quarta-feira, 25 de abril de 2012

A perda de referências na cidade em movimento – A Companhia Wallig na Francisco Trein

A perda de referências na cidade em movimento – A Companhia Wallig na Francisco Trein


Na Avenida Francisco Trein, na Zona Norte de Porto Alegre, havia pelo menos duas coisas notáveis, uma a fábrica de fogões Wallig, a outra era o Hospital Nossa Senhora Conceição, ou apenas o Hospital Conceição.

Na década de 1970 minha avó, por exemplo, teve que passar alguns dias internada no Hospital para seus problemas cardíacos. E vez por outra vinha algum parente do interior do estado, para se tratar ali. O Hospital Conceição continua lá. Hoje é um dos grandes hospitais gerais públicos da cidade de Porto Alegre. E parece que hoje, mais do que no tempo de minha avó (ou nos tempos de minha infância) recebe pacientes de grande parte da Grande Porto Alegre, e mesmo de cidade mais afastadas.

A Companhia Wallig já foi sinônimo de fogão no Rio Grande do Sul. Assim como a Companhia Geral e os fogões Venax. O primeiro fogão que conheci foi um fogão Wallig. Obviamente porque era o que tínhamos em casa. Como foi dito, sua fábrica era na Avenida Francisco Trein. E me parece, que não por coincidência, o sindicato dos metalúrgicos ficava bem em frente à fábrica.

Infelizmente a Companhia Wallig quebrou no final dos anos 1970, início dos 1980 (e, a propósito, acho que a Venax e a Geral também não existem mais). Parte de seus empregados formou cooperativas de trabalho, que acabaram por se mudar para o município de Gravataí, se não estou enganado.

Ficaram na Francisco Trein as ruínas da velha fábrica que um dia funcionou ali. Ali ficaram por mais de dez anos.

Agora não mais. As velhas ruínas já foram postas abaixo.

Já foi feito um relatório de impacto ambiental, e até mesmo escavações arqueológicas foram realizadas no terreno onde funcionou a fábrica de fogões Wallig.

Breve ali mais um hipermercado e shopping center.

11/12/2009.


Como visto, este texto foi escrito em 11/12/2009, e publicado em 07/01/2010, no meu blog Voltas em Torno do Umbigo.

Amanhã deve abrir ao público o tal hipermercado e shopping center. A construção não está acabada, mas é importante começar a obter rendimentos desse imenso investimento.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Leituras atrasadas - 1808, de Laurentino Gomes


Leituras atrasadas - 1808, de Laurentino Gomes


O livro 1808, de Laurentino Gomes, foi publicado em 2007, para estar disponível ao público leitor em 2008, no bicentenário da vinda da família real portuguesa para o Brasil.

Como o autor diz, foi um fato inédito. Os reinos da Península Ibérica constituíram seus impérios coloniais na América desde o final do século XV e início do XVI. E nos 300 anos seguintes nunca um soberano castelhano (espanhol) ou português havia sequer visitado seus domínios na América. Quanto mais estabelecer a sede de seus domínios por aqui.

Mas, por conta das guerras napoleônicas que tomaram conta da Europa no início do século XIX, o então Príncipe Regente Dom João viu-se compelido a trazer a Corte Portuguesa para o Brasil, sob proteção de uma esquadra britânica, para evitar ser deposto por tropas de Napoleão. Embora o autor não se alongue muito nisso, é possível dizer que são as guerras napoleônicas que acabam por disparar o processo de independência das colônias espanholas da América do Sul.

A vinda da família real portuguesa é o que vai preparar o Brasil para sua independência em 1822, conforme argumenta o autor.

Com a vinda da família real, e a sede do Império Colonial Português para o Rio de Janeiro, uma estrutura de governo é montada na antiga colônia. Os portos são abertos às nações amigas, o que a princípio significa apenas Inglaterra, mas logo em seguida também Estados Unidos, e alguns anos depois as demais nações europeias, como isso o comércio internacional do Brasil deixa de ser um monopólio português. Em 1815, o Brasil é elevado à condição de Reino Unido com Portugal e Algarve, o que significa que não é mais apenas uma colônia.

Para que o livro se alongue, o autor faz longas descrições de alguns dos personagens principais da História, como o próprio Príncipe Regente Dom João, mais tarde Rei Dom João VI, e sua esposa Carlota Joaquina. E uma alongada descrição da tomada de decisão da vinda para o Brasil, e da longa viagem pelo Atlântico.

O autor descreve as mudanças que a vinda da Família Real para o Rio Janeiro proporciona à cidade, com incremento da vida cultural, e aumento do cosmopolitismo.

Há um capítulo bastante revelador sobre a constituição de um corpo policial para a cidade. A polícia é constituída para tentar diminuir a inicialmente crescente criminalidade, mas logo se especializa em reprimir os escravos, prendendo eventuais fugitivos, e sempre usando da chibata, isto é, de uma forma de tortura, como método de disciplinamento desses prisioneiros.

E algo interessante é um exercício de "história virtual" sobre o que aconteceria se os domínios portugueses na América se fizessem independentes de maneira semelhante ao que aconteceu na América Espanhola, com o governo da metrópole deposto, e os vice-reis coloniais sem orientação. Ele reproduz a opinião do estudioso norte-americano Roderick Barman, em seu livro Brazil: the Forging of a nation, que afirma que possivelmente teríamos pelo menos três novos países em lugar de um só. Um, digamos, "Brasil", formado pelo que hoje é constituído pelas regiões sul, sudeste e centro-oeste do Brasil atual; a "Confederação do Equador", constituída pelos estados do Nordeste Brasil, com Pernambuco, Alagoas, Rio Grande do Norte, e Ceará; e um, digamos, "Grão-Pará", constituído pelas províncias do norte do Brasil atual, em volta da Amazônia. É ficção, mas não parece inverossímil.

Segundo o autor, então, a vinda da Família Real foi fundamental para tornar viável a independência do Brasil, alguns anos mais tarde, ao construir instituições que tornariam o novo país viável a partir de então.


GOMES, Laurentino. 1808. São Paulo: Planeta, 2007.


02/04/2012.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Diário - cinema - Pina


Diário - cinema - Pina 


"Então é primavera e a grama cresce, e é verão e a grama está alta, e primavera... e inverno". Mais ou menos com estas palavras tem início o filme "Pina", do cienasta alemão Wim Wenders, sobre a coreógrafa, também alemã, Pina Bausch. As palavras ilustram uma certa coreografia, que se repetirá algumas vezes ao longo do filme, e é uma ilustração sobre como esta coreografa alemã procurou ligar a arte com a vida em sua obra.

Apesar do filme ser um documentário, e ter o nome "Pina", ele pouco nos diz sobre a vida, ou a morte, de Pina Bausch. O filme é fundamentalmente sobre a arte, sobre a dança. Os bailarinos estão dançando quase o tempo todo durante o filme. Eles dançam tanto no Tanztheater, sede do corpo de dança de Pina, quanto nas ruas de Wuppertal, a cidade do oeste da Alemanha onde estava localizado, com seus singulares trens suspensos.

A presença de Pina é sutil, em algumas imagens de arquivo, na sua primordial atuação em "Café Müller" reproduzida no filme, e nos depoimentos de colegas e alunos. Alunos, a propósito, que formam um grupo bastante heterogêneo, e o diretor valoriza isso. Há depoimentos em alemão, inglês, francês, italiano, espanhol, e até em português, além de alguma língua que eu eventualmente não tenha reconhecido. E pelo que se pode concluir a partir destes colegas e alunos, Pina era uma professora que não se preocupava muito em explanar ou discursar em aula. Ela incentivava os alunos a buscarem dentro de si mesmos seus recursos para a dança, e dizia para que eles mostrassem as ideias através da dança e da atuação.

Curiosamente eu vi o filme em um cópia em 3D. Normalmente sou contra o uso desse recurso, que tenho achado mais um caça-níqueis que qualquer outra coisa. Mas neste filme, o 3D parece que funciona e enriquece a experiência sensorial dos espectadores.

É um filme para quem aprecia a dança. Segundo a Vivian Whitemann, “Se você tiver alguma coisa que dança na cabeça e no coração vai sair de lá voando”. Eu o achei muito emocionante. Em uma palavra, magnífico.



 02/04/2012.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Millôr Fernandes


Millôr Fernandes



Eu conheço pouco de Millôr Fernandes, mas de alguma forma eu o achava fundamental.
Li pouco do que ele escreveu, e me lembro menos ainda...
Mas a postura dele sempre foi parecida com a do militante anarquista: "si hay gobierno, soy contra", não porque ele fosse anarquista, mas basicamente porque sempre há o que criticar em qualquer governo. Alguns mais, outros muito mais.
Nos últimos tempos, aparentemente um acidente vascular cerebral o havia debilitado, e com 88 ou 89 anos, ele já não era propriamente um menino.
Mas deixa um vazio. Vai fazer falta.


03/04/2012.