terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Um comentário sobre “O Jogo da Amarelinha”



O “Jogo da Amarelinha” é um romance que foi escrito pelo argentino Júlio Cortázar, no início da década de 1960. Trata da história de Horácio Oliveira e sua vida, parte em Paris, como expatriado, parte em Buenos Aires. É um livro em que é possível analisar tanto conteúdo quanto forma, e ainda pensar como o autor junta isso no decorrer da obra através de um personagem chamado Morelli.

Pensando em conteúdo: como foi dito, o personagem principal é Horácio Oliveira, argentino. Parte de sua história se passa em Paris, parte após seu regresso a Buenos Aires. Em torno dele gravitam os demais personagens, sendo que os mais importantes são a Maga, ou Lucía, em Paris; e Manolo Traveler, em Buenos Aires.

Em Paris há sua convivência com a Maga e, em menor grau, com Pola, ambas suas amantes. E há “o Clube”, uma comunidade de pessoas, em sua maioria expatriados como Horácio. Uma comunidade que se reúne para ouvir jazz, fumar e beber vodca barata, discutir filosofia ou o sentido da vida, se é que a vida tem algum sentido para eles, e literatura. São pessoas adultas. Em mais de uma parte do livro Horácio nos informa que tem mais de quarenta anos, de onde pode ser deduzido que os demais membros do Clube tenham idade aproximada. De maneira geral são pessoas inteligentes, instruídas e sofisticadas. E fracassadas. Vivendo naquela Paris do início da década de 1950, os membros do Clube, ou dependem economicamente de parentes, ou não obtém sucesso em suas carreiras profissionais. Alguns deles aspiram a ser artistas.

Em Buenos Aires há a amizade de Horácio com Manolo Traveler, e com a esposa deste, Talita ou Atalia. Há também o relacionamento com uma namorada, a quem ele não ama, mas que lhe é devota. E em Buenos Aires obtém trabalhos precários: vendedor de tecidos de porta em porta, auxiliar em um circo, auxiliar em uma clínica psiquiátrica.

Horácio gosta de se ver como um intelectual, mas não “produz” nada, nenhuma obra, exceto as discussões que tem com os membros do Clube, em Paris, ou com Traveler em Buenos Aires. Horácio é um homem paralisado pela metafísica, a tal ponto que consegue questionar em diálogos com seus interlocutores, se o diálogo está mesmo acontecendo. Esta busca por significados, para além daquilo que os sentidos podem perceber o impedem inclusive de desfrutar o amor das mulheres com quem ele se envolve, e de manifestar solidariedade e compaixão quando isso fosse necessário. Tal paralisia metafísica pode interromper a comunicação, e levar à loucura.

E há a questão da forma. O livro “O Jogo da Amarelinha” tem 155 capítulos, e o autor propõe duas maneiras de ler o livro. A mais simples é começar pelo capítulo 1 e ler, de maneira linear e direta, em sequência, até o capítulo 56. A obra estaria lida e o leitor saberia do que se trata.

A outra forma é seguindo a proposta do autor mapeada no início do livro, para ler quase todos os 155 capítulos. O mapa do autor indica que nesse modo se comece a leitura pelo capítulo 73, depois se passe ao capítulo 1, depois ao 2, e os demais, até terminar no capítulo 131. Nesse modo, ao final de cada capítulo há a indicação de qual capítulo deve ser lido em seguida.

Eu apontaria que é possível ler começando pelo capítulo 1, e, continuando sequencialmente, ir até o 155. De qualquer maneira, haverá informações complementares à leitura sumária, dos capítulos 1 a 56, e alguns capítulos que parecerão colagens aleatórias.

Há uma espécie de discussão desta ligação entre forma e conteúdo dentro do livro na figura de um personagem chamado Morelli.

Morelli, no livro, é um autor e teórico de literatura, e espécie de ídolo para os membros do Clube, e a certa altura da trama escreve que é necessário tirar o leitor de seu conforto e sua passividade, conforto e passividade estes induzidos por obras lineares e simples demais. Talvez seja um maneira de Cortázar se justificar, ou se explicar, pelo embaralhamento de capítulos feito em “O Jogo da Amarelinha”.

Após ter lido o livro em todas estas formas descritas acima, devo dizer que as achei desnecessárias. O potencial leitor desfrutaria mais do livro sem o malabarismo que acabou lhe sendo imposto, e contra as alegações do personagem Morelli. Por outro lado temos que conceder que uma ordenação linear do livro tornaria dispensáveis os questionamentos de Morelli, e potencialmente cortaria parte do conteúdo do livro. Mas nesse caso Cortázar poderia inventar outras discussões para os membros do Clube.
E há ainda as experimentações com a linguagem, como no capítulo 68, onde podemos encontrar algo como:
No mesmo instante em que ele lhe amalava o noema, ela lhe dava com o clêmiso e ambos caíam em hidromurias, em abanios selvagens, em sústalos exasperantes. De cada vez que procurava relamar as incopelusas, ele emaranhava-se num grimado queixoso e tinha de envulsionar-se de cara para o nóvalo, sentindo como se, pouco a pouco, as arnilhas se espechunassem, se fossem apeltronando, reduplimindo, até ficar estendido como o trimalciato de ergomanina no qual se tivesse deixado cair umas filulas de cariacôncia. E, apesar disso, aquilo era apenas o princípio, pois, em dado momento, ela tordulava-se os hurgálios, consentindo que ele aproximasse suavemente os seus orfelunios. Logo que se entreplumavam, algo como um ulucórdio os encrestoriava, os extrajustava e paramovia, dando-se, de repente, o clinón, a esterfurosa convulcante das mátricas, a jadeolante embocapluvia do órgumio, os esprêmios do merpasmo numa sobremítica agopausa. Evohé! Evohé! Volposados na crista do murélio, sentiam-se balparamar, e tudo se resolvirava num profundo pínice, em niolamas argutendidas gasas, em carínias quase cruéis que os ordopenavam até o limite das gunfias..”i

Ou o capítulo 69 sobre a linguagem nativa latinoamericana:
Ingrata surpreza foi ler no “Ortográfiko” a notisia de aver falesido em San Luis Potozi, no dia 1 de marso último, o tenente koronel (promovido a koronel para ser apozentado) Adolfo Abila Sanhes. Foi uma surpreza porkê não tivéramos notisia de kê se axasse de kama. Além do mais, já avia tempo ke o tínhamos katalogado entre nossos amigos os suisidas i, numa okasião, “Renovigo” referiuse a sertos sintomas observados nele. Todavia, susede ke Abilia Sanhes não eskolieu o revólver komo o eskritor antiklerikal Giyermo Delora, nem a korda komo o esperantista fransês Eugène Lanti.”ii

Eu posso discutir tudo isso, contudo a obra está aí do jeito que está. Para além dela, há discussão e especulação.

Eu já havia lido resumos e comentários bastante laudatórios a respeito de “O Jogo da Amarelinha”, como a obra-prima de Júlio Cortázar. É um livro muito bom, na verdade poderíamos até dizer que são dois livros. Um ambientado em Paris, outro em Buenos Aires. E a parte da história que acontece em Paris é melhor que a que acontece em Buenos Aires. É um livro muito bom, mas me parece inferior aos livros de contos que li dele anteriormente: “Todos os Fogos o Fogo” e, principalmente, “As Armas Secretas”.




17/10/2012.




CORTÁZAR, Júlio. O Jogo da Amarelinha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. Obra original de 1964.




iCopiado de um “tumblr” dedicado ao livro “O Jogo da Amarelinha” - <http://amarelinha.tumblr.com/page/2>

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Leituras na Piauí - novembro de 2012 - A Transição, por Robert A. Caro


Leituras na Piauí - novembro de 2012 - A Transição, por Robert A. Caro

“A Transição” foi o texto que mais me marcou na edição de novembro de 2012 da revista Piauí. Escrito por Robert A. Caro, narra, como o título denuncia, a transferência de poder de John F. Kennedy, para Lyndon B. Johnson, após o atentado em novembro de 1963.

O texto é, na verdade, um excerto da longa biografia que Caro está escrevendo sobre o presidente Johnson. Quatro volumes já vieram à luz, e um quinto ainda deverá ser publicado. Uma obra monumental assim, teria, talvez, pouco interesse para qualquer pessoa que não fosse um cidadão dos Estados Unidos, muito interessado em História.

Lyndon Johnson foi um presidente ambíguo, em grandes coisas. Ele reafirmou seu compromisso com os direitos civis dos negros no sul dos Estados Unidos (compromisso este que Kennedy já havia abraçado), colocando a Guarda Nacional a escoltar estudantes negros para lhes garantir o acesso ás universidades, antes reservadas aos brancos, e o FBI a investigar crimes contra ativistas de direitos. Também implementou os grandes programas de seguridade social do Medicare e do Medicaid. Por outro lado, escalou a presença de tropas dos Estados Unidos no Vietnã, e, com relação ao Brasil, apoiou amplamente os golpistas em 1964.

Contudo a questão do interesse restrito que poderia haver para uma biografia de Johnson, entre nós, brasileiros, se esvai, com quem esteja disposto a ler a narrativa de Robert Caro.

É uma narrativa extremamente vívida, rica em detalhes.

Começa com o mau momento que Johnson vivia como vice-presidente de John Kennedy. Basicamente o cargo era uma figuração, e Johnson aparentemente se sentia bastante desprestigiado com ele. Ele já havia sido senador, e como senador fora um homem poderoso. Como vice-presidente ele se sentia bem menos poderoso. Caro informa que na manhã de 22 de novembro de 1963 em que Kennedy seria baleado, jornais informavam que inclusive Kennedy poderia escolher um outro candidato para vice, no momento de concorrer à reeleição.
De quebra, uma Comissão do Senado tinha audiência para investigar possíveis problemas de corrupção com um protegido de Johnson no governo. E a revista Life investigava esse mesmo caso.

Nos Estados Unidos de 1963, antes que o Governo Kennedy-Johnson garantisse direitos aos negros no sul do país, o governador do Texas era democrata, e um senador importante do estado também era democrata. O que pareceu bem estranho para mim, pois desde que presto um pouco mais de atentção à política dos Estados Unidos, digamos de uns quinze para cá, parece que o governador de lá, Texas, sempre é republicano, apenas trocando o nome do eleito, como foi o caso do ex-presidente George W. Bush. Mas que faz sentido. Antes dos direitos civis, o presidente que havia garantido o fim da escravidão nos estados do sul era um republicano.

Mas tudo mudaria com o atentado de 22 de novembro.

Caro quase nos conduz no carro que levava o então vice-presidente. O veículo seguia mais para trás no cortejo. Quando são informados do tiroteio, com o atentado contra Kennedy, o guarda-costas lança Johnson para o chão do carro, e manda o motorista acelerar.

Os ferimentos em Kennedy foram graves, e logo o presidente expiraria.

É então que Johnson vai passando por uma transformação.

O homem que se via em final de carreira, de repente é alçado ao papel principal. A presidente da nação mais poderosa do ocidente.

É realmente uma transformação. Ele logo está mandando, e procurando meios para se legitimar como o novo presidente dos Estados Unidos. Quando o Serviço Secreto manifestou a necessidade dele voltar para Washington, Johnson disse que não iria sem a viúva de Kennedy, Jacqueline. Jacqueline não voltaria para Washington sem o corpo de John. O Serviço Secreto informou que ela poderia ir em outro avião depois, mas Johnson insistiu para que esperassem. E assim foi. Também entrou em contato com o secretário de justiça de Kennedy, que era ninguém menos que o irmão dele, Robert Kennedy. Além disso, ele mandou chamar uma juíza federal de uma corte local do Texas para lhe tomar o juramento e empossá-lo oficialmente como presidente dos Estados Unidos.

Com isso, a investigação de corrupção contra um indicado dele no Congresso, bem como a reportagem da Life resultaram em nada.

Johnson era o novo presidente da nação que acabava de sofrer mais um trauma com o atentado e o assassinato do presidente.

É possível conferir que lá como cá há a pequena política, como essa investigação de corrupção no Congresso. E a exploração disso por parte da imprensa.

É possível ver esta questão das formalidades legais da república dos Estados Unidos da América, com um presidente jurando à constituição perante um juiz local.

Enfim, uma narrativa vívida, uma boa história. Se fossem convertidas em um roteiro de cinema, as mais de dez páginas publicadas na revista Piauí, dariam um filme bem razoável, ou, pelo menos, um rico documentário de como foi a transição de poder de Kennedy para Johnson em 22 de novembro de 1963. O texto de Caro é capaz de prender a atenção de bem mais que um cidadão dos Estados Unidos que goste bastante de História.


08/02/2013.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O Início do Ano no Brasil


O Início do Ano no Brasil



13 de fevereiro, quarta-feira de cinzas. Fim do Carnaval. O bordão sempre repetido e a anedota dizem que o ano agora vai começar no Brasil.

Claro que levando estas afirmações ao extremo, é possível dizer que o ano só começará de fato na próxima segunda-feira, dia 18. Eu conheço profissionais autônomos e proprietários de pequenos negócios cujas férias anuais consiste em completar a semana seguinte ao Carnaval na praia, ou outro local para o qual viajaram.

É muito curioso. É como se o recesso parlamentar e o recesso do judiciário definissem todo o mundo do trabalho no país. Ou o final temporário de certos programas na televisão aberta brasileira (consigo me lembrar do Programa do Jô e do CQC).

Não vale querer alegar ano letivo escolar. É como se professores só trabalhassem quando estão na sala de aula.

Sim, muitos pais aproveitam as férias escolares para tirarem férias. E isso normalmente ocorre entre dezembro e fevereiro, coincidindo com o verão austral.

Mas as indústrias continuaram trabalhando desde 2 de janeiro. O comércio trabalhou quase sem parar. Eu trabalhei.

Então, para mim, para a maioria, o ano começou mesmo em 2 de janeiro. Sem mais nhém,nhém, nhém.


13/02/2013. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Max e os Felinos, Vida de Pi, As Aventuras de Pi


Max e os Felinos, Vida de Pi, As Aventuras de Pi

Depois de ter ido assistir ao filme "As Aventuras de Pi", fiquei com vontade de ler o livro de Yann Martel, no qual o filme foi baseado.



Também fiquei com vontade de ler o livro "Max e os Felinos" escrito pelo saudoso Moacyr Scliar, no qual Yann Martel teria se inspirado.

Houve já certa polêmica a esse respeito. A acusação mais pesada é que Yann Martel teria simplesmente plagiado a obra de Scliar. No fim, parece que ele acabou reconhecendo publicamente a "inspiração" na obra de Scliar. Sobre isso há a própria reflexão de Moacyr Scliar sobre o incidente, disponível, por exemplo, no sítio Digestivo Cultural.


Seria o caso de ler estas obras para poder avaliar pessoalmente.


08/02/2013.

Diário - cinema - As Aventuras de Pi


Diário - cinema - As Aventuras de Pi


"As Aventuras de Pi" ("Life of Pi") é uma produção americana de 2012, com imagens maravilhosas e inefáveis. A princípio seria só isso que eu diria. Também diria para admirar Richard Parker, o tigre com que o ator Suraj Sharma contracena. Seria suficiente.

Mas há mais.

Pi, ou como se pronúncia, "Pái", em inglês, toma para si o número representado pela letra grega "pi", "3,14159...", para se livrar de seu nome original. O nome original seria "Piscine Molitor Patel". "Piscine Molitor" é o nome de uma piscina pública francesa, onde o tio de Pi uma vez nadou. Para esse tio nadador, tal piscina tinha sido a melhor em que ele já havia mergulhado e nadado. Por isso sugeriu o nome dela para o sobrinho. Isso se tornou um problema para Pi, porque a palavra francesa "piscine" soa como mijar, "pissing", em inglês, língua falada por boa parte da população indiana, incluídos ai os colegas de escola de Pi. Para fugir do constrangimento ele adotou o nome do número, que como ele lembra no filme, representa a relação entre o perímetro e o diâmetro de uma circunferência.

Além disso, há que se prestar atenção à religiosidade peculiar adotada por Pi, ainda na sua infância.

Disso tudo, resulta um filme com imagens impactantes, e uma história comovente.



08/02/2013.

Shows de Rock como Cultos Religiosos


Shows de Rock como Cultos Religiosos

Estou me convencendo que shows de rock são muito parecidos com cultos religiosos. Um culto religioso neo-pagão e agnóstico, mas ainda assim uma espécie de culto religioso, um tipo de celebração de espiritualidade onde não há um ente, como um deus, a ser celebrado.


Eu uso este termo neo-pagão porque, pelo que li em algum lugar que já não me lembro mais, os cultos chamados de pagãos da Antiguidade celebravam deuses que eram como encarnações de forças naturais. Da mesma maneira, o culto como show de rock não celebra nada mais que uma certa maneira de estar no mundo, de estar vivo, e em consequência viver as contradições de se estar no mundo. Isso vale em especial mais para grupos que questionam as contradições do mundo em suas canções, que para aqueles que ficam celebrando o amor por um garoto ou garota obviamente.

Assim, os membros do grupo de rock são os celebrantes, os líderes, os sacerdotes. A plateia, os fiéis.

A plateia tende a vestir uma espécie de uniforme, constituído de camisetas pretas, e calças jeans, sendo que muitos radicalizam o uniforme calçando tênis Converse. Claro que isso não é obrigatório, mas certamente é o que veste a maioria.

Como num culto cristão pentecostal, a plateia canta junto com o grupo que está no palco, levanta e agita os braços, ou, em outros momentos, acompanha a música com palmas.

O show pode ainda ter a manifestação de emoções, catarses. Seja pela alegria incontida de alguns, seja pelo choro emocionado de outros.

É verdade que alguns podem procurar a obnubilação pela ingestão de álcool ou outras drogas. Para a maioria é apenas uma maneira de relaxar, embora alguns levem esse consumo a extremos, mas parece que este tipo de extremista não é maioria.


Cantar junto, levantar e balançar os braços, deixar fluir a emoção. Celebrar. Celebrar a música. Como um culto religioso.




18/10/2012.

Diário – filmes atrasados – Histórias Cruzadas


Diário – filmes atrasados – Histórias Cruzadas


Recentemente pude assistir ao filme “Histórias Cruzadas”, cujo título original é “The Help”. O filme é baseado em romance homônimo escrito por Kathryn Stockett e retrata parte da elite econômica da cidade de Jackson, no Mississipi, no início da década de 1960, e as mulheres negras que trabalham como empregadas domésticas nas residências desta elite (a “ajuda” do título original).

Um filme que retrate o sul dos Estados Unidos na década de 1960, obviamente vai falar da luta pelos direitos civis, e das formas de dominação que a maioria branca usava para manter os negros em submissão. É a mesma região que já foi retratada no filme “Mississipi em Chamas”, de 1988. Uma região e uma época em que igrejas frequentadas por negros são incendiadas, sinagogas sofrem atentados à bomba, e ativistas de direitos civis são assassinados.

É para esse lugar que uma jovem chamada Skeeter, vivida pela atriz Emma Stone, volta após sua graduação no norte do país. Ela gostaria de trabalhar em uma editora de Nova Iorque, mas precisa adquirir experiência antes. É assim que ela consegue um emprego em um jornal local. Contudo, como parte de seu projeto de trabalhar em Nova Iorque, ela é desafiada a escrever um livro que narre as histórias vividas pelas empregadas domésticas negras que trabalham nas casas da elite branca de Jackson. Seria uma oportunidade para explorar um outro lado da luta em que os negros estão envolvidos pelos seus direitos civis.

A princípio a única empregada que se dispõe a falar é Aibileen, interpretada otimamente por Viola Davis. Ela trabalha para uma antiga amiga de infância de Skeeter, Elizabeth. Aibileen perdeu seu único filho num acidente de trabalho, onde seus empregadores brancos foram incapazes de tomar uma iniciativa para salvar a vida de um rapaz negro.

Ao mesmo tempo Skeeter entra em conflito com sua própria família por não saber o que aconteceu com a empregada que havia ajudado a criar a própria Skeeter, Constantine.

Mas quem da fato “rouba a cena” é a atriz Bryce Dallas Howard, que vive a maligna Hilly, supostamente uma amiga de infância de Skeeter. Hilly é uma mulher capaz de lançar campanhas de arrecadação de doações para “crianças na África”, mas que não quer o progresso econômico dos filhos de seus empregados. Uma pessoa vingativa, que procura evitar uma nova contratação de alguma empregada que não tenha atendido a alguma demanda sua como lhe convinha.

Para dar o contexto da época, o filme coloca alguns fatos históricos, como o apoio do presidente John Kennedy às demandas pelos direitos civis, ou o assassinato de Medgar Evers, um ativista dos direitos civis (Evers pode ser visto em uma cena no qual ele aparece no noticiário de televisão convocando um boicote contra estabelecimentos comerciais de propriedade de brancos).

Destaques ainda para as atuações de Olivia Spencer para a espevitada Milly, melhor amiga de Aibileen e, a princípio, empregada de Hilly; e Jessica Chastain, como Celia Foote, a dona de casa branca, rejeitada pelas outras moças brancas da cidade por ter supostamente roubado o antigo namorado de Hilly.

A minha única restrição ao filme é que me parece difícil acreditar que a sociedade branca e segregadora desse sul dos Estados Unidos possa ser tão neurótica e disfuncional como mostrado no filme. Certamente roteirista e diretor exageraram nisso, como liberdade criativa.

Um ótimo filme. Vale ver e rever.


18/01/2013.

Diário – cinema – Detona, Ralph


Diário – cinema – Detona, Ralph


“Detona Ralph” é um filme de animação produzido pelos Estúdios Disney. Está disponível em diversas versões, em 3D ou 2D, legendado ou dublado, nas salas de cinema.

“Wreck-It, Ralph” é o título original desta animação, inspirada no universo dos vídeo games. Por ser inspirado no universo dos jogos eletrônicos, o filme traz muitas referências desse universo, inclusive com a incorporação de muitos personagens de jogos que estão sendo utilizados por aí. Acredito que o título “Wreck-It, Ralph” tenha a ver com o título do aparentemente ficcional jogo “Fix-It, Felix Jr.”, no qual Ralph é o antagonista, adversário do Felix Júnior do título. Na minha percepção, “wreck” soa como “réqui”, então temos a história de um vilão de um vídeo game que ganhou um filme, com dois sons de erre, em contraposição ao herói do mesmo game, com dois sons de efe. E se o verbo inglês “to wreck” serve para destruir, demolir, afundar (como em afundar um barco), o(a) tradutor(a) brasileiro(a) conseguiu uma feliz composição, ao usar o verbo “detona”, porque isso tanto serve para “destruir” quanto para, digamos, “fazer acontecer” no nosso vocabulário cotidiano.

E se os personagens principais do filme não existem entre os games que os usuários jogam (pelo menos não parece que existam, mas é bem possível que vejamos logo o jogo do “Fix-It, Felix Jr.”, ou a “Sugar Race”, ou mesmo um jogo chamado “Wreck-It, Ralph”, todos derivados do filme), eles certamente são inspirados por outros personagens. Podemos identificar o Ralph com o Donkey Kong, e o Felix Junior com o Mário, no jogo “Donkey Kong” feito para “arcades”, isto é, os nossos antigos fliperamas, pela Nintendo no início da década de 1980. E o jogo “Sugar Race” é claramente inspirado na série “Mario Kart”, que teve diversas sequências para as diversos consoles de jogos domésticos produzidos pela Nintendo nos últimos trinta anos.

Como se pode concluir de tudo isso que já foi dito acima, Ralph é o protagonista do filme, mas, no jogo “Fix-It, Felix Jr.” ele é o malvado, o cara a ser vencido. E isso faz mal para ele, tanto que ele frequenta as reuniões dos “vilões anônimos” dos vídeo games. Um grupo de ajuda mútua para os vilões dos games poderem suportar o fardo de serem, exatamente, vilões. No jogo em que é antagonista, Ralph sempre tem que destruir o que Felix Junior irá depois consertar. No final do jogo ele é sempre jogado na lama. E quando o jogo termina ele precisa viver apartado dos demais personagens do jogo, num monte de entulho. Essa reunião dos “vilões anônimos” que acontece logo no início do filme é bastante hilária, os vilões se incentivam uns aos outros com jargões como “ser mau é bom”, ou “ser mau não é mau”.
E é em busca desse “ser bom” que Ralph partirá em aventuras em outros jogos, fora do jogo que ele habita, e o motivo do filme.

É curioso que este é o segundo desenho animado que tenho visto nestes últimos dias, em que as funções do bom e mau dos protagonistas são misturadas. O outro caso foi do “Megamente”. Será um novo paradigma que os estúdios de animação estão tentando passar para as crianças? O que faz algum sentido, afinal, não parece que a maioria dos seres humanos acorde pensando no que vai fazer de mal em cada dia, ou como vai fazer para se tornar um ditador mundial.

O filme traz muitas referências aos games. Provavelmente foi por isso que na sessão de cinema a que fui, havia muitos jovens que corresponderiam ao estereótipo de “nerd”, grupos de adolescentes ou homens jovens, com suas camisetas, bermudões e tênis, muitos com óculos. O filme gerou muitas risadas de referências que só iniciados, isto é, jogadores de vídeo game, podiam entender.

A cópia que vi foi em 3D. O 3D funcionou bem para esta animação, como parece funcionar bem em geral para animações. Acredito que em Imax fique ainda melhor, mas é só uma crença. Nunca assisti a uma sessão de cinema em Imax.

Um desenho animado bem divertido. Principalmente para quem costuma jogar vídeo games.



18/01/2013.