segunda-feira, 28 de maio de 2012

Leituras atrasadas - Cartas da Zona de Guerra, de Michael Moore


Leituras atrasadas - Cartas da Zona de Guerra, de Michael Moore



Quem conhece a obra de Michael Moore, sabe que ele é um realizador um tanto quanto espalhafatoso. Seus diversos documentários o mostram tentando constranger os possíveis causadores dos infortúnios mostrados nos filmes, enquanto os entrevista. Esses documentários incluem "Roger e Eu" sobre a desativação de uma planta da General Motors em Flint, estado de Michigan, desativação esta que causa uma hecatombe econômica na cidade; "Sicko" sobre os problemas do sistema de saúde, ou a falta de um sistema público de saúde, nos Estados Unidos; "Tiros em Columbine" sobre o massacre perpetrado por dois adolescentes em uma escola no estado Colorado e a facilidade da venda de armas nos Estados Unidos; entre outros filmes.

Sua obra inclui também livros, como este "Cartas da Zona de Guerra", que é uma compilação de cartas, na verdade e-meios, de militares, ex-militares e familiares de militares dos Estados Unidos, e na invasão do Iraque, que era recente então.

A obra complementa o filme "Farenheit 9/11", e tem um objetivo de fundo, impedir a reeleição do presidente George W. Bush, então em primeiro mandato. Ambas as conclusões podem ser aferidas a partir das várias citações do filme, e das várias manifestações dos autores das mensagens de votar para impedir a reeleição de Bush. Assim fica claramente parecendo algo de política interna dos Estados Unidos da América. Como sabemos esse objetivo de fundo fracassou.

Afora isso, o livro demonstra algumas coisas interessantes.

Uma delas é que as queixas em geral vêm dos militares de baixa patente. Em geral são de soldados, ou de cabos, ou de seus familiares as mensagens que compõem o livro. Pela minha conta, só em uma das mensagens foi relacionada a um oficial, ainda assim de baixa patente. Ou seja, não há formados nas academias militares dos Estados Unidos escrevendo para Michael Moore. Além disso, esses militares, ex-militares e familiares que escrevem são pessoas pobres, que ingressaram no serviço militar voluntário, como uma forma de conseguirem juntar dinheiro para cursar faculdade, ou mesmo para aprender algum ofício durante sua estadia nos quartéis. Muitos relatam terem se sentido enganados pelos recrutadores das forças armadas, que prometem mundos e fundos, inclusive uma remotíssima chance de ir para alguma frente de batalha, e, após alistados, essas pessoas descobrem que sim, irão para uma guerra, alguns deles morrerão lá, alguns voltarão incapacitados, muitos voltarão com estresse pós-traumático, e todos terão poucos recursos aos quais recorrer após o serviço militar.

O livro apresenta um certo quadro. Ser soldado do exército ou da infantaria da marinha ("marines") dos Estados Unidos, é ser pobre, ou classe média baixa, em busca de oportunidades de crescimento profissional ou econômico. É comum também que algum outro familiar tenha prestado, ou preste, serviço militar. E também, em geral, significa ser conservador e votar no Partido Republicano.

Contudo, há uma outra questão. Como já foi dito, a missão de não reeleger George Walker Bush falhou. Além disso, o livro apresenta dezenas de mensagens de apoio a Michael Moore, à sua obra, e denunciando a Guerra no Iraque. Mas quantos milhares de outros militares, ex-militares e familiares de militares não se identificaram com a mensagem de Michael Moore e continuaram apoio o então presidente Bush, sem questionar a guerra? Sobre isso só podemos especular.

Por fim, cabe dizer, que em vista dessa questão da Guerra do Iraque, e da reeleição de George W. Bush o livro está um tanto datado. Esse, aliás, é o motivo pelo qual o título deste texto começa com "leituras atrasadas". Teria sido melhor que ele tivesse sido lido antes da eleição de 2004, nos Estados Unidos.




MOORE, Michael (org.). Cartas da Zona de Guerra. São Paulo: Francis, 2004.




16/05/2012.


Minhas Lembranças de Donna Summer


Minhas Lembranças de Donna Summer


No final do ano passado, comentei sobre o falecimento da cantora Andrea True, informando que o “hit” cantado por ela, “More, More, More”, era um dos mais tocados nas reuniões dançantes da Vila Cefer 2, onde passei o final de minha infância e início da adolescência.

Faz cerca de 10 dias foi divulgada a notícia do falecimento da cantora Donna Summer. Ela estava com 63 anos e lutava fazia algum tempo com um câncer. Donna Summer também fez parte da trilha sonora do final de minha infância e início de adolescência na Vila Cefer.

Foram principalmente quatro sucessos.

O primeiro foi “Love to Love You Baby”. Naqueles tempos havia uma gravadora especializada em discos de coletâneas de sucesso pop, a K-Tel. “Love to Love You Baby” veio no disco Dynamite, como todos os gemidos de Donna Summer incluídos, o que, pensando em retrospectiva, é bastante surpreendente para aqueles tempos da ditadura militar brasileira, onde os discos tinham que ser aprovados pela censura antes de serem distribuídos. O disco foi um relativo sucesso, e era mais ou menos fácil tocar naquelas reuniõezinhas dançantes.

Depois o sucesso foi “Last Dance”. Esta canção tinha a peculiariadade de ser lenta nos seus primeiros segundos, e depois se tornar rápida. Eventualmente acontecia nas reuniões dançantes que algum casal desprevenido dessa particularidade da música começasse a dançar de rotinho colado, e lá pelas tantas se ver constrangido a se separar. O ritmo da música mudara...

“Last Dance” também fez parte da trilha sonora do filme “Até que enfim é sexta-feira” (Thank God, it’s Friday”). Era uma comédia aproveitando a onda disco do final daquele final da década de 1970. Eu lembro pouca coisa do filme. Lembro de um automóvel estacionado em frente è discoteca (ou, talvez, “club disco”, ou ainda “boate disco”) do filme, no qual quase todas as pessoas que chegam ao estabelecimento esbarram, e que acaba por se desmanchar, e a participação de Donna Summer cantando “Last Dance”.  Não era um grande filme, mas era um filme que eu pude ver. Como dizíamos na época: censura 10 anos. Em contraponto, “Os Embalos de Sábado à Noite”, o estrondoso sucesso com John Travolta exibido no ano anterior tinha limite de idade de 16 anos.

Os dois sucessos seguintes foram “Hot Stuff” e “Bad Girls”, ambas músicas do álbum “Bad Girls”.  Aí as reunioes dançantes já rareavam. Eu me lembro de um amigo meu que comprara o disco “Bad Girls” que continha as duas músicas. O disco seria ofertado como presente a alguém, e o meu amigo queria fazer uma cópia em fita cassete. Naquele tempo a minha irmã estava montando o enxoval para casar e tinha um aparelho de som 3 em 1. Nós chamávamos “3 em 1” os equipamentos que apresentavam rádio, toca-discos e gravador de fita cassete integrados, uma novidade naqueles dias, e algo relativamente caro. “Hot Stuff” e “Bad Girls” foram as músicas que mais ouvi daquele disco, através de uma cópia em cassete. Cassete esta que não sei que fim levou...

E estas são as minhas lembranças de Donna Summer, ou das músicas de Donna Summer que embalaram o final de minha infância.

Depois disso, me desliguei de Donna Summer, de modo que, com as notícias de seu falecimento, fiquei surpreso que a cantora tenha estado aqui no Brasil no final da década passada, e eu não tivesse me dado conta.

Com 63 anos, nos dias de hoje, a morte de Donna Summer não deixa de ser prematura. Foi uma grande e bela cantora.



27/05/2012.


sábado, 26 de maio de 2012

Meu Mundo

Eu gosto de utilizar representações de nosso planeta, a Terra, com o Pólo Norte voltado para baixo, em lugar do sul, como é mais comum vermos. Já defendi este posicionamento num outro texto.
Claro, que muita gente acha loucura, falta de sentido (em que sentido? He, he, he...), absurdo. Alguns colegas de trabalho em especial, gostam de “endireitar”um pequeno globo que mantenho em cima de minha mesa (obviamente este globo fica com o Pólo Sul para cima), e vez por outra sou surpreendido quando chego para trabalhar e o globo está com o Pólo Norte para cima. Quando eu percebo, por coerência, tenho que corrigir isto. Infelizmente isto causa um pequeno desgaste no globo, a cada endireitada, e cada corrigida. Ou seja, brevemente terei que comprar um globo novo.
Uma colega já me perguntou por quê eu mantinha o “globo virado”. Nós trabalhamos num prédio que fica relativamente bem orientado, com relação aos pontos cardeais. O prédio é uma “caixa” retangular, com alas sul e norte, e os lados maiores orientados para leste e oeste. Eu trabalho na ala norte. Na estrutura do prédio, os banheiros coletivos, masculinos e femininos, ficam orientados para oeste, pelo menos os que eu conheço (sim, porque não conheço todos os banheiros do prédio). Então, voltando àquele questionamento da colega, para responder o porquê, de eu colocar o sul para cima, eu caminhei com ela até próximo da janela que mostrava o norte e perguntei se ela via alguma “subida” que olhava em direção ao norte, e não apenas uma longa planura até onde a vista alcançasse. E de fato, até onde a vista alcança, o que se pode ver é um plano.
Curiosamente, é esta sensação de plano que fez com que se pensasse que a Terra era plana, na Europa Ocidental, durante a Idade Média, com o aval da Igreja Católica de então. Mas a Terra é esférica, ou geóide se quiserem. Uma esfera não possui parte de cima ou de baixo. A Terra pode ser representada, e normalmente o é, tendo o norte para cima, como sendo visualizada a partir de um determinado ponto de vista, em seu eixo de translação em relação ao Sol.
Outro colega já me objetou que a metade sul do plante possui menos terras que a metade norte. Mas isso é totalmente irrelevante para realizar uma representação com o sul para cima. Mesmo que existam menos terras ao sul da linha imaginária do Equador, eu vivo em Porto Alegre, que fica ao sul desta linha. Imaginária como eu disse. E também Montevidéu, Santiago, Buenos Aires, Luanda, Sidney e Durban (na África do Sul, que fica numa latitude muito próxima da de Porto Alegre).

Sul. Para Cima.


Este texto havia sido publicado no meu blog Voltas em Torno do Umbigo, em maio de 2007.

Papai Noel


Hoje, quando saí para o almoço, e ia subindo a Caldas Júnior em direção à Riachuelo, eu vi o Papai Noel.
É estranho ver o Papai Noel em maio, mas se pensarmos no frio que estamos enfrentando por estes dias faz todo o sentido.
Apesar do frio, ele não estava usando sua roupa tradicional, vermelha com botas. Estava disfarçado. Olhando à primeira vista, parecia qualquer um. Vestia uma calça jeans, e uma jaqueta de couro tapando até o pescoço. Estava calçando um par daqueles tênis preto, que diziam antigamente que era para jogar futebol. Não consegui ver a marca. Quem olhasse para ele, veria um velhinho como qualquer outro. Mas aqueles cabelo e barba brancos não deixaram que ele me enganasse.
O Papai Noel estava usando uma muleta. Claro, esse negócio de entrar e sair das casas pela chaminé, só podia dar em acidente de trabalho. Garanto que se eu resolvesse perguntar, ele ia tentar me enganar com uns papinhos tipo "fui atropelado", ou "tô me recuperando de um derrame". Ah é... Vai nessa...
Como estava muito frio, com muito vento, passei por ele rapidamente sem puxar papo, apenas com os olhos fixos naqueles cabelo e barba inconfundíveis. E me perguntando - onde será que ele escondeu o trenó?


Eu havia publicado este texto originalmente no meu blog Voltas em Torno do Umbigo, em maio de 2007.

Sobre ter, ou não ter, filhos


Sobre ter, ou não ter, filhos


Porto Alegre, 24 de maio de de 2012.


Caro amigo,



Não pude deixar de pensar na pergunta que fizeste no almoço a respeito de ter filhos. Ou não. E que estavas avaliando a questão junto com tua esposa.
É. É complexa a questão.
Eu tendo a achar que racionalmente, é melhor não tê-los.
As despesas vão aumentar, e o salário família, para ajudar a criar a criança não compensa o valor. A esposa pode ganhar sobrepeso e perder as formas. O tempo para as tuas atividades de lazer vai diminuir. Os momentos de intimidade do casal, tornado pai e mãe, vão ficar mais restritos. 
Eventualmente vai ser necessário acordar no meio da noite. Uma noite ou outra vai ser necessário correr com a criança doente para algum pronto-atendimento médico. Isso nas coisas mais triviais.
Radicalizando o que foi dito acima, e usando do biologismo rasteiro, o feto pode atuar como um parasita sobre a mãe, que eventualmente pode ter sua saúde abalada. Não é incomum que surjam problemas como hipertensão, ou hiper glicemia durante a gravidez.
Pode haver a infelicidade de uma má formação fetal, seja genética, seja congênita, e o filho se tornará uma pessoa dependente por toda a vida. E cada família tem uma forma de responder a isso. Nem todas da forma mais edificante.
Mas aí temos a palavra do poeta, que disse algo como "filhos, melhor não tê-los, mas sem os tê-los, como sabê-lo?"...
Pela minha experiência, um filho enriquece a nossa vida. E julgo que nesses vinte e poucos anos tive mais momentos abençoados que tristes. Até porque a nossa memória é seletiva, e a gente procura lembrar o que houve de bom, e tenta esquecer o que houve de ruim. Sim, há as preocupações e há as doenças. Mas há também as celebrações, os momentos gostosos compartilhados, o companheirismo que acontece por anos. E pode se estender por mais e mais anos.
Eu confesso que o meu filho nasceu mais de uma decisão emocional que racional. Mas a experiência de viver com ele tem sido tudo de bom. Enriquecedora.
Agora, pensando em ti. Eu li teu weblog.
E o teu weblog mostra um aparentemente feliz retrato de família. Talvez até seja uma descrição de fachada, mas espero que não.
E o retrato que tu mesmo traçaste é um retrato de camaradagem, de companheirismo.
Acho um privilégio que um pai e um filho possam fazer uma viagem de moto juntos, cada um na sua respectiva motocicleta.
É legal a cumplicidade de vocês terem ido comprar o teu carro juntos. Conferirem eventuais consertos que necessitassem ser realizados. Escolherem o som que equiparia o possante...
É bem legal vocês terem tido ocasião de fazer churrasco enquanto acompanhavam uma competição automobilística em Tarumã.
Em favor da hipótese dos virtuais filhos, pensando na melhor hipótese, desejando a melhor hipótese, em Deus permitindo que o melhor aconteça, que tal um futuro assim contigo e teu filho daqui há uns 20 ou 30 anos? E, melhor ainda, com a possibilidade do teu pai estar junto?
Pois é. Mas tudo isso compete a ti e à tua esposa decidir.
Só escrevi isso tudo porque a questão ficou martelando na minha cabeça.


Espero que a vida te dê tudo de bom!


José.

Diário - leituras - O Brasil holandês


Diário - leituras - O Brasil holandês



Como o próprio nome diz, é um livro sobre a ocupação holandesa no Nordeste do Brasil (1630-1654).

O diferencial deste livro é que nele Evaldo Cabral de Mello é um organizador a mostrar todo o período da invasão holandesa aos domínios portugueses na margem oeste do Atlântico Sul através de textos do século XVII, ou seja contemporâneos ao período abrangido. São crônicas, relatos, correspondências e relatórios militares que o autor selecionou para falar daquele período.


Evaldo Cabral de Mello é um especialista no assunto, tendo publicado alguns livros a respeito do assunto, entre os quais “O Negócio do Brasil” e “Olinda Restaurada”.


Assim por meio destes textos do século XVII, ele fala da invasão holandesa. Fala do período de impasse do início da ocupação (1630-1632), a consolidação da ocupação holandesa (1632-1637), o período do governo de Maurício de Nassau, considerado o apogeu da ocupação holandesa no Nordeste brasileiro (1637-1644), e a rebelião luso-brasileira (1644-1654).


A abordagem de Evaldo Cabral relembra aqueles personagens que são relativamente conhecidos para quem estudou História do Brasil no ensino fundamental ou no secundário: Fernandes Vieira, Henrique Dias, e Felipe Camarão (que nós, portoalegrenses, gostamos de dizer que acabaram batizando uma série de ruas do Bom Fim, o antigo bairro judeu da cidade) . O próprio Maurício de Nassau é personagem importante, e conseguiu conter quaisquer ímpetos rebeldes nos luso-brasileiros durante seu governo. Além disso, fala dos nomes menos conhecidos, aqueles da Holanda, como, por exemplo, o general von Schkoppe, que acabou derrotado nas duas famosas batalhas de Guararapes.


Mas é interessante também por colocar a invasão à colônia portuguesa no contexto dos problemas europeus. Por exemplo, os holandeses invadiram o Nordeste brasileiro durante o período da União Ibérica, quando o Felipe II, rei de Castela, isto é, da Espanha, tomou a coroa do Reino de Portugal, após uma crise sucessória neste país. E é pouco depois da restauração da autonomia portuguesa que a rebelião contra os batavos inicia.


Evaldo Cabral relembra que a invasão do Nordeste se dá sob a égide de uma companhia de cotas de capitais, uma espécie muito particular de empresa privada, capaz de, sob autoridade dos Países Baixos, controlar uma grande extensão de territórios, monopolizar áreas de comércio, exercer poder militar e fiscal. Assim era a Companhia das Índias Ocidentais, responsável pela ocupação do Nordeste, e pela possível exploração de seus recursos, no caso, principalmente o açúcar.


O livro conta com bilbiografia selecionada. Até porque o autor informa que uma bibliografia relativamente completa, poderia chegar a dois volumes (ele toma por base uma bibliografia compilada por José Honório Rodrigues, em 1949, sobre o assunto, que gerou um livro. Segundo Mello, uma atualização geraria um segundo volume).


Não é a obra mais completa sobre o assunto, nem a melhor síntese, mas é uma bela obra. Digna de ser lida.





MELLO, Evaldo Cabral de (org.). O Brasil holandês. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.



19/03/2012.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

De Ônibus pela Farrapos


De Ônibus pela Farrapos


Depois de ter caminhado as duas primeiras quadras da Voluntários da Pátria, cheguei ao ponto dos ônibus que fica embaixo do Centro Popular de Compras, vulgo camelódromo, e tive que dar uma corridinha para conseguir embarcar no ônibus que já ameaçava partir sem mim. Sempre que estou neste ponto de ônibus embaixo do camelódromo me pergunto porque a prefeitura não possui mostradores indicando o horário dos ônibus, além da plataforma de onde cada linha sai. Bom, talvez para expor os horários dos ônibus, os usuários precisassem também de relógios públicos no ponto, e fiscais para ver se os ônibus estão saindo nos horários certos. Seria uma demonstração de respeito aos cidadãos que a Prefeitura não parece interessada em oferecer. E isso não apenas na gestão atual.

Mas enfim, peguei o ônibus. Devia ser cinco para as oito da noite. O grosso do horário do pique já havia passado.

Ou pelo menos eu achei que deveria ter passado. Mas eu estava enganado.

O ônibus saiu do ponto sob o camelódromo, e entrou na Júlio de Castilhos. A uma quadra do final da Júlio de Castilhos, virou à direita na Coronel Vicente, como deve sempre fazer. E após duas quadras na Coronel Vicente, entrou à esquerda na Voluntários da Pátria, em direção à sinaleira ordenadora para o corredor de ônibus da Avenida Farrapos. Foi aí que alguma coisa pareceu errada.

Como eu disse, já eram oito horas da noite, e o grosso da hora do "rush" já devia ter passado, mas a fila de ônibus na sinaleira ordenadora do início do corredor de ônibus da Farrapos era imensa. E lenta.
De maneira que nesse dia, o percorrer do corredor da Farrapos aconteceu como se fosse em câmera lenta. E num ônibus quase vazio. Motorista, cobrador e três passageiros, contando comigo. O ônibus andava com velocidade que estimo entre 10 e 20 quilômetros por hora. Isso quando não estava parado numa sinaleira, ou numa estação do corredor.

Andar pela Farrapos pode ser sempre tomado como um passeio, se o passageiro estiver de bom humor. E de qualquer maneira, e preciso bom humor para voltar para casa em ritmo de câmera lenta. Menos mal que o ônibus estava vazio.

As primeiras quadras, a curva à esquerda na esquina da Barros Cassal. A Garibaldi e a Santo Antônio que tiveram suas vias de fluxo invertidas há uns dois anos, por conta de obras no Túnel da Conceição, e que mesmo com o fim das tais obras não tiveram a sua situação revertida. A Ernesto Alves que dá acesso um xóping na Cristóvão Colombo.

Entre a Garibaldi e a Santo Antônio um posto de combustíveis e serviços recebe clientes. E em frente há outro posto de combustíveis para fazer concorrência.

Logo adiante algumas moças com saias bastante curtas, ou "legs" colantes, sapatos com saltos altíssimos e sola de acrílico, e decotes generosos tentam atrair clientes para uns "night clubs", ou simplesmente boates, por ali.

Boates, "night clubs"... A Farrapos tem alguns. Os mais famosos ficam por ali. Não muito tempo atrás havia propagandas na televisão das boates Gruta Azul, ou Madrigal. Há mais tempo ainda havia propaganda da boate Dragão Verde (será que era esse mesmo o nome?). Naquele tempo a propaganda da Boate Dragão Verde anunciava shows de Altemar Dutra ou de Lindomar Castilhos. Quem ainda se recorda de Altemar Dutra ou Lindomar Castilhos hoje? De qualquer maneira, a boate Dragão Verde não existe mais faz tempo.

Uma parada na sinaleira da esquina da Ramiro Barcelos. Mais postos de combustível.

Bares e lancherias aguardam clientes que não aparecem. Bares e lancherias quase vazios acrescentam um pouco mais de modorra ao ônibus que anda devagar.

Na esquina da Câncio Gomes, uma moça sozinha espera eventuais clientes, encostada na porta cerrada de uma loja.

Na estação Florida do corredor deparamos com o lugar onde um dia funcionou a boate Gruta Azul, e que foi parcialmente destruído por um incêndio. A boate acabou se mudando para uma das tantas transversais da Farrapos, não muito longe dali.

O cortejo dos ônibus segue em marcha lenta.

Na esquina da Paraíba duas outras mulheres conversam, também à espera de eventuais clientes. Cena que se repete na esquina da Câncio Gomes. Na esquina da rua Conde de Porto Alegre, uma outra aguarda os clientes, solitária, sentada numa pedra existente ali. Meretrizes aguardando clientes na rua, uma imagem que mistura certa espera tensa, com um ar de tédio.

O cortejo dos ônibus segue devagar.

Estação São Pedro, e logo o ônibus cruza a avenida São Pedro. Na esquina da Guido Mondim outra moça espera eventuais clientes. Se bem que aqui se trate de uma moça diferente. Alguns diriam de uma menina que nasceu menino, outros de uma mulher com algo a mais, ou a menos dependendo de quem fale ou de quem olhe. Mas a mesma expressão de espera tensa e entediada.

O lento cortejo chega à esquina da Avenida Brasil. O ônibus entra nesta avenida. O motorista imprime velocidade ao veículo, talvez tentando compensar o atraso ocasionado pela lentidão do corredor de ônibus da Farrapos.

Penso com os meus botões que logo chegarei em casa.




11/05/2012.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Diário - cinema - Os Vingadores


Diário - cinema - Os Vingadores


Fui assistir o filme "Os Vingadores" ("The Avengers") neste final de semana (12/05/2012), em cópia em 3D.

O filme é divertido, as mais de 2 horas de filme passam rapidamente, e o 3D funciona bem para este filme (o que me faz pensar que ou os filmes em 3D estão ficando realmente mais bem feitos, ou estou mudando de posição a respeito de filmes feitos em 3D serem apenas caça-níqueis). As piadinhas largadas ao longo do filme fazem rir.

Contudo há algo no filme que não me agradou. Foi a questão de haver uma imensa batalha que destrói boa parte da cidade de Nova Iorque, mas praticamente não mostra mortos. Acredito que isso tenha a ver com facilitar a classificação etária do filme, com vistas a aumentar o público nas salas de cinema. Contudo isso leva a uma certa infantilização da coisa. Me lembrei quando eu via desenhos animados na tevê no final do século passado, em especial os da série "G.I.Joe" (baseada na qual foi realizado uma nova versão de filme para o cinema recentemente, a filme este que não assisti). Os desenhos "G.I.Joe" eram uma maneira de promover a venda de brinquedos associados à série, e estes desenhos tinham constantes batalhas, onde se via muitos tiros, alguma destruição, e nenhum morto. Certo, como eu disse, é uma estratégia para possibilitar a crianças e adolescentes o acesso às salas de cinema, mas me causou uma forte sensação de infantilização da plateia. Imagine se o filme "Independence Day" (Estados Unidos, 1996) não mostrasse mortes causadas pelos alienígenas invasores.

Em todo caso, mesmo com essa pequena questão, a diversão é garantida.




15/05/2012.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Diário - Filmes - X-Men Primeira Classe

Diário - Filmes - X-Men Primeira Classe


(Ou "X-Men First Class", se o leitor preferir).

Afinal assisti à produção de 2011, sobre o início dos X-Men, pelo menos em sua versão cinematográfica.

É um filme de ação divertido, e que pode propor algumas questões.

E curiosamente um dos poucos filmes hollywoodianos que já vi em que se fala alemão, francês e espanhol, mesmo que em diálogos curtos , além de inglês.

Há um biologismo barato, na afirmação que os mutantes seriam o próximo passo na evolução do homo sapiens. Sim, porque é possível que apareçam indivíduos extraordinários entre os seres humanos, com mais força, ou com capacidade pulmonar para permanecer sem respirar por longos minutos. Mas acho difícil que a evolução, nas linhas em que foi proposta por Darwin e amplamente adotada pelos biólogos em geral, signifique que alguma linhagem do homo sapiens será capaz de se teletransportar para onde quiser, mudar suas formas para adquirir guelras ou carapaças quando lhe for necessário, interagir com metais mesmo em volume muito maior que a massa de seu próprio corpo, ou mudar de aparência instantaneamente. Descritos como o próximo passo da evolução, os mutantes estão mais para seres de outro mundo mesmo. E de maneira geral, todos eles simplesmente aparecem, à exceção de Eric, ou Magneto, que tem pai e mãe mostrados no filme, e aparentemente esses pai e mãe são seres humanos comuns.

Mas certamente há um questionamento quanto à maneira como a sociedade pode tratar os seres humanos "diferentes". Assim, não é por acaso, que em todos os filmes sobre os X-Men, eles sempre estejam ameaçados, seja pela sua aniquilação física, seja pela sua "cura", isto é, a supressão das características diferentes, aquilo que os faz serem chamados nos filmes de "freaks", que pode ser traduzido por estranho ou esquisito.

Um outro questionamento é em uma cena, quando Charles Xavier pede a Eric, ou Magneto, que não ataque os navios que haviam lançado uma saraivada de mísseis para aniquilar os mutantes. Magneto tem o poder de interagir com metais, e assim pôde conter o ataque, e voltar o armamento contra os próprios navios de guerra que os lançaram. Xavier diz que eles, os tripulantes dos navios de guerra, eram apenas seres humanos comuns, cumprindo ordens. Magneto responde que ele passou anos num campo de concentração à mercê de homens comuns, cumprindo ordens. Ou seja, há responsabilidade sobre as carreiras que assumimos, e os atos que cometemos. Sempre.

Dito tudo isso, há essa irônica ficção histórica. A crise dos mísses soviéticos em Cuba, em outubro de 1962, não se deu por Guerra Fria, da corrida armamentista, e porque Cuba se sentia ameaçada pelos Estados Unidos depois da invasão da Baía dos Porcos um anos antes. Tudo aconteceu pelos planos de um mutante malévolo (o ser malévolo é acentuado por sua associação com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial), que queria dizimar a humanidade em uma guerra nuclear, para que os mutantes, na pessoa dele, passassem a governar o mundo.

Como eu disse, um filme de ação divertido.


08/05/2012.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Diário - leituras - 1822, de Laurentino Gomes


Diário - leituras - 1822, de Laurentino Gomes


Depois de ter feito sucesso com o livro “1808”, onde narra a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil por ocasião das Guerras Napoleônicas, no início do século XIX, e de como esse evento contribuiu para colocar o Brasil numa trilha através do qual o país se tornaria independente, Laurentino Gomes usa novo livro para falar sobre a Independência do Brasil.


O livro “1822” fala sobre isso.


Fala sobre como o Brasil se tornou independente mais por conflitos intestinos entre a elite portuguesa, que por iniciativas nativas da elite daqui. Isto é, os ventos liberais que geraram as chamadas Cortes Portuguesas, fizeram com que essa assembleia parlamentar quisesse retroceder as instituições que haviam sido criadas por aqui, a partir de 1808: um autogoverno e a regência do príncipe Dom Pedro, o fim do monopólio de comércio com a metrópole (isto é, Portugal). O Brasil deveria voltar a ser uma colônia controlada por e de Portugal.


Depois de tudo o que havia acontecido desde 1808 isso não era mais possível.


As elites brasileiras se acercaram de Dom Pedro, que foi nomeado “protetor do Brasil”, e, por fim, imperador, como acabou acontecendo em setembro de 1822.


Laurentino Gomes relembra os fatos que quem prestou atenção nos estudos de ensino fundamental sabe: o papel de Dom Pedro, a atuação de José Bonifácio, a atuação do Almirante Cochrane para submeter focos de resistência portuguesa, como na Bahia e nas províncias do Norte, e as rebeliões republicanas, como a Confederação do Equador.


Claro, e faz mais que isso. Mostra como houve longa resistência armada na Bahia, só vencida em julho de 1823, quase um ano depois do 7 de setembro de 1822. Mostra como brasileiros morreram lutando contra portugueses no Piauí.


Sobre o Almirante Cochrane mostra que este comandante britânico, mesmo tendo sido considerado um herói ao vencer as tropas portuguesas na Bahia, comportou-se como um corsário, ao saquear a cidade de São Luís do Maranhão, e é desprezado até hoje pela população de lá.


Fala da Imperatriz Leopoldina, de como ela foi importante para a causa da independência, e depois passou a ser cada vez mais desprezada e humilhada por Dom Pedro I, tendo morrido possivelmente de depressão, em decorrência das humilhações sofridas, tendo inclusive Dom Pedro nomeado Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, amante de Dom Pedro, como dama de honra da imperatriz.


Por fim ainda mostra o papel de Dom Pedro nas lutas contra uma restauração absolutista em Portugal, após ter renunciado ao trono brasileiro, em 1831.


Dom Pedro I do Brasil, ou Dom Pedro IV de Portugal, faleceu afinal, aos 34 anos em Portugal.
O livro é bem escrito, e correto historicamente.


Contudo, o livro me passou um certo sentimento de burocracia. Depois de ler o livro “1808” do mesmo autor, parece que este outro, “1822”, foi escrito sem a mesma vivacidade do anterior, mais ou menos como se o autor após um sucesso, tivesse uma certa obrigação de escrever de novo, e fizesse isso, “para cumprir tabela”, sem o mesmo empenho e empolgação.


Mas pode ser só impressão minha.


GOMES, Laurentino. 1822. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

08/04/2012.


Um comentário sobre a insignificância deste blog


Um comentário sobre a insignificância deste blog


Outro dia eu estava conversando com um colega de trabalho sobre os textos publicados aqui. Falávamos em especial sobre cinema, e, dentro de cinema sobre os filmes dos irmãos Coen (que eu sempre imagino que se chamam Cohen, pois essa me parecia a grafia correta para este mais ou menos tradicional sobrenome judeu).

E eu informei que havia publicado um comentário sobre o filme "Um Homem Sério" neste blog.
A título de curiosidade, tentei ver em que página o Google assinalaria a existência de meu texto sobre o tal filme.

Me senti insignificante após navegar por 55 páginas de busca no Google, e mais umas 20 na busca do Google em blogues, e não encontrar sinais de meu texto.


08/05/2012.