arnold informou que ele só usava o cartão para juntar pontos. “Certo. Então vamos emitir um novo.” E se dirigiram a um terminal de computador para que fosse feita a emissão.

Cartão novo emitido, Arnold lembrou à atendente que a operadora de caixa lhe dissera que as compras do dia anterior poderiam ser incluídas no cartão até sete dias depois. A atendente tentou acrescentar as compras. O sistema recusou. O sistema não permitia que compras com data anterior à da emissão do cartão fossem inseridas como pontos. “Ué? Mas e o que a caixa havia dito?” - Reclamou Arnold. “O senhor desculpe. Acho que houve uma falha de comunicação.” - Respondeu a atendente, visivelmente constrangida.

Resignado, Arnold pegou o cartão novo, colocou em sua carteira e foi embora. Pensou se não deveria ter feito um escândalo, levantado a voz, quebrado o cartão na frente da atendente, e atirado os pedaços no chão da loja (ou pior, na cara da atendente). Não, pensou consigo mesmo. Não era do seu feitio, não valia a pena.

Saiu da farmácia, e pensou nos diversos filmes que já vira, em que as pessoas esbarravam em sistemas impessoais. Pensou em “Amor sem Escalas”, onde o personagem vivido por George Clooney dava sentido à sua vida solitária, com o cartão de milhagem de uma companhia aérea, e com o cartão de fidelidade de uma empresa de aluguel de automóveis. Pensou ainda da distopia de Terry Gilliam, chamada “Brazil”, onde a entrada de um inseto na máquina que emitia mandatos de prisão faz com que esta grafe de maneira incorreta o nome do suspeito, e por conta desse erro, um inocente seja preso e torturado.

Pensou também que o tal cartão de fidelidade fazia com que o cliente fosse fiel à loja, mas ele acabara de constatar que a loja não precisava ser fiel ao cliente. Assim vale a pena ser fiel.

Arnold ia com estas elucubrações, já distante da tal farmácia que gerara todo este relato, quando afinal confabulou com seus botões, “Mas para quê mesmo serve este cartão?”





31/03/2011.