quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Hospital Independência - Ortopedia e Traumatologia

Hospital Independência - Ortopedia e Traumatologia




O Hospital Indenpendência fica, ou ficava, na Avenida Antônio de Carvalho, distante uns 300 metros da esquina da Avenida Ipiranga.
Era um hospital especializado em ortopedia e traumatologia, e, nos anos 1970, atendia pelo INAMPS, motivo pelo qual, quando a gurizada da Vila Cefer sofria algum acidente era para lá que era levado para entalar ou engessar algum membro quebrado, trincado ou destroncado. INAMPS era o antigo sistema de seguro-saúde público implementado pelo governo militar. Quem estivesse trabalhando, com carteira assinada tinha direito a tratamento médico para si, e para seus dependentes. O governo fornecia uma carteira de acesso ao atendimento que precisava ser renovada anualmente.
Eu mesmo fui atendido pelo menos duas vezes no Hospital Independência. As duas por acidente ao andar de bicicleta. Na primeira eu estava tentando aprender a andar de bicicleta, mas não consegui controlar o veículo e caí de um barranco. Eu me lembro que a mão e o braço doíam, mas eu tinha mais medo da reação de minha mãe ao ver que a camisa que eu havia colocado depois do banho ficou suja e rasgada. Felizmente nesse caso a minha mãe teve uma reação de mãe, coisa que eu não esperava. Não falou nada da roupa rasgada e suja, e queria me levar o mais rápido para um hospital.  Felizmente o pai do amigo que estava me ensinando a andar de bicicleta se prontificou a me levar no carro dele, junto com minha mãe ao hospital. Foi apenas uma luxação, mas valeu uns 15 dias de mão enfaixada.
Na outra ocasião, eu supostamente já havia aprendido a andar de bicicleta, e estava andando com a minha. Ao calcular mal uma curva, acabei caindo, e batendo com a mão no chão. Doía, mas aparentemente não parecia que nada de importante tivesse acontecido. No dia seguinte, meu pulso estava inchado e numa cor em que preto e azul se confundiam com a cor da pele. Novamente fui ao Hospital Independência, desta vez eu já era crescido o bastante para ir sozinho. Chegando lá, o diagnóstico foi de pulso quebrado. Quinze dias de tala, e outro tanto de gesso.
Minha irmã também foi tratada lá. Uma tarde ela estava com dores no braço direito e procurou atendimento no hospital. Foi diagnosticada com tenossinovite. Ela era datilógrafa, e ficou com o braço imobilizado por não um período que nem me lembro quanto foi.
Nos anos 1990 o Hostpital Independência foi comprado pela Universidade Luterana do Brasil, a ULBRA, que na época comprou o Independência e outras unidades hospitalares no Rio Grande do Sul, com isso a Ulbra queria se habilitar a oferecer um curso de medicina. Quando a ULBRA entrou em crise na metade dos anos 2000, o Independência fechou. Só recentemente foi reaberto como hospital público, atendendo pelo Sistema Único de Saúde atual, o SUS.
Mas para nós, então meninos da Vila Cefer na metade dos anos 1970 o Hospital Independência oferecia algo especial.
Era ali que os jogadores de futebol do Internacional eram tratados quando tinham algum problema mais grave de lesão.
Os médicos que atendiam no Hospital Independência deviam ser muito bons mesmo, pois naquela época o Hospital ficava quase no final do mundo. A Avenida Bento Gonçalves, depois da curva do Batalhão de Comunicações, era uma estrada que ligava Porto Alegre a Viamão, com direito a acostamento de chão batido. De mesma maneira, a Avenida Antônio de Carvalho que era como uma estrada ligando a Avenida Bento Gonçalves à Avenida Protásio Alves, também com direito à acostamento de chão batido. E a Avenida Ipiranga tinha pista única entre a Avenida Cristiano Fischer e a Avenida Antônio de Carvalho.
Mas para nós, meninos da Vila Cefer,  tudo bem.
Era comum que os atletas daquela equipe que seria a primeira gaúcha a conquistar o Campeonato Brasileiro de Futebol fossem internados para sofrerem cirurgia nos meniscos, isto é nos joelhos.
E nós íamos em grupo visitá-los e pedir autógrafos. Quem ia? Não estou certo. Possivelmente o Júlio, o Everton, o MIlton e o Jairo.
E quem nós visitamos?
Um que não esqueço foi o Paulo César Carpeggiani, que naquela época nós chamávamos apenas de Paulo César. Acho que foi pouco tempo depois do Inter ter ganho o bi-campeonato, em 1976 que ele esteve internado por lá. Eu não consigo me lembrar de quase nenhuma jogada do Carpeggiani, mas para mim ele era o gênio do time, acho que seria hoje o equivalente a um meia-armador. Acho que naquele tempo nós chamávamos de meia-esquerda a posição dele. E ele fez um gol primoroso no Fluminense em 1975, na semifinal do campeonato daquele ano.
Outro que passou por um dos leitos do Hospital Independência foi o Cláudio Duarte. Naquela época ele era lateral-direito do Internacional. Também internado por conta dos meniscos.
E teve também o Caçapava, que jogava no meio-campo. Acho que hoje o chamariam de volante, mas acho que para nós a posição dele era meia-direita. Caçapava acabou encontrando uma namorada entre as meninas da Vila Cefer, e parece que o namoro se tornou casamento.
Anos depois, quando comecei a trabalhar, um colega de trabalho afirmou que o que levava tantos jogadores do Internacional a ter problemas de menisco era a grama alta do estádio Beira-Rio. O time tinha bom preparo físico, e a grama favorecia a equipe com bom condicionamento. De forma que o Inter era sempre favorito jogando no Beira-Rio. Mas isso cobrava um preço dos joelhos dos atletas. Não sei se era verdade.
Hoje tanto o Paulo César Carpeggiani, quanto Cláudio Duarte atuam como técnicos de futebol. O que aconteceu com Caçapava eu não sei.
Assim como não sei que fim levaram os autógrafos que eu havia recebido deste jogadores, que eram idolos para mim, quando eu era guri.
O prédio do Hospital Independência continua lá. Infelizmente passou muito tempo fechado. Felizmente reabriu.


17/07/2012, 29/11/2012.



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Diário - cinema - Elefante Branco


Diário - cinema - Elefante Branco

A segunda impressão ao assistir ao filme argentino "Elefante Branco" é o de um filme semelhante a um gênero que acabou chamado aqui no Brasil de "favela movie", cujo fundador da série seria "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles e Katia Lund. Estão lá a favela, que os argentinos chamam de "villa", os traficantes e a polícia, embora a polícia argentina não seja mostrada como tão corrupta, como acontece geralmente nos filmes brasileiros.
A primeira impressão é de estranhamento, afinal, a princípio vamos ver algo de uma favela na periferia de Buenos Aires, então, o que faz a Amazônia na tela?
Só que não é um "favela movie" como os filmes produzidos no Brasil. Acaba se tratando de ver como padres católicos envolvidos com seu trabalho pastoral na comunidade, trabalho este iniciado pelo
Padre Mugica, um sacerdote real, que morreu assassinado em 1974, em circusntâncias até hoje não esclarecidas.
Esta pastoral na favela portenha tem seus desafios, como a própria relação com o tráfico de drogas que existe ali, a luta para amenizar as condições de vida precária da comunidade, e, obviamente, os desafios humanos enfrentados por cada sacerdote.
Contudo desse quadro, relativamente ambicioso, acabou saindo um filme regular.


12/11/2012.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ouvindo a Missa dos Quilombos na Semana da Consciência Negra


Ouvindo a Missa dos Quilombos na Semana da Consciência Negra


Nos dias de minha adolescência, lá no início da década de 1980, tive contato com o disco “Missa dos Quilombos” de Milton Nascimento. Naquele tempo era um long play, um LP, que havia sido emprestado para a minha irmã.
Ouvi aquele disco e gostei.
Era a criação, como o nome diz, de uma “missa temática”, no caso dedicada a denunciar o sofrimento do povo negro no Brasil, desde a escravidão até a vida de privações da época em que o disco surgiu.
Missas temáticas não são novidade. Aqui no Rio Grande do Sul, vez por outra algum sacerdote católico celebra uma “missa crioula”, se utilizando das tradições cultivadas nos Centros de Tradições Gaúchas espalhados por aqui. Também existe, ou existiu, a “missa da terra ssem males” dedicada ao povo indígena.
Quando ouvi o disco, eu gostei bastante das batucadas, dos sons de atabaques. E da temática das letras, compostas em sua maioria por Milton, em parceria com Pedro Tierra, e Dom Pedro Casaldáliga, então bispo de São Félix do Araguaia, que era então diocese em Goiás, hoje no Tocantins. Estas letras traziam o louvor a Deus junto com a denúncia da escravidão, da marginalização, do preconceito e da injustiça.
Lembro que seguindo a lógica de compartilhamento de músicas daquela época, copiei o conteúdo do disco em uma fita cassete, antes que minha irmã devolvesse o disco.
Pois agora a Editora Abril está relançando toda a obra de Milton Nascimento. Nas últimas semans, vários CD’s de Milton estão disponíveis novamente. Foi assim que pude comprar novamente a “Missa dos Quilombos” (quem ainda compra CD’s hoje em dia?).  
Estão no disco as faixas do LP original, “A de Ó (Estamos chegando)”, “Em nome do Deus”, “Rito Penitencial (Kyrie)”, “Aleluiá”, “Ofertório”, “O Senhor é Santo”, “Rito da Paz”, “Comunhão”, “Ladainha”, “Louvação a Mariama” e “Marcha Final (Do Banzo à Esperança) Invocação à Mariama”. Como se trata de um CD, algumas “faixas bônus” foram incluídas: “Abertura” com trechos de outras canções de Milton, “Raça”, “Pai Grande” e “Ony Saruê”.
A “Missa dos Quilombos” incorpora no seu ritual os ritmos das religiões africanas praticadas pelos escravos aqui, que acabaram por dar origem à Umbanda e ao Camdomblé, e que por fim  se tornaram formas de resistência dos negros no Brasil. Transformando os nomes de entidades iorubás nomes para Deus. Obatalá, por exemplo.
Acompanha o disco um livreto contando a história da criação da Missa dos Quilombos, sua primeira celebração no Recife, no início da década de 1980, e a gravação do disco no Convento do Caraça, no interior de Minas Gerais.
Curiosamente a missa acabou sendo vetada pela CNBB, pois Deus era Deus de todo o seu povo, e não apenas de uma fração desse povo, isto é, dos negros. Assim, cada vez que ela for celebrada, é necessária a autorização especial da hierarquia da Igreja. Se não, será apenas usada como obra de arte, o que, de fato, não é pouca coisa.
Como eu disse, as religiões de origem africana foram utilizadas por parte dos negros como meio de resistência à dominação escravista.
Mas nem todos os negros são adeptos destas religiões. Há todo tipo de fé entre os negros, desde as religiões de raízes africanas já citadas, e também católicos, evangélicos, espíritas, ateus e agnosticos.
Em todo caso, o disco da “Missa dos Quilombos” é uma boa audição para esta Semana da Consciência Negra (13 a 20 de novembro). Seja para a celebração religiosa, seja para a fruição artística.


19/11/2012.

Um comentário banal sobre feriados


Um comentário banal sobre feriados

Nesta terça-feira, dia 20, em algumas capitais será celebrado o feriado de Dia Nacional da Consciência Negra.
Dia 15 passado, quinta-feira, foi Dia da Proclamação da República. Este é um feriado nacional.
O que significa que algumas pessoas terão seis dias de folga nessas capitais onde o Dia da Consciência Negra é feriado.


18/11/2012.

domingo, 18 de novembro de 2012

Leituras na Piauí - outubro de 2012 - Excertos dos Diários de Susan Sontag


Leituras na Piauí - outubro de 2012 - Excertos dos Diários de Susan Sontag


Na revista Piauí de outubro de 2012 há uma seleção de trechos dos diários de Susan Sontag, que recentemente foram publicados nos Estados Unidos.
Susan Sontag foi uma escritora norte-americana que viveu entre 1933 e 2004. Sua obra é das mais importantes, e abarca uma variedade de interesses.
Os diários são comentários, reflexões sobre si mesma, reflexões sobre o relacionamento com sua mãe, sobre o relacionamento com o seu filho, sobre os relacionamentos amorosos que ela viveu.
Ela comenta o relacionamento conturbado, e competitivo com a mãe.
E declara seu amor por seu filho, David. O mesmo David esse que é o responsável pela publicação dos diários em forma de livro.
Me chamou a atenção que ela diga que não gosta de ser fotografada, nem de fotografar. O que complementa e é coerente com o que ela diz em seu livro “On Photograph”, que saiu por aqui o título “Sobre Fotografia”. O livro é bastante crítico à fotografia, e os ensaios que o compõem foram escritos antes da data de entrada no diário. Estas observações de Sontag a respeito de fotografia são datadas de 21/02/1977. Contudo, os últimos dias de vida de Sontag foram vividos ao lado de Annie Leibovitz. Fotógrafa. Uma das mais famosas e requisitadas dos Estados Unidos.
Vida complexa...


12/11/2012.

Leituras na Piauí - Outubro 2012 - José Pepe Mujica, El Viejo Tupamaro


Leituras na Piauí - Outubro 2012 - José Pepe Mujica, El Viejo Tupamaro


A revista Piauí de outubro de 2012 traz um interessante perfil do presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, escrito pela jornalista Carol Pires.
É um retrato pungente.
Para certo tipo de classe média brasileira tal presidente seria um sonho de consumo. Apesar de estar cumprindo um mandato de cinco anos como presidente do país, ele renunciou a residir no palácio presidencial, e continua morando em sua chácara, em uma casa muito simples, com apenas um dormitório, e teto de zinco.
Doa 90% do que recebe como presidente. O salário do presidente do Uruguai atualmente é algo próximo de 25 mil reais. Sendo assim, deduzimos que ele está recebendo o equivalente a 2 mil e 500 reais por mês. Para fins de comparação, eu soube há um ano atrás que um policial em início de carreira no Uruguai ganhava o equivalente a 3 mil reais.
Ele é casado com a senadora Lucía Topolansky.
Os únicos bens do casal são a tal chácara e um volkswagen fusca 1987.
O texto informa que após ser eleito presidente ele foi obrigado a começar a trajar blazer, mas continua a se recusar a colocar gravata. E, por baixo do blazer, usa puloveres puídos.
E a oposição reclama porque ele, mesmo em encontros com outros chefes de estado, calça as mesmas velhas botinas, em lugar de sapatos novos e alinhados.
Claro que, levando em consideração os tipos de comentários que se lê na Internet brasileira, sempre vai haver quem diga que isso é tudo um tremenda demagogia. Mas este é o jeito do presidente atual do Uruguai.
Carol Pires conta algumas coisas de seu período como preso político no país, durante a ditadura do país vizinho (1973-1985). A maior parte do seu período de prisão foi em solitária, e ele teve de beber da própria urina para aplacar a sede que sentia.
Sua esposa também esteve presa  e  ficou estéril de decorrência dos maus-tratos sofridos durante o período em que ela esteve detida.
Contudo, eles seguiram adiante.
Mujica defende que os generais condenados por crimes na ditadura devam cumprir suas penas em prisão domiciliar. Afinal, segundo o presidente, são todos homens muito velhos. Um pouco como ele próprio.
O texto inteiro na Piauí tem umas seis páginas. Como os textos da Piauí em geral, é um longo perfil. Mas este resumo já dá uma ideia. E em breve o texto integral deve estar disponível no sítio da revista.



12/11/2012.


sábado, 10 de novembro de 2012

Diário - leituras - Histórias de Trabalho 2012


Diário - leituras - Histórias de Trabalho 2012


Adquiri o livro “Histórias de Trabalho 2012” porque um dia eu tive esperanças de estar publicado nele.
Explico: “Histórias do Trabalho” é um concurso realizado anualmente pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, onde é possível se apresentar obras nas categorias de “Histórias Verdadeiras” (testemunhos e memorialística),  “Histórias Inventadas” (contos e crônicas), “Poesia”, “História em Quadrinhos / Cartum”, “Ensaio Acadêmico” e “Fotografia”. Na edição de 2012, a 19a. , nenhum ensaio acadêmico acabou selecionado.
Escrevi uma historinha na categoria “Histórias Inventadas”, mas ela não foi selecionada.
Tive curiosidade de ver os textos que foram selecionados.
Como eu disse, nenhum ensaio acadêmico acabou selecionado. Nas demais categorias, foram selecionados 10 obras em cada uma, exceto para “História em Quadrinhos / Cartum”, onde foram selecionadas 5 obras.
De fato, entre as “Histórias Inventadas” na qual concorri, há algumas boas histórias. Gostei em especial de “O décimo terceiro andar”, de Danieli Moreira de Souza, sobre a funcionária de uma empresa que assume o lugar de um antigo funcionário que simplesmente desapareceu após um erro profissional, e também sobre o sumiço de objetos na empresa, que os colegas dizem que é culpa de ratos; e de “A guerra”, de Mariana Salomão Carrara, sobre uma menina que é levada a perder a inocência da infância, quando certas situações desagradáveis envolvem seu irmão e trazem sofrimento à sua mãe.
Sobre as demais categoria prefiro não falar muito.
Entre as “Histórias Verdadeiras”, há algumas bastante comoventes.
E sobre “Fotografia”, “História em Quadrinhos” e “Poesia”, cada um leia e veja e julgue.


Histórias do Trabalho 2012. Porto Alegre: Editora da Cidade, 2012.


09/11/2012.

Se inscrevendo num concurso literário


Se inscrevendo num concurso literário

No início deste ano, um colega de trabalho me informou que a Secretaria Municipal de Cultura aqui de Porto Alegre estava promovendo um concurso de "histórias do trabalho". Ele inclusive me deu um folder a respeito do tal concurso.
Dificilmente eu sou movido a concursos ou competições, mas nesse caso, resolvi que iria enviar algo.
Escrevi a historinha e a submeti ao escrutínio de dois outros colegas. Se a recepção não foi entusiástica, não foi de desalento.
Uma curiosidade é que eu tentei mostrar a historinha àquele colega que me informou do concurso, e ele recusou-se veementemente à sequer pegar no papel, quanto mais dar alguma avaliada. Na hora o gesto tão enfático me pareceu mesmo ofensivo, até porque não era "Guerra e Paz" que eu estava pedindo a ele que lesse, mas apenas quatro páginas impressas. E além disso, ele que havia indicado o tal concurso. Na hora me senti meio chateado, mas passa. Passou.
Se a historinha tivesse sido escolhida pela comissão julgadora, ela seria publicada num livro coletivo, com as demais obras selecionadas. Este livro seria lançado na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre, que ocorre no início de novembro.
Nesse intento fracassei miseravelmente.
Contudo, procurei a banca da Secretaria Municipal de Cultura para procurar pelo livro publicado. Descobri então que essa já era a 19ª edição do concurso de Histórias do Trabalho. Mais uma vez fiquei surpreso, com o quanto eu posso ser ignorante a respeito de certas realidades que me cercam.
Contudo pode haver um benefício nisso. Se é a 19ª, deve haver uma 20ª. Quem sabe eu me inscrevo de novo, com outra história?


09/11/2012.


No intervalo do almoço


No intervalo do almoço


- Almoço? - perguntou um.
- Almoço? - respondeu outro.
- Almoço! - respondeu um terceiro.
Normalmente era assim. Quando se aproximava da hora do almoço eles se aproximavam uns dos outros, como se a fome diária os unisse. Trabalhavam numa autarquia no Centro Histórico de Porto Alegre. Antigamente nem se dizia Centro Histórico, bastava dizer que trabalhava na Rua da Praia, que já ficava implícita a referência ao centro da cidade, que no caso de Porto Alegre, fica num ponta, motivo pelo qual Porto Alegre não tem zona oeste.
A autarquia é um dos tantos lugares nos quais as ordens do Governador, expressas ao Secretário, acabam se transformando em algo que vai afetar aos cidadãos. Assim, esses homens se sentiam cheios de responsabilidades junto à cidadania, mas por outro lado se sentiam aliviados por trabalharem em áreas de suporte. Áreas meio, onde não tinham que encarar o respeitável público de frente.
Carlo era algo como um administrador da rede da seção da autarquia em que trabalhavam. Mateus era o homem que tratava dos diversos softwares com os quais eles trabalhavam, de forma que Carlo e Mateus tinham que tentar se entender, ou, ao menos, tentar evitar atritos um com o outro. Voltaire era um sub-chefe da seção, e os dois Joões era assistentes administrativos. Por conta do que achavam ser um concorrido mercado de trabalho no sul do Brasil, todos eles tinham educação superior. Carlo e Mateus eram formados em Análise de Sistemas, um numa universidade pública, outro numa universidade privada. Voltaire e um dos Joões eram formados em Administração de Empresas, e o outro João, bem, João era formado em Letras. Mas, bem ou mal, todos eles conseguiram passar pelo concorrido concurso para fazerem parte do quadro de funcionários da autarquia em que eles trabalhavam.
Assim, de segunda a sexta eles se esforçavam para que a rede mais ou menos obsoleta funcionasse adequadamente, os processos andassem, e as informações fossem tabuladas corretamente, de forma que os atendentes na linha de frente pudessem fazer o que se esperava deles.
Mas ao meio-dia era o horário de almoço.
Eles costumavam almoçar num dos tantos restaurantes por quilo que existiam no centro de Porto Alegre, na General Câmara, não muito longe da Rua da Praia, onde trabalhavam. Apelidaram o estabelecimento de “Sorvetinho”, pois tinha como diferencial oferecer como opção de sobremesa o gelado, materializado através de uma máquina de sorvete italiano. Esse diferencial foi se desvanecendo à medida em que outros restaurantes de bufê a quilo foram disponibilizando esse tipo de máquina aos clientes. O restaurante tinha dois amplos salões, com dezenas de mesas, de forma que não costumava ser difícil encontrar uma dessas mesas vaga. Um longo corredor ligava os dois salões, e era o local onde ficava instalado o bufê propriamente dito.
Ao meio-dia era horário de almoço. E no horário de almoço, as conversas podiam render.
Naquele dia, depois que todos haviam se servido, e estavam sentado, o João das Letras lançou o desafio.
- Ontem meu filho me mostrou a pergunta: “quantos personagens de Dragon Ball são necessários para trocar uma lâmpada?”
Diante do silêncio, ele mesmo respondeu:
- Simples. Um... Mas vai demorar pelo menos uns seis episódios...
Quem tinha visto o desenho animado Dragon Ball riu.
Depois o Mateus contou uma piadinha, mais ou menos no mesmo assunto.
-  A mulher saiu de casa e disse que ia fazer compras. Mandou o marido arrumar a casa, e cuidar bem do filho. O marido acatou as demandas e concordou em fazer tudo que ela havia mandado. O filho achou aquilo meio estranho e perguntou para o pai: “Pai, por que você faz tudo que a mamãe manda?”. O pai respondeu “É uma longa história filho, mas basicamente foi o seguinte: quando eu soube que você ia nascer, eu disse para ela que eu iria fazer qualquer coisa que ela quisesse, desde que ela deixasse que eu escolhesse o teu nome.” O filho continuou questionando o pai: “E valeu a pena, pai?” . O pai respondeu: “Claro que valeu Goku!”
Todos na mesa riram. E quem menos riu, abriu um largo sorriso.
E assim ia a conversa, de desenhos animados (ou animes, ou animês, como talvez fossem chamadas as animações japonesas), de histórias em quadrinhos, de videogames, de cartuns...
E assim chegaram ao Laerte.
Laerte é um cartunista que publica tirinhas em jornais de circulação nacional. E tem causado certo rebuliço por ter começado a se vestir com indumentária feminina, de uns tempos para cá.
- Pois é, e tem o Laerte. - disse disse o João das Letras.
Era uma mesa de altos assuntos culturais...
- O que tem o Laerte? - perguntou o João da Administração.
- De uns tempos para cá, começou a se vestir de mulher... - voltou o João das Letras.
- Virou travesti. - Falou o Carlo.
- Acho que eu ouvi falar em algo como “cross dresser” - tentou o João das Letras.
- Um travesti. - Reafirmou o Voltaire.
- Tá. Um travesti. - concordou o João das Letras.
- Mas um cara assim tem que gostar de fio-terra. - Disse o Carlo.
- Mas o que tem de errado gostar de fio-terra? - Questionou o João das Letras.
- Pronto! - disse o Voltaire, com um sorriso malicioso nos lábios... - Era só o que faltava. Um apologista do fio-terra na mesa.
- Sim, mas o que o camarada faz com a mulher dele pode ser ofensivo para nós? - O João das Letras ainda tentou emendar.
- Ah não! Se se veste de mulher, deve fazer fio-terra, e se gosta de fio-terra, alguma coisa errada tem! - Completou o Carlo.
Um certo silêncio, entre cúmplice, sarcástico e constrangido tomou conta da mesa...
Mas foi só por um minuto.
Logo outro assunto retomou a conversa.
Dos cinco à mesa, quatro eram casados. Provavelmente quando faziam sexo com suas respectivas esposas o faziam da forma mais convencional possível. Provavelmente não alimentavam nenhuma fantasia perversa....
Bom. Tinha o Mateus. Mateus é o mais jovem, e único solteiro. Talvez, no seu interior, ele ainda possa ser um pervertido. Talvez, por solteiro, possa desfrutar de alguma fantasia pervertida. Mas, de qualquer maneira, ele nunca comentou nada com ninguém.
A refeição chega ao fim. O tempo acaba. A conversa se dispersa. É hora de pagar, e voltar para a autarquia. Pegar a General Câmara em direção à Rua da Praia.
Voltar à autarquia para Mateus continuar a customizar softwares, Carlo a manter a rede funcionando, um João a contabilizar, e o outro também. E Voltaire a mandar. Afinal ele é o chefe, ou subchefe, mas tanto faz se o cargo é chefe ou subchefe, pois é ele que manda...
Afinal, a autarquia é um dos tantos lugares nos quais as ordens do Governador, expressas ao Secretário, acabam se transformando em algo que vai afetar aos cidadãos. Assim, esses homens se sentiam cheios de responsabilidades junto à cidadania, mas por outro lado se sentiam aliviados por trabalharem em áreas de suporte. Áreas meio, onde não tinham que encarar o respeitável público de frente.



16/04/2012, 19/04/2012, 26/04/2012.

Diário - cinema - 007, Operação Skyfall


Diário - cinema - 007, Operação Skyfall


"Operação Skyfall" é um pouco mais de 007, com a peculiaridade que o filme insiste em mostrar um agente secreto que está ficando velho.



Há várias sequências enfatizando isso, a começar pela cena de abertura do filme, onde a câmera em determinado momento perde o foco, alusão sutil, ou nem tanto, à perda de visão decorrente da idade. Uma perda de fôlego aqui, um erro ali, e vai ficando demonstrado que o agente secreto inglês é um homem de meia-idade.


Fora isso, é mais um pouco de 007, como eu já disse.


É claro que é possível se questionar porque algum dos agentes do MI6 andaria por aí carregando um disco rígido com uma série de nomes de agentes secretos infiltrados em organizações terroristas no mundo todo, mesmo que encriptado. Mas sem esse início algo estranho, não teríamos um filme.


O filme começa na Turquia, passa por Xangai e Macau, na China, para voltar à Grã-Bretanha. Inglaterra e Escócia.


Como eu disse em outro comentário sobre o filme anterior de 007, a franquia tem que se reinventar. E nesse caso, não há mais vilões querendo dominar o mundo, nem corporações ambiciosas e sanguinárias. Há um ex-agente secreto renegado do MI6, querendo se vingar de "M", a chefe do serviço secreto, por alguma coisa ocorrida uns vinte anos antes.


Perseguições, lutas, tiros, tudo muito 007. E apenas duas mulheres sobre as quais James Bond lança seu charme.


Quem gosta de filmes de 007 há de gostar.


09/11/2012.


domingo, 4 de novembro de 2012

Natal Verde 2012

IMG_2733 by Ze Alfredo
IMG_2733, a photo by Ze Alfredo on Flickr.
Árvore de Natal montada no Shopping Bourbon Country - Porto Alegre, RS, Brasil.