quinta-feira, 29 de março de 2012

Diário - leituras - Istambul, de Orhan Pamuk


Diário - leituras - Istambul, de Orhan Pamuk


Como registrei aqui, tempos atrás, por conta de uma cadeira na faculdade de História, eu havia lido o livro História de Bizâncio, de Emilio Cabrera. O livro de Cabrera é bom, didático e esclarecedor, eu diria que altamente recomendado como um livro de referência sobre o antigo Império Romano do Oriente, e seus mais de mil anos de história.

O fim deste Império, também conhecido como Império Bizantino, se deu após uma lenta decadência, em 1453, com a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos. Depois disso os turcos continuaram suas conquistas, estendendo seu império pelos Bálcãs, tendo inclusive sitiado Viena, sem conquistá-la, isso mais de 200 anos após a conquista de Constantinopla.

Assim, tive curiosidade para tentar saber um pouco como seria a cidade de Constantinopla, ou agora Istambul, hoje em dia. A oportunidade apareceu com o livro "Istambul", de Orhan Pamuk. Eu poderia procurar livros de história contemporânea da Turquia, que poderiam abranger Constantinopla/Istambul. Desconfio que a maioria deles teria sido escrita por ocidentais que estudaram a História da Turquia, e eventualmente eu encontraria também autores turcos. Contudo seria sempre o olhar de historiadores, em busca da objetividade possível. Faltaria aquele olhar subjetivo, do cidadão de Constantinopla/Istambul. O livro de Pamuk tem esse ponto de vista subjetivo. Bastante subjetivo, inclusive.

Poder ler o livro de um autor turco traduzido para a língua portuguesa é um privilégio. Não creio que sejam muitos os autores de língua turca disponíveis em traduções para o português no Brasil. O privilégio é derivado do autor ter sido escolhido como Prêmio Nobel de Literatura em 2006.

O livro "Istambul" mistura ficção com as memórias da infância e adolescência do autor, e ainda as narrativas de cronistas turcos do início do século XX, e dos viajantes ocidentais em visita à cidade no século XIX. É uma romantização de sua formação, desde o nascimento até o início da idade adulta, onde cronologicamente o livro termina.

Pamuk é oriundo de uma família burguesa de Istambul. A família vivia em um edifício na cidade, que abrigava toda a família, chamado muito propriamente Edifício Pamuk. No decorrer de sua infância, a fortuna da família foi se desfazendo ao sabor de negócios fracassados levados a cabo por seu pai e seus tios.

Istambul é cercada por águas. Há o canal do Chifre do Ouro ao norte da cidade antiga. E há o Bósforo. O Bósforo é uma personagem fundamental da narrativa. Local de passeios familiares na infância. Local de muitas embarcações ligando as partes europeia e asiáticas da cidade. O Bósforo com suas pontes modernas de onde, diz o autor, alguns motoristas despencavam com seus automóveis em uma forma peculiar de cometer suicídio. O Bósforo que foi alvo de representações de Pamuk em um momento em que ele pensou em se tornar artista plástico, e desenhava porções da cidade.

E uma das primeiras coisas da qual ele fala é da "huzun", uma palavra turca que designa tristeza, mas que também expressa uma certa nostalgia de um período no passado, em que o império turco foi muito mais grandioso.

Pamuk é aparentemente agnóstico, ou mesmo ateu. Mas ele diz que em determinado ponto de sua existência, ele concebeu uma representação singular de Deus. Deus como uma mulher. "(...) devastado pela idade e envolto em xales brancos, Deus tinha o rosto sem traços de uma mulher altamente respeitável", diz ele na página 188 desta versão.

Como eu havia dito, eu resolvi ler o livro para ver se um turco dos dias de hoje teria alguma coisa a dizer sobre Constantinopla e o antigo Império Bizantino. Orhan Pamuk tem um pequeno capítulo a respeito do assunto. Ele começa dizendo que afora Hagia Sofia, as ruínas do muros antigos, algumas antigas igrejas, havia pouco a respeito dos bizantinos do que ele pudesse pensar ou se preocupar. Supostamente os bizantinos haviam sumido com a conquista de Constantinopla pelos otomanos no século XV. Depois é que ele se deu conta que havia descendentes de gregos que viviam em Istambul quando ele era criança, e que estes gregos poderiam bem ser descendentes daqueles bizantinos conquistados cinco séculos antes. Pelas lembranças de Pamuk, os descendentes de gregos em Istambul era um comunidade relativamente grande. Ele chega a pensar em talvez a metade da população no início do século XX. Era discriminada, mas relativamente próspera, agrupada em alguns bairros de Istambul. Alguns desses gregos tinham pequenos comércios.

Mas segundo Pamuk tudo mudou a partir do início dos anos 1950. Na memória da família Pamuk, transmitida a Orhan, aqueles foram anos de perseguição aos gregos, e o que ele descreve é o equivalente a um pogrom contra a população grega de Istambul. Lojas saqueadas e depredadas, casas incendiadas, homens mortos, mulheres violentadas. Segundo Pamuk isso teria feito com que mais descendentes de gregos abandonassem Istambul nos últimos 50 anos, que nos 50 anos que se seguiram à conquista de Constantinopla pelo sultão Mehmet II (ou Maomé II, como dizem alguns livros de História que li aqui no Brasil). Posso dizer que essa descrição aterradora, porém breve, me deixou de boca aberta. Segundo Pamuk, a perseguição aos descendentes de gregos contou com o apoio do governo turco de então, e fazia parte de uma "turquificação" de Istambul. Uma maneira de acabar os diferentes na cidade.

Com suas dezenas de fotos e ilustrações, o livro é uma ótima mistura de reminiscências, com as memórias da própria cidade. Eu gostaria de ter escrito um livro assim.



PAMUK, Orhan. Istambul: memória e cidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


19/03/2012.


sábado, 24 de março de 2012

Chico Anysio (1931-2012)


Chico Anysio (1931-2012)



Esta tarde foi anunciado pelos meios de comunicações o falecimento do humorista Chico Anysio.

A primeira coisa que me veio à mente foi que ele vai fazer falta.

A segunda foi que eu cresci vendo programas humorísticos estrelados por ele. Chico City, Chico Total, Escolinha do Professor Raimundo, ... Foram vários.

E o curioso é que em minhas lembranças infantis, da década de 1970 mais ou menos, eu não achava Chico Anysio tão engraçado, preferia o Jô Soares. Depois acho que fui crescendo e ficando mais disposto a rir de Chico Anysio.

E a última lembrança que tenho dele foi desse quadro piegas do Fantástico, num domingo do final de 2011. Ali, onde ele reflete sobre a vida e a vida dele, ele fez a revelação, surpreendente para mim, que consultava um psiquiatra. Na minha ingenuidade, eu imaginava que humoristas não precisassem de psiquiatras. Mas isso parece que não tem jeito. Humoristas também são artistas, e artistas têm a capacidade de sentirem o peso do mundo sobre si. Provavelmente Chico Anysio não era exceção.

Pois é. O tempo passa para todo mundo.

Mas Chico Anysio vai deixar saudades.



23/03/2012.





quarta-feira, 21 de março de 2012


Diário - leituras - O Século Soviético



A União Soviética foi um marco fundamental do século XX. Ela surgiu após uma revolução que gerou a segunda experiência socialista na história (a primeira foi a Comuna de Paris, de 1870, surgida na esteira da derrota francesa para os prussianos e esmagada após o armistício da Guerra Franco-Prussiana), num momento de grande efervescência do movimento operário e dos partidos que procuravam representar a classe trabalhadora. E por conta dessa busca do socialismo praticamente expulsa do "pacto das nações". Como o Haiti no início do século anterior o pais foi isolado pelos demais países. Mas diferentemente do Haiti pôde resistir ao assédio por conta de seu extenso território, portador de uma vastidão de recursos.

Esta experiência do socialismo, apontava para um governo que dizia trabalhar no interesse dos trabalhadores do mundo todo. Por conta disso, foi considerada uma esperança de redenção para estes mesmos trabalhadores, e angariou simpatias e aliados por todo mundo. Também por conta disso, disparou rancorosas reações, cuja mais saliente foi o anti-comunismo abraçado pelos Estados Unidos no decorrer do governo Truman, e por todos os seus sucessores.

O livro de Moshe Lewin, "O Século Soviético", é uma tentativa de analisar esta experiência iniciada em 1917 e terminada em 1991.

Lewin mostra as condições da Rússia do início do século, e toda a série de circunstâncias que que acabaram por levar os bolcheviques ao poder, os anos de guerra civil (1917-1921), a ascensão de Stálin, as mudanças pelas quais passou o país com os sucessores de Stálin a partir de 1953, até o fim da União Soviética, com o fracassado golpe de estado de 1991.

Lewin informa que foi durante a União Soviética que se deu a urbanização e a industrialização do país. Mas para que o país pudesse se urbanizar e industrializar, ele teve que vencer o desafio da educação, pois a Rússia czarista tinha grande parte de sua população analfabeta. Além disso, como já foi dito, a União Soviética ficou isolada dos demais países do mundo. Assim, enquanto o país se urbanizava, era necessário que fossem criados incentivos para que parte dos trabalhadores ficassem no campo, pois era preciso abastecer de alimentos as cidades.

E isso é outra coisa que podemos ver que o autor se esforça para ver: como a população em geral reagia ao sistema soviético. E segundo Lewin, as pessoas tinham bastante autonomia para deixar o campo pela cidade, ou ir de uma cidade para outra em busca de melhores oportunidades de vida. Porque, afinal, se não houvesse pessoas para trabalhar, não poderia haver governo que resistisse.

O autor comenta sobre como Stálin transformou o partido socialista numa espécie de seita ou religião, da qual ele se tornou o líder máximo, seu sacerdote e profeta. Assim ele pôde se desfazer de seus rivais, como uma religião se livra de alguns seguidores ao chamá-los de "heréticos". Além disso, segundo Lewin, Stálin governou pelo método paranoico, desconfiando de todos, e sempre atribuindo a algum subordinado eventuais fracassos do país.

E foi sob Stálin que o país teve o seu momento mais totalitário, quando houve o maior número de encarceramentos e fuzilamentos de opositores.

Com a morte de Stálin, tudo se suaviza. Inclusive os derrotados nas lutas intestinas da cúpula dirigente, são apenas afastados do poder, mas permanecem vivos e saudáveis. No máximo vigiados.

Ainda a propósito dos cárceres soviéticos, no durante o governo de Stálin, Lewin situa em cerca de 2 milhões o total de encarcerados do período, e que cerca de 700 mil pessoas morreram nesses cárceres entre 1931 e 1947. O número é expressivo mas fica longe dos "20 milhões de mortos" sob Stálin, como a indústria do anti-comunismo bradou por tanto tempo (existem algumas viúvas do anti-comunismo por aí que ainda acreditam nesses alegados 20 milhões de mortos).

O livro é fruto de pesquisas nos arquivos russos, possui um índice remissivo, e apêndices com estatísticas do regime. Pena que o autor não forneça uma bibliografia no final. Em todo caso, um livro imperdível para quem se interessa pela história da União Soviética.



LEWIN, Moshe. O Século Soviético. Rio de Janeiro: Record, 2007.


08/03/2012.





O Bom Velhinho se foi



O Bom Velhinho se foi



Pois é, Mrs. R., o bom velhinho se foi.

Fazia algum tempo que eu tinha vontade de perguntar "como está o teu pai?" quando passava por ti, no corredor da empresa, mas ficava inseguro, pensando se era possível que ele já tivesse falecido. Contudo eu imaginava que quando acontecesse o falecimento dele, teu pai, os colegas seriam alertados por mensagem interna. Pois este dia chegou. Chegou antes que eu vencesse as minhas incertezas para perguntar sobre a saúde dele.

Agora ele descansa das obras que realizou. A liderança de uma comunidade luterana no interior, a criação das filhas, a convivência com os netos, a edição do jornal da comunidade.

As obras da comunidade outros terão que levar adiante.

A vida dos descendentes continua. Agora com mais saudade. O reencontro de tempos em tempos não mais acontecerá, a não ser num reencontro futuro, de um futuro cheio de esperanças.

Pois é, Mrs. R., meus pêsames pelo passamento do Reverendo, teu pai.



Texto escrito por ocasião do passamento do pai de uma colega.

09/03/2012.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Diário - leituras - O Brasil Privatizado


Diário - leituras - O Brasil Privatizado





Resolvi ler o livro “O Brasil Privatizado”, de Aloysio Biondi, por conta da leitura anterior de “A Privataria Tucana”.

O livro é uma grande denúncia sobre a privatização levada a cabo nos anos 1990, durante o governo FHC, cujos principais ativos vendidos foram as empresas estatais de telefonia e eletricidade, embora tenham sido vendidas também empresas estatais de petroquímica e siderúrgicas.


O interessante das denúncias de Biondi é que nem é possível dizer que ele fosse contra as privatizações em si. Curiosamente, ele cita o sistema de privatizações inglês da Sra. Margareth Thatcher, como um exemplo melhor do que o que foi feito no Brasil. Margareth Thatcher foi mãe fundadora do neoliberalismo que vigora até hoje em dia no capitalismo mundial. 


Mas, segundo Biondi, no modelo de privatização inglês, as ações de empresas estatais foram vendidas na Bolsa de Londres, e, em tese, qualquer súdito de Sua Majestade a Rainha Elizabeth, se possuísse algumas economias poderia comprar estas ações. Também segundo Biondi, este modelo foi seguido em privatizações realizadas na França e na Itália.


Não foi o caso do Brasil.


Aqui muitas estatais que eram deficitárias foram saneadas, e entregues aos grupos que se candidatassem a comprá-las.


Ele conta alguns exemplos extremos. Para que o Banco do Estado do Rio de Janeiro fosse privatizado, o governo daquele estado tomou um empréstimo junto ao Governo Federal de 3 bilhões de reais, para fazer um plano de demissões voluntárias dos funcionários, assumir o passivo trabalhista do banco, e o plano de previdência do banco. Depois disso o banco foi vendido por pouco mais de 300 milhões de reais, ou um pouco mais de um décimo da dívida contraída pelo governo estadual para sanear o banco.


No caso da telefonia, as empresas do sistema Telebrás tinham dificuldades para entregar linhas telefônicas, e trabalhavam com déficit. Mas as tarifas estavam achatadas. O que o Governo Federal fez antes das privatizações? Aumentou as tarifas em 400%, e capitalizou as empresas, que expandiram a sua infraestrutura antes das privatizações. E garantiu aos futuros compradores reajustes automáticos de tarifas, com base em um índice de inflação. Com esses investimentos, o aumento das tarifas, e o reajuste automático, ou as empresas poderiam permanecer estatais e começariam a entregar as linhas telefônicas que os consumidores necessitassem.


Mas o Governo FHC pensava que faria melhor vendendo o patrimônio estatal, e assim foi feito. As empresas do grupo Telebrás forma vendidas para multinacionais como a Telefônica da Espanha, ou por consórcios de empresas montados às pressas para a privatização, como no caso da Telemar/OI.


E assim, com as empresas de telefonia capitalizadas, com aumento de tarifas, e com infraestrutura lançada antes das privatizações, as empresas privatizadas começaram a entregar linhas telefônicas, dando a impressão que havia sido por causa da privatização que os consumidores passaram a ter acesso aos telefones.


No caso da privatização parcial do sistema de geração e distribuição de energia elétrica isso não aconteceu, e mesmo com o sistema semiprivatizado, o país viveu um racionamento de energia no segundo mandado do governo FHC.


O livro de Biondi é didático.


E no final possui tabelas demonstrativas das vendas de estatais, e das composições de capital destas empresas, antes e depois da privatização.




BIONDI, Aloysio. O Brasil Privatizado. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.



05/03/2012.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Diário - leituras - Partido e Revolução 1848-1989


Diário - leituras - Partido e Revolução 1848-1989



O prefácio indica que este livro é derivado de parte da tese se doutorado do autor, para a Escola de Serviço Social da UFRJ, como uma pesquisa para rever criticamente o desenvolvimento das ideias e praticas socialistas desde o final do século XIX, até próximo do final do século XX. A pesquisa começa pelo Manifesto Comunista de 1848, e os movimentos de libertação do proletariado desde então, passando pela Primeira Internacional, as disputas intestinas no movimento dos trabalhadores, os partidos socialistas e sua evolução para partidos social-democratas, a Revolução Russa e seus desdobramentos, a relação da União Soviética com os partidos social-democratas da Europa, a stalinização do partidos comunistas, a crise gerada pela denúncia dos crimes de Stálin por Kruschev, chegando até a chamada crise do Socialismo Real e o fim da União Soviética e da Cortina de Ferro. É bastante coisa.

O livro é eficiente em tentar mapear os diversos momentos e movimentos pelos quais passaram os que buscaram a emancipação da classe trabalhadora. Contudo ele sofre um pouco do que eu chamaria de "síndrome da história de grandes personagens", isto é, o livro fala de discussões teóricas entre os líderes dos partidos socialistas ou comunistas, fala destes líderes, tais como Marx e Engels, Lênin, Trostsky, Rosa Luxemburgo, Stálin, Togliatti, e outros. Mas fala pouco de como eram os "anônimos" do movimento: quantas pessoas havia nesses partidos? quantos delegados tinham suas convenções? Como viviam as populações afetadas por suas ideias? São questões que ficam em aberto, embora provavelmente estas perguntas estivessem além do foco do autor, mas são perguntas que eu me fazia, e motivos pelos quais eu li o livro. Infelizmente o livro não dá respostas para elas.

É um livro para sintetizar o movimento socialista, com uma boa bibliografia no final, mas fica devendo um pouco. Pelo menos para mim.








BRAZ, Marcelo. Partido e Revolução 1848-1989. São Paulo: Expressão Popular, 2011.




07/03/2012.

sexta-feira, 9 de março de 2012

As Mulheres Veladas do Irã


As Mulheres Veladas do Irã


Fui recentemente assistir o filme "A Separação", do iraniano Asghar Fahardi. Para mim foi impossível não ver o filme com um certo "olhar etnológico".


A Teerã apresentada no filme, supondo que seja Teerã, é semelhante a qualquer cidade do mundo. É Teerã, mas poderia ser Porto Alegre, ou Montevidéu, ou Buenos Aires. Apesar do embargo imposto ao país, os automóveis que vemos no filme são os mesmos que vemos nas nossas ruas.

E o autor se utiliza do filme para mostrar os conflitos no interior da sociedade iraniana, embora de maneira um pouco estereotipada, sendo um lado a classe média secular, e de outro os pobres religiosos.

Mas o curioso mesmo é o uso do véu. Parece um encargo ostensivo e inevitável para as mulheres mostradas no filme, mesmo que algumas possam dirigir automóveis e pintar o cabelo. Aqui no Brasil é possível encontrar mulheres cristãs usando véus por motivos religiosos, embora esse um costume que está se tornando obsoleto. Mas é impossível não se estranhar quando o costume religioso se torna uma obrigação mesmo para as mulheres que não tenham um compromisso maior com a religião.

Mas, enfim, não sou iraniano. Não me cabe julgar os usos e costumes de sociedades diferentes da minha. Mas não consegui escapar ao estranhamento.


24/02/2012.


terça-feira, 6 de março de 2012

A Suécia é Fria


A Suécia é Fria


Pelo menos foi essa a impressão que me passou o filme "Os Homens Que Não Amavam as Mulheres". Frio, neve, chuva, e pouco sol é o que é possível ver na tela, no filme estrelado por Daniel Craig e Rooney Mara, e também com ótimas atuações de Christopher Plummer e Stellan Skargard.

O frio chega a ser opressivo, como na cena em que Mikael Blomkvist (Daniel Craig) corre para dentro de um automóvel, que presumivelmente tem calefação, em uma gelada estação de trens.


Ou quando ele chega à casa que deve habitar em sua temporada em Hedelstad.
Fora isso temos um filme razoável (ou de razoável a bom), feita da adaptação do livro de Stieg Larsson. Não se trata aqui da questão sobre o livro ser melhor que o filme. São obras diferentes. É possível comparar com outras obras adaptadas de livros. Por exemplo, eu acho que as adaptações de "Harry Potter" geraram filmes melhores, em relação às suas obras de origem que esta adaptação de Stieg Larsson. Também me parece ser o caso de O Nome da Rosa. Como leitor do livro, achei que as soluções dramáticas foram menos satisfatórias. Por exemplo, a personagem Lisbeth Salander fica bem mais caricatural neste filme, do que no livro.

A Suécia do filme é fria e sombria. Sombria por causa de seu clima, e sombria por causa de parte dos homens que a habitam...


29/02/2012.

A Suécia de Stieg Larsson


A Suécia de Stieg Larsson



Stieg Larson é o autor da "Trilogia Millenium". Ele faleceu precocemente, se não estou enganado, por conta de um infarto fulminante. Millenium é o nome da revista em que trabalha um jornalista, que é um dos personagens principais dos romances que compõem esta trilogia. O nome do jornalista é 
Mikael Blomkvist. A outra personagem principal do livro é a "hacker" Lisbeth Salander.


Eu li recentemente estes livros. Dos três, eu achei o primeiro, "Os Homens que não Amavam as Mulheres" o melhor. É o tipo de livro que você não quer parar de ler enquanto não chega ao final. Os outros dois, "A Menina que Brincava com Fogo" e "A Rainha do Castelo do Ar", são bons também, mas o primeiro é melhor.


O segundo livro demora um pouco a engrenar, é como se tivesse umas 200 páginas de preâmbulo, portanto aquele desejo de não largar o livro enquanto não se chega ao final só aparece lá pela página 201.


O terceiro livro é como o segundo, isto é, também demora a engrenar, mas também chega àquele ponto em que não se deseja largar o livro enquanto não se chega ao final da leitura.


Ou seja, os livros são diversão garantida.


Mas o que me chamou a atenção foi a Suécia que é descrita nestes livros.


Pelo pouco que eu sabia da Suécia, eu achava que este país era um "paraíso gelado". Um lugar em que seus cidadãos eram amparados pelo estado desde o berço, isto é, desde a mais tenra infância até o túmulo. Claro que isso teria o preço de uma alta carga tributária, mas sempre me pareceu que era um bom preço a pagar, para que os cidadãos tivessem um sistema de saúde pública de qualidade, bem como um bom sistema de educação pública. Além disso, o amparo do estado impediria a instalação da miséria obscena de que somos testemunhas em nosso país.


E o "paraíso gelado" obviamente também porque a Suécia tem longos e muito frios invernos.


Os livros de Stieg Larsson quebram um pouco desta imagem idealizada que eu tinha do país distante.


Vejamos algumas coisas que Larsson descreve, mesmo levando em consideração que seja uma obra de ficção. Não me pareceu que Larsson tenha escrito uma obra farsesca, um achincalhe de seu país natal.


Há assassinos seriais. Se bem que esse tipo de facínora é encontrável em qualquer país do mundo, mas foi uma certa decepção...


Segundo Larsson, e esse fato ele cita como dado factual, não como ficção, há ampla violência contra a mulher na Suécia. E muitas vezes essas vítimas da violência são deixadas ao desamparo.


Dentro desse contexto de violência contra a mulher, o país é palco de ampla exploração de escravidão sexual de mulheres, que são trazidas do leste da Europa para se prostituírem ali. Muitas dessas vítimas do lenocínio são assassinadas pelas gangues que as exploram, e, segundo o livro, nem sempre a polícia se esforça para descobrir e punir os responsáveis.


O páis tem gangues de neonazistas, e teve grande números nazistas e fascistas no decorrer do século XX.


E segundo Larsson, a Suécia teria entre seus agentes de segurança do Estado, pessoas que poderiam de agir de maneira criminosa e brutal como os agentes de serviços de espionagem das nossas ditaduras latino-americanas da seggunda metade do século XX.


Alem de gelada, a suécia dos livros de Stieg Larsson é sombria!...


23/02/2012


segunda-feira, 5 de março de 2012

Diário - leituras - As Missões Orientais, Epopeia Jesuítica no Sul do Brasil

Diário - leituras - As Missões Orientais, Epopeia Jesuítica no Sul do Brasil


Li este livro para reduzir minha ignorância a respeito das chamadas missões orientais, iniciativa missionária de jesuitas espanhóis, iniciada a partir do final do século XVI, visando catequizar os povos nativos da América que viviam às margens dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai, e torná-los bons súditos dos reis de Castela, isto é, da Espanha.

O autor fala desde as primeiras tentativas de estabelecimento de reduções no que hoje é território do Rio Grande do Sul, no início do século XVII, os ataques dos bandeirantes paulistas que atacaram as primeiras reduções para escravizar índios, a retirada dessas primeiras reduções, e, por fim, os estabelecimento das reduções no que o autor chama de “período clássico” das missões com os 30 povos das missões, dos quais, 15 foram em território que hoje pertence à Argentina, 8 que ficam no Paraguai, e os 7 povos da margem oriental do Rio Uruguai, atual território do Rio Grande do Sul: São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Francisco de Bórgia (São Borja), São Luiz Gonzaga, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio. Obviamente são nos 7 povos a leste do rio Uruguai que o autor concentra sua atenção.

Para mim o mais marcante na obra, que talvez eu tenha esquecido das leituras do ensino fundamental (onde tentam inculcar noções de história do Rio Grande do Sul em nossas mentes infantis), é que apesar da epopeia heróica da guerra guaranítica, e da resistência e morte do líder Sepé Tiaraju, inclusive com o incêndio da redução de São Miguel, as reduções continuaram existindo, e entraram em decadência por conta do gradual abandono dos índios remanescentes nas reduções, entre o final do seculo XVIII e o início do século XIX.

Um ponto curioso é o capítulo 6, que abarca cerca de metade do livro, e é um glossário, onde o autor tenta esclarecer personagens e locais importantes sobre as missões. Ali estão, por exemplo, verbetes do padre Roque Gonzalez, pioneiro missionário, e fundador das reduções primitivas, do início do século XVII. Há um verbete para Gomes Freire de Andrade, comandante militar luso-brasileiro, que partiu de Rio Grande, e se juntou às tropas espanholas, para acabar com a resistência indígena à expulsão dos jesuítas, e das demarcações de fronteira estabelecidas pelo Tratado de Madri. Há também um verbete sobre o presidente Getúlio Vargas, devido ao fato dele ter nascido em São Borja, antigo sítio missioneiro. E um curioso (e curto) verbete dedicado ao perfil do próprio autor.

É uma obra sintética e básica, com uma bibliografia que aponta para outras obras, para quem estiver interessado em se aprofundar sobre o assunto.


PINTO, Luís Flodoardo Silva. As Missões Orientais, Epopeia Jesuítica no Sul do Brasil. Porto Alegre: AGE, 2002.


07/02/2012.