terça-feira, 30 de abril de 2013

Diário - leituras - Ascensão e Queda das Grandes Potências


Diário - leituras - Ascensão e Queda das Grandes Potências


Esse livro foi lançado no Brasil no final da década de 1980, e, se não estou enganado, ainda é uma obra de referência para os cursos de Relações Internacionais no Brasil. No final dos anos 1980 ainda não existia a Internet como a conhecemos hoje. A União Soviética ainda era uma realidade, embora talvez pudesse estar mudando. Foi nessa época que as palavras russas “glasnost” e “perestroica” se tornaram conhecidas por aqui. Mas mesmo com a possível reorganização da União Soviética, ainda parecia que a Guerra Fria iria durar por muito tempo.

O livro procura fazer um balanço dos principais impérios mundiais desde o século XV até o final do século XX, terminando justamente nas análises de Estados Unidos e União Soviética, o que, afinal, talvez tenha sido uma das razões do relativo sucesso de vendas que teve na época.

Como a análise é abrangente e sintética, e válida, o livro continua vendendo até os dias de hoje.

O autor explica sua metodologia. No século XVI, a China era um país mais rico que a Espanha ou a Inglaterra, contudo o princípio que o autor levou em consideração foi o desenvolvimento histórico que levou os países da Europa a se tornarem os países mais desenvolvidos ainda hoje, isto é, a partir do século XVI, na Europa começaram a crescer os rendimentos dos campos, a crescer a importância do comércio, a urbanização, e os governantes começaram a conseguir se financiar com parcelas menores dos rendimentos extraídos da população.  A partir desses critérios, ele levou em consideração os estados que mais se destacaram nesse contexto em que os países da Europa, e depois os Estados Unidos, acabariam por ultrapassar, por exemplo, a rica China do século XVI.

Dentro desse contexto, ele começa por analisar a Espanha do século XVI. No contexto do século XVI, a Espanha não era a Espanha que conhecemos hoje. Era um dos territórios de uma família real, a casa de Habsburg, ou os Habsburgos, que dominava o que então era a Espanha, na verdade os reinos de Castela e Aragão, mais os territórios dos Países Baixos, que abrangiam então tantos os atuais Países Baixos quanto a atual Bélgica, mais o sul da Itália, a Áustria e o Sacro Império Romano-Germânico. Fora da Europa, o governante de Castela era também o soberano da América Espanhola. Como se pode constatar um território extensíssimo.

O soberano que dominava sobre toda esta terra, era uma ameaça para os demais reinos europeus, e assim ele sofria o antagonismo do rei da França, ou do rei ou rainha inglesas. No contexto europeu, quem fosse o maior entre os europeus, seria o potencial maior do mundo.

É por isso que o autor não faz análise de Portugal no livro. Portugal tinha seu grande império colonial, com sua porção da América, isto é, o Brasil, mais territórios na África, e na Ásia. Mas não exercia influência importante sobre seus vizinhos europeus.

No decorrer dos séculos alguns países irão se suceder no papel de mais importante da Europa.

A segunda metade do século XVI marca o auge do poder espanhol, que começa então uma lenta decadência.

Os impérios que sucedem a Espanha são os Países Baixos, agora sim, já muito similar ao atual, e a Inglaterra, que são os países dominantes durante o século XVII. E a França vai sempre ter um papel importante desde o século XVI até a metade do século XX.

O século XVIII verá o crescimento da França, tanto com o rei Luís XIV, quanto após a Revolução, com as Guerras Napoleônicas.

A derrota de Napoleão e os tratados após aquelas guerras marcam a ascensão da Inglaterra, que durará por todo o século XIX, até o início do século XX.

Sendo que é ainda na primeira metade do século XX que os Estados Unidos se tornam o país mais industrializado do mundo.

O autor se preocupa sempre em mostrar como a economia é importante para a capacidade militar de cada país, e de como o progresso tecnológico vai mudando a caráter de cada guerra ao longo do tempo.

Assim, se no século XVI a Casa dos Habsburgos lutava na Europa Central para manter a unidade do catolicismo de então (e a Guerra dos Trinta Anos - 1618-1648 foi a última guerra de religião da Europa), e financiava boa parte de seus exércitos com a prata da América;  no início do século XIX, Napoleão pode mobilizar os agora cidadãos (e não mais súditos) franceses a “libertar” a Europa com exércitos maciços, enquanto financiava parcialmente suas campanhas militares com recursos dos países ocupados.

A Inglaterra pôde desfrutar do fato de ser a iniciadora da Revolução Industrial, e com isso vender seus produtos (fruto da industrialização) a todo mundo. Isso fortaleceu sua capacidade econômica, e, também militar. Sua marinha foi a maior do mundo durante a maior parte do século XIX. Durante esse século a Europa teve relativamente menos guerras que nos séculos anteriores, o que talvez ajude a explicar o tamanho desse predomínio.

O final do século XIX e o crescimento da tecnologia na área militar traz aos países o desafio do seu desenvolvimento social. O autor ilustra isso com os casos da Prússia e da Rússia de então. O exército prussiano se tornou mais poderoso à medida em que a alfabetização foi se universalizando na Prússia. O exército russo era maior mas menos efetivo pois seus recrutas ainda eram em grande parte analfabetos, incapazes de interagir com as novas tecnologias de guerra que foram surgindo naquele final de século.

A Itália da primeira metade do século XX falhou em suas guerras parcialmente pelo mesmo motivo: economia pouco industrializada e largamente voltada à atividade agrícola, e população em grande parte analfabeta.

No início do século XX os Estados Unidos já surgiam como a possível maior potência econômica do mundo, o que, segundo o autor, aconteceria já na década de 1920.

Por fim, o autor já via problemas no desenvolvimento econômico da União Soviética, que fatalmente levariam a problemas em sua capacidade militar, desde que a economia soviética praticamente estagnara desde os anos 1960.

Por fim, o livro mostra como os impérios ascendem e caem. E como essa queda, apesar de mais ou menos evidente, pode se estender por um longo período de tempo. É possível que o auge do poderio inglês tenha sido no final do reinado da Rainha Vitória, em 1901. A sua decadência começou aí e foi se estendeu pelo século XX. Foi mais sentida com os reveses durante as Grandes Guerras e com a Independência da Índia, em 1947. Em 1950 a Inglaterra era muito menos importante que em 1901, mas ainda era uma potência. Podemos dizer que hoje ainda é. Mas de 1901 a 1950 50 anos se passaram, e isso possivelmente era mais que a expectativa de vida de um inglês em 1950. Fazendo um paralelo com os nossos dias, pode ser que os Estados Unidos já tenham passado do momento de seu próprio apogeu. Mas ainda pode demorar muito tempo para que chegue a um tamanho relativo equivalente à Inglaterra de 1950, se é que algum dia isso acontecerá.

“Ascensão e Queda das Grandes Potências” é um bom livro. Aumenta o conhecimento de quem o lê, e faz pensar bastante.



KENNEDY, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências. Rio de Janeiro: Campus, 1989.


19/03/2013.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Arthur de Faria e Seu Conjunto na Livraria Cultura


Arthur de Faria e Seu Conjunto na Livraria Cultura


Porto Alegre é uma cidade que possui algumas opções de lazer.

Tem, por exemplo, os parques, como o Farroupilha, o Moinhos de Vento e o Marinha. As salas de cinema, que hoje se situam em sua maioria juntos aos shoppings da cidade. E há os espetáculos. Teatro e shows musicais.

No último dia 20, sábado, por exemplo, havia o show de Roberto Carlos na Arena OAS-Grêmio, e também o show do ator Carlos Villagrán, no bar Opinião.

Quem quisesse assistir um show "na faixa", como dizem alguns, poderia se deslocar ao auditório da Livraria Cultura, no Shopping Bourbon Country, onde Arthur de Faria e Seu Conjunto se apresentariam.

O show aconteceu, e a banda apresentou basicamente o mesmo repertório da apresentação realizada no Café Fom Fom dias antes. O show fazia parte das comemorações do "Record Store Day". O "Record Store Day" é celebrado no terceiro sábado de abril e é dedicado a se apreciar a arte da música.

E para quem gosta do estilo musical tocado por Arthur de Faria e Seu Conjunto valeu a pena. Quer dizer, normalmente vale a pena. Estiveram novamente em execução a versão subversiva de "Prenda Minha", o secular "Tango Brasileiro" do compositor portoalegrense Otávio Dutra, que parece um chorinho; a "Valsa para Karina", que Marcão Acosta teria composto para sua dentista, conforme propaga Arthur de Faria; e "Chama a Monga" mistura dos estilos "chamamé" e "milonga" (daí o nome estranho), entre outras do disco "Música para Ouvir Sentado".

Dito tudo isso, houve alguns episódios interessantes.

Diante do auditório com muitos lugares vagos no horário do início do show, por volta das 18 horas, alguns componentes do grupo foram à loja chamar o público. O que funcionou em parte.

Um show com entrada franca, em um empreendimento comercial, ainda que vinculado à educação e à cultura como é o caso de uma livraria, tem os seus prós e os seus contras. A favor, sem dúvida, um show musical desse gabarito é algo a ser apreciado, e estaria ao alcance de qualquer um que tivesse condições de chegar ao local. Contra é aquela questão de alguns não valorizarem o show, que afinal era gratuito mesmo, com o entra e sai durante a execução das músicas.

Mas como eu já havia dito, para quem gosta, valeu muito a pena. Um belo show.

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24/04/2013.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Diário - leituras - The Toycam Handbook


Diário - leituras - The Toycam Handbook

"The Toycam Handbook" é um livro que procura explicar o conceito de "toycam", ou "toy camera", isto é, "Câmera de brinquedo", quer dizer o uso de câmeras simples e baratas, que utilizam filme, a maioria feita de plástico, algumas mesmo com a lente de plástico, por parte de fotógrafos que poderiam estar usando câmeras com recursos profissionais. Esse tipo de uso atende uma função recreativa, mas pode endereçar também a fins artístico-estéticos. Afinal, como demonstra o "Instagram", até a fotografia digital pode enjoar da estética da fotografia digital.

Ele é resultado em grande parte de um fórum discussões na Internet chamado "Toy Camera". Obra colaborativa, vários participantes do antigo fórum colaboraram para a criação do livro.

O livro apresenta diversas câmeras "de brinquedo", entre as quais se destacam a Diana e a Holga. Mas há diversas outras, inclusive câmeras que foram distribuídas como brindes (há uma câmera chamada "Nickelodeon Photo Blaster" citada no livro).

O livro também dá dicas de modificações que podem ser feitas em algumas câmeras para alcançar diferentes efeitos nas imagens gravadas nos filmes.

Fala ainda de tipos de filmes, possibilidades de revelação e digitalização ("escaneamento") dos filmes. A propósito de filmes, de acordo com o livro, em alguns lugares ainda é possível encontrar alguns tipos de filme que não se encontra com facilidade no Brasil, e que eu imagino que em Porto Alegre já não se encontre faz tempo, como é o caso dos filmes do tipo 127 ou 620.

Um livrinho simpático. Quem gosta de fotografia talvez devesse lê-lo. Infelizmente só encontrei em inglês.



MOYER, Gary C. e BIAS, Dave. The Toycam Handbook. Ottawa: Light Leak Press, 2005.



05/04/2013.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O dia mais frio de 2013 até agora


O sítio do jornal Correio do Povo informa que esta sexta-feira foi o dia mais frio do ano até o momento no Rio Grande do Sul, com a mínima atingindo 0,7 ºC em São José dos Ausentes.
Em Porto Alegre certamente o amanhecer foi muito mais ameno. Tivemos um agradável dia de sol.


19/04/2013.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Arthur de Faria e Seu Conjunto no Café Fom Fom


Arthur de Faria e Seu Conjunto no Café Fom Fom



A gente faz duas pausas para respirar e quando vê já se passou uma semana desde aquele show a que assistimos, e sobre o qual gostaríamos de falar.

Pois na semana passada, 11 de abril, quinta-feira, fui assistir o show de Arthur de Faria e Seu Conjunto no Café Fom Fom, no que foi a primeira reapresentação desse conjunto em Porto Alegre depois de uma turnê mundial.

O conjunto musical “Arthur de Faria e Seu Conjunto” é formado por Arthur de Faria, como se poderia esperar, que toca piano e gaita (sanfona), mais Júlio Rizzo (trombone), Marcão Acosta (guitarra), Clóvis Boca Freire (baixo elétrico), Diego Silveira (bateria), Adolfo Almeida (fagote e flauta transversal) e Sérgio Karam (saxofone).

O Café Fom Fom, que fica na Vieira de Castro quase na esquina com a José Bonifácio, pertinho da Redenção estava lotado, para o show. O show começou pouco após às 21:30, e durou pouco mais de uma hora, com repertório baseado no disco “Música para Ouvir Sentado”, de música instrumental. O disco, compact disc, não vinil, inclusive estava sendo vendido no Café, ao preço promocional de R$ 10,00 , por conta do subsídio recebido haja visto o disco ser fruto de um projeto cultural patrocinado por uma empresa de produtos de higiene e beleza.

As músicas eram composições próprias do grupo, como “A Última Estrada da Praia”, “Chama Monga” (que tem este estranho nome por ser uma mistura dos gêneros musicais “chamamé” e “milonga”), “Valsa para Karina” e “Ciranda da Ajuda”, ou em domínio público, como “Tango Brasileiro”, feita pelo compositor portoalegrense Octavio Dutra, na década de 1910, cujo gênero é chamado de “tanguinho”, mas que parece um chorinho, e uma versão muito particular da tradicional “Prenda Minha”. No bis, o conjunto repetiu a execução de “Ciranda da Ajuda” a pedidos da plateia.

O tipo de música produzida pelo grupo, música instrumental, de gênero como milonga ou tango, não são de ampla aceitação pelo distinto público, mas são muito boas, assim como muito bom foi esse show.


As fotos que ilustram este texto foram prejudicadas pelo fato do fotógrafo não estar posicionado na primeira fila e pela iluminação restrita que impôs limites à câmera.


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.Arthur de Faria, Marcão e Luizinho (proprietário do Café Fom Fom, de costas) "no aquecimento" pré-show. 
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.Arthur e sua gaita durante o show
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17/04/2013.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Diário - filmes antigos - Guerra dos Mundos


Diário - filmes antigos - Guerra dos Mundos


Estes dias foi possível assistir ao velho, e de alguma maneira clássico, filme de ficção científica de 1953, “A Guerra dos Mundos” (“The War of the Worlds”).
É um filme interessante.
É impressionante que nesse filme, ambientado na sua maior parte na Califórnia onde cai um meteoro, que depois se descobre ser uma nave espacial alienígena, tenha uma população totalmente branca, tal como é mostrada no filme.
E também é curioso, que no caos mundial provocado pelo ataque dos marcianos, vários países sejam citados, mas não a União Soviética. Ou será que foi citada e eu não consegui perceber?
Pelo que pude me lembrar, a história parece bem diferente da refilmagem de 2005, de Spielberg com Tom Cruise. Aqui é um cientista nuclear, o Dr. Clayton Forrester, vivido pelo ator Gene Barry, que faz o papel principal. Não um trabalhador portuário tentando salvar sua família.
O filme “Independence Day” segue uma trajetória muito parecida com a deste filme. Se o roteirista não copiou, foi uma inspiração bem forte.
E o filme tem uma incomum visão religiosa. Além da mocinha, vivida pela atriz Ann Robinson, comentar no início do filme, que quando esteve perdida da família, se refugiou numa igreja, a solução do filme é feita por uma narração em off, onde “Deus” seria o responsável pela sobrevivência da humanidade. Que cada um veja e chegue às suas conclusões.
Vale como uma curiosidade, sobre os Estados Unidos na década de 1950.


08/03/2013.

Diário - leituras - Mata! O major Curió e as Guerrilhas do Araguaia


Diário - leituras - Mata! O major Curió e as Guerrilhas do Araguaia


Neste livro o jornalista Leonêncio Nossa desenvolve uma narrativa a respeito dos conflitos do sul do Pará, norte do antigo estado de Goiás, atual Tocantins.
Araguaia é um rio importante da região, e foi às suas margens que o o Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, tentou implantar um foco de guerrilha rural que durou de 1972 a 1975. Mas também foi ali que a polícia militar estadual disparou uma reação brutal contra os residentes da região após o fim da guerrilha comunista e da partida das tropas federais. Também próximo dali surgiu o garimpo de ouro de Serra Pelada, famoso no início da década de 1980. E não longe dali ocorreu o massacre de Eldorado de Carajás, quando dezenas de sem terra foram mortos pela polícia militar do Pará, já nos anos 1990, sob o governo FHC. Por isso o livro se fala em “guerrilhas”, assim no plural, embora quando se fale em guerrilha do Araguaia, a primeira associação que vem a mente é a da guerrilha comunista.
Como o título também indica o livro demonstra o papel importante que teve o militar Sebastião Curió de Moura Rodrigues nos confrontos na região. Nesse caso, o autor Leonêncio Nossa é devedor a Curió. Teve longas entrevistas com o oficial da reserva do Exército Brasileiro, e conseguiu ter acesso ao arquivo privado dele, Curió.
E o livro começa com relatos dessas aproximações. Relata ainda as raízes familiares de Curió, e sua formação.
Depois o relato passa para o PCdoB, fala da liderança de João Amazonas. Das aspirações de instalar uma guerrilha rural na Amazônia, para lutar contra a ditadura civil-militar que comandava o Brasil no início da década de 1970, e instalar uma república socialista, de molde stalinista no Brasil. Há o relato mais ou menos detalhado dos jovens idealistas, alguns apenas estudantes, outros recém-formados que foram estabelecer o foco guerrilheiro às margens do rio Araguaia, fronteira do norte do então estado de Goiás e sul do Pará.
Passa pela instalação da reação do governo militar brasileiro, com o envio de tropas federais que lutaram para desmantelar o foco guerrilheiro, como de fato conseguiram, com vários guerrilheiros mortos em confrontos. E os guerrilheiros que foram capturados foram sendo executados extra-judicialmente. São páginas e páginas de tentativas de reconstituição de conflitos, e de execuções. É durante o combate à guerrilha que Curió começa a se destacar. Durante o conflito, é promovido a major, título que o acompanharia na maior parte de sua vida, como oficial da ativa, e depois como civil e oficial da reserva.
Finalizada a guerrilha, as tropas federais deixam a região, e a polícia militar do estado do Pará vem reprimir os camponeses que haviam de alguma forma, mesmo involuntária, colaborado com a guerrilha.
Depois há a descoberta de ouro na serra do sul do estado do Pará, chamada de Serra Pelada. Curió, segundo o livro, acaba tendo cacife para disciplinar o garimpo, e evitar conflitos que poderiam estourar, fosse um levante de garimpeiros, fosse alguma tentativa da polícia militar de estabelecer a ordem à força.
Mesmo basicamente esgotada a mina de ouro em Serra Pelada, Curió ainda vai manter influência suficiente para se eleger, e reeleger, prefeito do município que acabou sendo batizado em sua honra, Curionópolis.  
Claro, isso tudo é um resumo muito curto de uma narrativa bastante detalhista, onde os perfis dos jovens idealistas que formaram a guerrilha comunista são traçados. Onde vários camponeses, posseiros e garimpeiros da região foram entrevistados. Onde outros oficiais, além de Curió também foram entrevistados. Muitos “off the records”, isto é, sem divulgar seus nomes e funções.
Depois de ter lido um livro em que um antigo agente da repressão confessava que era basicamente um assassino a serviço da repressão durante a ditadura, caso do ex-delegado Cláudio Guerra, no livro “Memórias de uma Guerra Suja”, eu imaginei que este seria um outro livro de um agente da repressão que resolve declarar sua participação em algum crime. Mas no livro Sebastião Curió nega que tenha praticado qualquer crime. Matou pessoas, guerrilheiros, e até assaltantes (uma outra história contada no livro), mas sempre em conflitos. Nunca executou qualquer prisioneiro. Segundo o livro ele também nunca testemunhou execuções de prisioneiros capturados pelas Forças Armadas.
O livro deixa ver todo um jogo de sombras a respeito da repressão à guerrilha comunista. Muitos dos colegas de Curió falam com o jornalista autor do livro, mas também o manipulam. Omitem informações. Dão outras informações falsas. Sendo que há um paradoxo mesmo para eles. Os soldados e oficiais que participaram da supressão da guerrilha no Araguaia fizeram o que o governo da época demandou deles. Contudo, vencida a guerrilha, pouca gente no país ficou sabendo de seus atos, pois havia a censura a respeito desse assunto. A “vitória” deles não podia ser contada ao país.
É um livro interessante, mas um pouco frustrante. Não há confissões bombásticas, como eu imaginei que fosse possível. Mas há bastante informação. E talvez ajude a explicar a violência que ainda hoje assola o sul do Pará, em seus conflitos por terra e justiça.


12/02/2013.


NOSSA, Leonêncio. Mata! O major Curió e as Guerrilhas do Araguaia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Diário - filmes atrasados - A Origem


Diário - filmes atrasados - A Origem


Depois de muito tempo, finalmente pude assistir ao filme “A Origem” (“The Inception”, produção estadunidense de 2010).
O filme narra a história de um homem que tem como tarefa algo como invadir sonhos das pessoas para roubar seus segredos enquanto elas estão dormindo, e, presumivelmente, mais fragilizadas para guardar estes mesmos segredos.
Tal atividade gera relações interessantes sobre sonho e realidade. Há uma cena no filme em que pessoas procuram um cientista para serem sedados, e ficarem sonhando por horas. Para estas pessoas, sonhar era a realidade, e a realidade era um pesadelo.
Por um lado, sonhar se torna um droga, um narcótico.
Por outro lado, faz lembrar o filme “Matrix”, onde as pessoas eram mantidas sonhando o tempo todo para que fosse extraída energia de seus corpos.
E é claro que roteiro e direção do filme brincam com essa dicotomia, sonho e realidade, ao longo do filme.
Contudo o filme me frustrou um pouco. Houve uma certa boa recepção na época do lançamento, mas não sei. Algo como simulacro demais. Ou seja, com tanta questão a respeito de sonho e realidade, ou talvez, mente e realidade. O fato de tanto questionamento entre mente e realidade quebrou um pouco da “magia” que os filmes causam. Algo como um “Matrix”, o filme, mais fraco.



19/03/2013.