quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Deus é uma ideia


Deus é uma ideia




“Deus é uma ideia”. Foi assim que um professor falou em uma das tantas aulas da faculdade. Esse professor em particular era uma pessoa bastante curiosa. Nominalmente a disciplina que ele ministrava era economia. Mas o que ele fazia mesmo era ordenar aos alunos que lessem e discutissem um livro de um certo filósofo de orientação marxista tcheco não muito conhecido. No livro do tal filósofo tcheco há uma colocação interessante que dizia, mais ou menos, que não interessava tanto discutir a existência ou não de Deus, quanto estudar as sociedades que produziram certo culto a Deus.

Conheci também um pastor de uma igreja protestante que tinha uma abordagem parecida com esta de afirmar que “Deus é uma ideia”. Para este pastor não fazia sentido que os ateus dissessem que “Deus não existe”. “Como assim?” - dizia este pastor - “Primeiro você afirma 'Deus', para depois dizer que 'não existe' ”. Como muitos clérigos, este pastor tinha estudado filosofia, além de teologia. E o que a princípio pode parecer apenas um sofisma, era, na verdade, uma sincera tentativa de apologética, de defesa da fé e defesa da crença.

Ateus também gostam de brincar com a ideia. Esses tempos vi o que seria digamos, uma “campanha de esclarecimento”, querendo que mais pessoas pensem como eles. Um outdoor informava que “Somos todos ateus em relação a Thor”, ou algo assim. Ou seja, um cristão é ateu para com um deus que não seja o dele. Alguns desses ateus gostam de fazer troça dos crentes, afirmando que Deus é uma ideia para nos amparar e consolar num mundo sem alma, onde tudo é fruto do acaso. Algo como se a criança que acreditava em “Papai Noel”, se tornasse um adulto que acredita em “Papai do Céu”.

É verdade que a ideia de Deus pode ser instrumentalizada de diversas maneiras, e guerras já foram declaradas por conta de determinadas concepções de Deus ao longo da história humana. Mas eu tenho a impressão que isso tem mais a ver com cobiça e desejo de conquista. A ideia da vontade de Deus envolvida na guerra seria mais uma espécie de racionalização. De qualquer maneira, me parece que os Papas que declaravam que Deus apoiava as Cruzadas realizadas entre os séculos XI e XIII eram sinceros em suas crenças e declarações.

Pois é, as pessoas podem ser sinceras em suas crenças, mesmo que a tal crença possa parecer absurda a outrem.

Vez por outra eu vejo uma jovem senhora mendigando junto com seu filhinho que não deve ter mais de dois anos. Ela costuma mendigar próxima a uma mercadinho, um ponto estratégico.

Sempre que alguém oferece a ela víveres, que contribuem para a sua sobrevivência, ela costuma sorrir, e agradecer e dizer “Deus lhe abençoe”. Pode ser que ela conclua que os alimentos que ela acabou de receber sejam de fato uma dádiva de Deus, e ela deseja que Deus retribua à pessoa que está exercendo o gesto de generosidade.

Ou pode ser que ela seja uma pessoa que conscientemente use a ideia de Deus para estimular a generosidade de seus benfeitores, ainda que não acredite Nele.

Mas eu não consigo acreditar nessa última hipótese. Seria mais fácil apenas sorrir e dizer “obrigado”.






12/01/2012.






Diário - Leituras - O Brasil e a URSS na Guerra Fria


Diário - Leituras - O Brasil e a URSS na Guerra Fria




Recentemente li o livro “O Brasil e a URSS na Guerra Fria, a Política Externa Independente na Imprensa Gaúcha”. Eu havia adquirido o livro na Feira do Livro de 2010, mas só no final do ano passado consegui lê-lo.

A primeira advertência a fazer é que este primeiro título é enganoso. O livro trata pouco dos conceitos de Guerra Fria, e dos papeis da União Soviética e do Brasil no contexto da Guerra Fria. Acredito que tal título foi uma jogada de marketing da editora, para tornar o livro mais atrativo. A realidade do livro está no que ficou no sub-título, "A Política Externa Independente na Imprensa Gaúcha", com enfoque principal no jornal Correio do Povo. Trata-se da publicação, com as devidas adaptações editoriais, da dissertação de mestrado em História do autor, Charles Sidarta Machado Domingos.

Neste aspecto, de publicação de dissertação de mestrado, a obra é de fato magistral, sendo um bom exemplo das pesquisas que são realizadas em programas de pós-graduação em História no país.

O autor trabalha bastante o conceito do que seria a Política Externa Independente, uma política externa que fosse independente do alinhamento com os interesses dos Estados Unidos, embora não necessariamente simpática a antiga União Soviética, nêmesis dos Estados Unidos no período que durou a Guerra Fria, que deu seus primeiros passos no breve governo de Jânio Quadros, e continuou durante o governo de João Goulart. E em sua pesquisa o autor procura mostrar como a imprensa gaúcha, em especial o jornal Correio do Povo, principal jornal impresso do Rio Grande do Sul no período analisado (início da década de 1960), lidou com essa iniciativa durante o Governo João Goulart.

Neste aspecto a obra vai além do trabalho de pesquisa histórica, e também entra nas ciências de comunicação, como uma crítica de mídia, tema bastante em voga hoje em dia, embora, por seu caráter histórico, cronologicamente datado. O autor começa por situar o Correio do Povo, como um jornal que queria se ver como neutro e objetivo no momento em que surgiu, no final do século XIX, uma época em que boa parte da imprensa gaúcha era composta de veículos dos partidos então existentes. Apesar das suas supostas neutralidade e objetividade, o autor demonstra como o Correio do Povo tinha seus interesses e seus alinhamentos de classe, desde que surgiu.

No início da década de 1960 a empresa jornalística Caldas Júnior, editora do Correio do Povo, era uma empresa em oposição ao governo estadual de Leonel Brizola, do PTB, por conta da encampação que este havia exercido sobre a Rádio Guaíba, também pertencente ao grupo, para criar a Rede da Legalidade, na crise gerada pela renúncia de Jânio Quadros à presidência da república em agosto de 1961. Breno Caldas, proprietário do grupo Caldas Júnior, era um liberal, e a desapropriação temporária de sua rádio mexeu com seus brios.

A sutil oposição ao governo do estado se repetiu na posição demonstrada nas páginas do Correio do Povo contra a Política Externa Independente, levada a cabo pelo mesmo PTB do presidente João Goulart, e do chanceler (ministro das relações exteriores) Santiago Dantas. Não claramente contra, através de editoriais, mas dando mais voz a lideranças de oposição, ou mesmo ao arcebispo de Porto Alegre, numa época de lideranças católicas anti-comunistas e ainda com bastante influência junto à população. Meticuloso, o autor teve condições inclusive de medir espaços dedicados ao assunto, contra e a favor, nas páginas do jornal, bem como os locais de exposição, como capa, contracapa, página par ou ímpar, definições sutis que podem influenciar o leitor.

Para completar, o livro conta com alentada bibliografia ao final.

Como foi dito, um interessante trabalho de pesquisa histórica, e de crítica de mídia.






17/01/2012.

DOMINGOS, Charles Sidarta Machado. O Brasil e a URSS na Guerra Fria – A Política Externa Independente na Imprensa Gaúcha. Porto Alegre: Suliani Letra e Vida Editora, 2010.



domingo, 26 de fevereiro de 2012

Diário - cinema - A Invenção de Hugo Cabret


Fui assistir o filme "A Invenção de Hugo Cabret" num dos dia do feriadão do Carnaval.

É um belo filme. Mais uma homenagem ao cinema, como o, também em cartaz, "O Artista".

É um dos poucos filmes em 3D que vi em que o 3D não me parece um artifício "caça-níquel".

E tem a gracinha da Chloë Grace Moretz, que havia trabalhado no filme "Kick Ass".

E mais do que isso eu não saberia dizer do filme. Mas, como eu disse, é um belo filme. Meu palpite para o filme vencedor do Oscar de 2012.


 23/02/2012.

O Artista


O Artista


Porto Alegre, 17 de fevereiro de 2012.


Cara Ms. K.


Por estes dias, por duas vezes me lembrei de seu filho.

Uma foi quando vi num noticiário na TV que uma escola de samba iria usar um grupo de sapateado na sua comissão de frente, neste Carnaval de 2012. O pior é que nem me lembro se a tal escola de samba era do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Mas de qualquer maneira me lembrei do seu filho. 

Não são muitas as pessoas que eu conheço que praticam sapateado... Também não conheço pessoalmente seu filho, embora eu tenha sabido dessa arte praticada por ele, através de suas palavras.

A segunda foi ao assistir ao filme “O Artista”, atualmente em cartaz.

O Artista foi um filme que fui assistir com pouca expectativa. Era difícil pensar que um filme mudo pudesse ser grande coisa em pleno século XXI, oitenta anos após os filmes serem falados por padrão.

Mas o filme me surpreendeu positivamente. Começa como comédia, e aos poucos se transforma num drama. Portanto, durante a sessão é possível tanto rir, quanto chorar em alguns momentos. O filme é uma produção francesa, mas engana. Os diálogos são propostos em inglês. A recriação de época, o final dos anos 1920 e o início da década seguinte, é primorosa. E ainda há a atuação de John Goodman, ator americano, como coadjuvante. É um filme que fala de obsolescência, de decadência e de redenção.

Ainda por cima tem um cãozinho que é um show a parte.

E há sapateado no filme.

Como a arte que seu filho pratica.

Acho que é um filme que a senhora não deveria deixar de ver.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Diário - cinema - Sherlock Holmes 2, O Jogo das Sombras


Diário - cinema - Sherlock Holmes 2, O Jogo das Sombras

Neste fim de semana fui assitir ao filme Sherlock Holmes 2.
O filme estrelado por Robert Downey Jr. e Jude Law é divertido. Jared Harris como o professor Moriart é muito bom. Há lutas, tiros e explosões para todo lado. E há os característicos momentos de "slow motion" do diretor Guy Ritchie.
Mas é isso. A recriação de época pareceu melhor no primeiro filme da série. O enredo é meio enrolado.
Mas tudo bem. É um ótimo motivo para comer pipoca e se distrair.


30/01/2012.