quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Feliz 2015!


Desejo a todos os meus dois (ou três) leitores um abençoado ano da graça de 2015.
Saúde e prosperidade, como diz o clichê. Que mais podemos querer?


30/12/2014.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Diário - leituras - A Lenda do Santo Beberrão


Diário - leituras - A Lenda do Santo Beberrão



“A Lenda do Santo Beberrão” é uma pequena novela, cujo título é relativamente auto-explicativo. Seu autor é Joseph Roth, um judeu originário da antiga Áustria-Hungria.

A novela narra a história de um mendigo que vivia embriagado sob as pontes do Rio Sena, em Paris, e que num certo dia encontra um homem próspero que lhe oferece dinheiro. Dinheiro além de esmolas. O mendigo invoca sua honra pessoal para não aceitar tal valor vultoso. O ofertante informa que havia passado por uma experiência de conversão e que seria um prazer oferecer o dinheiro. Por fim, eles combinam que o valor seria devolvido através de uma oferta a uma santa em uma certa igreja de Paris.

A partir desse evento, o mendigo passa a ter uma melhora em seu estilo de vida. Contudo, cada vez que ele tenta devolver o dinheiro através da oferta à igreja, uma série de circunstâncias o impedem de consumar o ato.

É uma obra curiosa.

Tanto pode ser encarada como uma obra inspiradora e comovente para os crentes, quanto pode ser vista como um texto de humor sarcástico.

Eu achei ótimo.


ROTH, Joseph. A lenda do santo beberrão. São Paulo: Estação Liberdade, 2013.


10/04/2014.

Diário - cinema - Interestelar


Diário - cinema - Interestelar


“Interestelar” (“Interstellar”, Estados Unidos, 2014) é um filme de ficção científica que relata algo como uma crise ecológica no planeta Terra, e a busca por parte da humanidade de um novo lar, isto é, um novo planeta que a humanidade possa colonizar.

É um filme interessante por tentar aplicar à ficção da viagem interestelar as teorias da relatividade, impactando diretamente sobre as personagens na tela.

Não que isso dê muito sentido ao que é apresentado na tela. O que é exposto sobre os tais “buracos de minhoca”, isto é, portais dimensionais do universo, e o que pode acontecer dentro de um “buraco negro”, nem sempre bate com o que os livros de divulgação científica informam, mas aí vale a regra de sempre, “bem, é um filme de ficção afinal”.

Mas vale muito pelos dramas humanos expostos. O impacto que tem sobre alguém que viajou pelo universo, voltou e encontrou as pessoas que ele deixou na terra muito mais velhas, enquanto ele não envelheceu tanto assim.

Ou o exemplo de como o universo pode ser imenso e a humanidade quase nada.

Ou como a solidão pode levar seres humanos a medidas descontroladas.

O espaço é imenso e inóspito. Vimos isso recentemente no filme “Gravidade”. Vemos novamente isso nesse “Interestelar”.

Matthew McConaughey não está tão bem como em “Clube de Compras Dallas”, mas segura razoavelmente bem o seu papel, como Cooper, o homem que era um astronauta, que virou um fazendeiro, que queria ser um astronauta. E Anne Hathaway também segura bem como a Doutora Brand, sua companheira astronauta no espaço longínquo.

Um bom filme, onde, como foi dito, a ficção científica serviu para mostrar o drama humano.


27/12/2014.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Diário - leituras - Crônicas de Jerusalém


Diário - leituras - Crônicas de Jerusalém


“Crônicas de Jerusalém” é um relato que o canadense do Quebec, Guy Delisle, faz de sua estadia de um ano na Terra Santa, isto é, aquele lugar onde hoje está Israel, e onde muitos gostariam que estivesse também o Estado da Palestina. Delisle esteve lá acompanhando sua esposa, que trabalhou nesse ano junto aos Médicos Sem Fronteiras. Neste aspecto é mais um diário de viagem, com a peculiaridade do formato de novela gráfica (“graphic novel”, aqui estou eu de novo em busca da palavra adequada para estas histórias em quadrinhos mais complexas e sofisticadas).


O livro tem como peculiaridade a convivência com a neutralidade possível num cotidiano estranho, para dizer o mínimo, e tentar não fazer juízo de valor.


Quando Delisle, sua esposa e os dois filhos pequenos chegam à Terra Santa, eles são alojados pelo MSF, os Médicos Sem Fronteiras, em um bairro de Jerusalém Oriental, isto é, uma área que deveria pertencer à Palestina.


Na sua narrativa estão o enorme muro que Israel construiu, sob a alegação de segurança. A dificuldade criada pelos “checkpoints” onde o exército de Israel tolhe a liberdade de ir e vir dos palestinos na Cisjordânia. A convivência pouco amistosa com alguns judeus que não gostam de falar com gentios (gentios = não judeus). As restrições impostas por algumas interpretações mais restritas do islamismo à arte.


São tristes suas descrições das visitas que Delisle fez às cidades de Hebron e Nablus. O ambiente esgarçado, a falta de civilidade na convivência  de judeus e palestinos nessas cidades.


Esta obra de Delisle tem a peculiaridade de ser muito recente, a publicação original, em francês, é de 2011. Então, ela faz uma observação muito atual da vida em Israel e na Palestina.


Da observação de Delisle, me vem mais uma impressão que em breve, a esperança de existência de um Estado da Palestina deixará de existir, e Israel deixará de ser uma democracia. Esta é uma conclusão pessoal. Não está no livro.

02/03/2014.

DELISLE, Guy. Crônicas de Jerusalém. Campinas, SP: Zarabatana Books, 2012.

Diário - cinema - Drácula, A História Nunca Contada


Diário - cinema - Drácula, A História Nunca Contada


“Drácula, A História Nunca Contada” (“Dracula Untold”, Estados Unidos, 2014) é mais uma versão do nobre do leste da Europa, que para defender seu reino, acaba fazendo um pacto com as trevas, e se torna um vampiro.


O filme começa bem, apresentando Vlad como um nobre daquela região, normalmente associada à Transilvânia, ou à Valáquia, territórios que hoje fazem parte da Romênia. Ele foi tomado como refém pelos turcos na sua infância, e agora, que ele havia se tornado o líder de seu reino, os turcos novamente avançavam e requeriam dele mil meninos para serem criados como guerreiros para o exército do sultão, além de seu próprio filho como refém.


O filme resgata esses costumes medievais que de fato aconteceram. Vlad precisava pagar um tributo ao sultão anualmente. E a exigência dos reféns também existia.


E aparentemente fazia sentido fazer um pacto com as trevas para defender as pessoas que ele amava e sentia o dever de proteger. Esse é provavelmente o melhor do filme. No limite, o que você aceita fazer para proteger aqueles que você ama? Além disso, o filme mostra que muita coisa pode não sair como você esperava que fosse.


Seria um bom filme se no final o ritmo não fosse acelerado, com algumas soluções que pareceram tão indignas, e em desacordo com o início do filme.


Se fosse mantido o mesmo ritmo do início do filme até o final, seria um bom filme. O final acabou por deixar a desejar. Acaba como regular.

18/11/2014.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Feliz Natal em 2014!


Feliz Natal em 2014!



Feliz Natal é o meu desejo para todos os dois leitores que chegam aqui!
Lembrando, em meio a papais e mamães noeis e duendes, que no Natal se celebra o nascimento de Jesus, o Cristo, que veio salvar os homens dos seus pecados, como diz o Evangelho de Mateus (conforme Mateus 1:21).

Porto Alegre, 21 de dezembro de 2014.


Porto Alegre, 21 de dezembro de 2014.



Porto Alegre, 21 de dezembro de 2014.
O verão iniciou com muita chuva na cidade de Porto Alegre. E com temperaturas amenas.
O verão iniciou com muita chuva na cidade de Porto Alegre. Mas com temperaturas amenas.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Caminhando na Vila Cefer


Caminhando na Vila Cefer



No dia da votação do primeiro turno das eleições, eu me dirigi à Vila Cefer para votar. A minha seção fica na Escola Ibá Ilha Moreira, na Vila Cefer I.


E talvez eu esteja ficando velho, pois caminhar por ali, me trouxe uma série de recordações de anos anteriores, dos anos que eu lá morei.


Talvez seja sinal de que a gente vai ficando velho.


As Vilas Cefer, I e II, são antigos projetos de habitação popular, concebidos durante a ditadura. Centenas de casas de madeira, com banheiros de alvenaria, todas iguais. Foram inauguradas no final da década de 1960, como um condomínio fechado popular.


Posteriormente a ideia de condomínio foi abandonada, mas até hoje os logradouros são denominados em números. E por conta desta configuração de condomínio a numeração das casas costuma ser em sequência em ambos os lados das ruas, em lugar de uma calçada com números pares e a outra com números ímpares, como é comum. E se entra em ambas as vilas pela rua "Um". As vilas são morro acima. Assim chegar na rua Onze, ou Cinco, as mais altas, pode ser bem cansativo.


Há uma linha de ônibus que sobe entrando pela Rua Um da Vila Cefer II, passa rua Nove da mesma vila, e volta pela longa Rua Um da Vila Cefer I.


Quando minha família se mudou para lá, na metade da década de 1970, a Cefer parecia um lugar relativamente próspero, com várias famílias com crianças, algumas com seus volkswagens.


Quando criança, na minha turminha, nós achávamos que lugar sinistro devia ser a Vila Pinto, favela vizinha, encravada entre a Cefer II, a Vila Brasília e a Vila (Bairro?) Bom Jesus. Levou tempo para eu perceber que éramos pobres estigmatizando quem era ou parecia ser mais pobre que nós. E lembro que uma vez foi um choque quando fui jogar botão (futebol de mesa) na casa de um colega de turma, e percebi que a casa dele era uma casa na Vila Pinto, no limite entre esta e a Cefer 2. Não houve problema, Jogamos botão e nos divertimos naquela ocasião.


E uma das peculiaridades da Cefer II é ter logradouros que não são ruas, mas tem casas, chamados de acessos. Esses acessos permitem uma série de atalhos para pedestres, mas neles os carros não devem passar. Ou não deveriam. Muitos moradores construíram garagens nesses acessos, e obviamente os automóveis trafegam por ali para chegar nessas garagens.


Hoje em dia, a Cefer vive uma próspera decadência.


Muitos proprietários alteraram os projetos originais (inclusive minha irmã), transformando as antigas casinhas de madeira, em casa de alvenaria. Algumas destas transformações inclusive levaram à construção de sobrados com dois pisos.  


Umas poucas casas incendiaram ou ruíram. Uma das que ruíram foi a de meu colega da terceira série do antigo primeiro grau, o Sílvio. A casa ficava bem em frente à escola da Cefer II, a Escola Evaristo Gonçalves Neto. O curioso é que o Sílvio era um dos "riquinhos" da turma, aquele que mais aparecia com roupas e tênis novos, cuja roupa era sempre limpinha e engomadinha. Naquele tempo, faz mais de trinta anos, parecia que a casa do Sílvio estava sempre com uma mão de tinta nova. Hoje restam as ruínas daquela casa num terreno semi-baldio.


Na Rua Dois, da Cefer I, uma casa incendiada permitiu que a casa ao lado ficasse com um pátio bem maior do que é o padrão dos quintais da vila.


E há o beco que serve de caminho entre a Cefer I e a Cefer II. Só para pedestres. Uma ponta fica na rua 2 na Cefer I, e a outra na rua 8 da Cefer II.


E a gente fica pensando em quando era criança: "Huummm... aqui era a casa dos avós do Marquinhos (e provavelmente ambos já faleceram)."


"Um pouco mais adiante era a casa da família do Marquinhos. Será que alguém da família ainda mora lá? Acho que não."


"E aqui nesse beco está a casa que era dos pais do Pardal. Puxa, os novos proprietários fecharam a entrada da casa pelo beco!"


No centrinho comercial da Cefer I, um bar com grades substituía um minimercado, e a farmácia que havia ali fechou, dando lugar a um armazém.


Grafites e pixos adornam os muros e paredes. Quando não há isso, há os tijolos de seis furos à mostra, ou o reboco de cimento cru, ou o musgo que cresceu por cima...


As casinhas já não são todas iguais, nem de madeira. A Cefer vive uma próspera decadência.


E eu vou ficando velho...


22/10/2014.

sábado, 8 de novembro de 2014

Diário - cinema - Até que a Sbórnia nos Separe


Diário - cinema - Até que a Sbórnia nos Separe


"Até que a Sbórnia nos Separe" (Brasil, 2013) é um filme de animação baseado livremente no espetáculo "Tangos e Tragédias" que se apresentou por trinta verões no Teatro São Pedro, em Porto Alegre. O espetáculo só parou por conta da morte repentina do músico Nico Nicolaiewsky, levado por uma leucemia fulminante. Tem direção de Otto Guerra e Ennio Torresan Júnior.


O filme conta a história da Sbórnia, a ponta de uma península, ou como diz a narrativa do filme, uma ilha ligada ao continente sulamericano por um istmo, onde seus moradores vivem com seus hábitos peculiares: gostam de música, dormem pendurados pelos pés, torcem fanaticamente nos jogos de machadobol, e sorvem uma bebida feita com uma erva chamada bizuwin.


A ilha passará por muitas mudanças quando a grande muralha que a separa do continente ruir. O bizuwin se tornará objeto da cobiça do capitalista Gonçalo Delacroix. E Pletskaya se cairá de amores por Clocliquot, filha de Delacroix.


Destaque para os músicos Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, que na animação fazem seus papeis de Kraunus e Pletskaya.


A animação foi exibida em 3D, mas me parece que seria melhor para os espectadores que fosse em 2D mesmo. O 3D não melhora muito o filme, e aumenta o preço dos ingressos.


Para nós, porto-alegrenses, é um filme que invoca afetos. O machadobol é uma clara invocação do nosso Grenal. O bizuwin remete à nossa erva-mate. E, claro, temos a lembrança de Nico Nicolaiewsky, que se foi antes do quando pudéssemos esperar.


Por tudo isso, um filme que merece ser visto. Especialmente pelos porto-alegrenses.


03/11/2014.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Diário - cinema - Um Amor de Vizinha


Diário - cinema - Um Amor de Vizinha


"Um Amor de Vizinha" ("And So It Goes", Estados Unidos, 2014) é uma comédia dramática e romântica, sobre a terceira idade. Neste caso traz Michael Douglas como Oren Little, um corretor de imóveis viúvo e prestes a se aposentar. Ele tem um filho junkie, e vive amargurado, e vive implicando com os vizinhos do condomínio onde mora, e do qual, logo descobrimos, é proprietário. Entre esses vizinhos está Leah, vivida por Diane Keaton, uma viúva que atua como cantora em um bistrô local.


A carapaça de amargura de Oren começa a quebrar quando ele descobre que tem uma neta. O filho lhe faz esta surpresa, traz Sarah (Sterling Jerins, uma menina lindíssima, que me lembrou Jennifer Connelly, que, como sabemos, está atuando desde a adolescência), a neta para Oren, e informa que precisará passar uma temporada na prisão. Contrariado, Oren fica com a menina, mas Leah o ajudará nisso.


É um filme interessante por mostrar o protagonismo de personagens velhos, cheios das dores de viver. Basta lembrar que ambos os personagens principais são viúvos, como já foi dito. Há balanços: o que foi feito, o que deixou de ser feito. E há o presente. O que se vai fazer? O que ainda se pode fazer?


É um filme modesto, mas bom. Feito para quem já vai ao cinema há muito tempo, e ainda procura motivos para continuar indo.


03/11/2014.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

60º Feira do Livro de Porto Alegre inicia na próxima sexta, dia 31


A partir da próxima sexta-feira, dia 31 de outubro, se inicia a 60ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre.

Novamente os livros vão estar distribuídos em barracas na Praça da Alfândega. De novo dezenas de milhares de pessoas passarão por ali, à procura de alguma boa oferta, em busca de alguma conversa, ou para ver e ser visto. 

Esta edição vai até o dia 16 de novembro próximo.

De volta ao Forno Alegre


Para um dia de primavera, hoje a temperatura até que foi alta em Porto Alegre.

Segundo o saite que acompanho, o WunderGround, a temperatura na cidade chegou a 37ºC. Às 22h ainda estava por volta de 32ºC.

Quarta-feira, 29 de outubro de 2014. Um dia de primavera.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

"Sinistra esta quebrada aqui..."


"Sinistra esta quebrada aqui..."


Eu havia visitado a minha irmã, e iria voltar para casa. Minha irmã mora na Vila Cefer II, local onde passei o final de minha infância e minha adolescência.

Ela chamou um táxi, que chegou uns dez minutos depois.

Me despedi dela e embarquei no táxi.

O táxi tinha um adesivo do Aécio colado no painel, o que não gostei, porque não pretendo votar nele. Mas eu não estava a fim de discussão. Se o motorista não falasse no assunto - eleições, eu também não falaria.

Havíamos andado uns quinhentos metros quando o motorista comentou, assim como quem não quer nada, "sinistra esta quebrada aqui..."

Eu comentei que nem tanto, e que ali, por onde passávamos, a caminho da Avenida Antônio de Carvalho, as coisas até que eram tranquilas. Muito embora, de fato a quebrada por onde passávamos, em frente à escola Evaristo Gonçalves Neto, estava escura e deserta.

Então, quando, chegamos na Avenida, eu comentei que havia lugares onde os jornais registravam maior violência em Porto Alegre, como os bairros Mário Quintana, Rubem Berta, ou certas áreas da Restinga.

Por conta disso, o taxista resolveu contar uma de suas corridas, uma vez que levou passageiros, acho que do centro, para a mesma Restinga.

Foram dois passageiros. Ele não comentou sobre as feições dos rapazes, mas disse que eram jovens. Embarcaram e pediram para ir para a Restinga. Ele ficou desconfiado, mas já que os rapazes já estavam no táxi mesmo, seguiu para a Restinga. Logo na entrada da Restinga, os passageiros identificaram algumas pessoas, e pediram para ele parar imediatamente. Os rapazes saíram e disseram que voltariam. Cumprimentaram as pessoas que eles haviam identificado. Pelo papo, o taxista inferiu que os passageiros dele ou eram ex-presidiários, ou eram menores infratores que tinham passado algum tempo detidos. Ficaram alguns minutos conversando. O motorista teve tempo de desligar motor e faróis para aguardar (era noite). De fato, depois de alguns minutos os rapazes voltaram, agradeceram a paciência do motorista, e disseram qual era o destino final, uma candonga que eu não sei reproduzir. No final, lá chegando, o motora avaliou que o destino de seus passageiros era uma boca de fumo. Eles desceram, e um conhecido dos rapazes apareceu e pagou a corrida. Os rapazes agradeceram de novo pelo taxista ter esperado antes, e entregaram o dinheiro correspondente à corrida. 


Oitenta e cinco reais! O motorista disse que se sentiu aliviado. Mas por via das dúvidas, voltou para casa, e encerrou o trabalho daquele dia (ou daquela noite).

Depois contou algo sobre trabalhar à noite, e sobre pegar passageiras, mulheres, bêbadas. E como elas costumam ser mais chatas que os bêbados homens. Eu comentei com ele que normalmente se via mais homens bêbados que mulheres. Ele disse que era verdade, mas que, na experiência dele, elas enchiam mais o saco que eles. E contou de uma passageira uma vez, que entrou no táxi bêbada, e começou a fazer gracinhas com ele. Quando ele começou a fazer piadinhas com a bebedeira dela, ela se ofendeu, e começou a xingá-lo. Eu comentei, é, tudo depende do bêbum. Às vezes eles acham graça junto, às vezes eles se zangam. Nesse caso a mulher ficou tão zangada, que ele calou-se e não falou mais no restante da corrida. Ela até tentou voltar a quebrar o gelo, mas aí quem começou a xingar a passageira foi ele. Ele me contou isso rindo. Eu estava rindo junto.

Logo chegamos à minha casa. Destino final da corrida.

Paguei o homem.

Eu estava satisfeito. Ele falou tanto, eu comentei alguma coisa. Rimos juntos. E não havíamos falado em política.



22, 24/10/2014.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Diário - cinema - Garota Exemplar


Diário - cinema - Garota Exemplar



"Garota Exemplar" ("Gone Girl", Estados Unidos, 2014) é filme de suspense com Ben Affleck e Rosamund Pike, e dirigido por David Fincher.

Apesar de longo, 2h29min, é uma obra bem interessante.

Tudo começa quando Nick Dunne (Ben Affleck) vai até o bar que ele mantém em sociedade com a irmã Margo (Carrie Coon) numa cidadezinha no interior do Missouri, logo pela manhã. Ele comenta com a irmã que está se aproximando o quinto aniversário de casamento dele com Amy (Rosamund Pike), e de como o casamento vai mal.

Quando volta para casa, ele não encontra Amy, e encontra uma parte da sala da residência revirada.

Tudo indica que Amy foi sequestrada, ou talvez mesmo assassinada. E tudo fica pior quando, por uma série de motivos, Nick logo se torna suspeito.

A partir disso, a história de amor entre Nick e Amy vai sendo contada, e muitas revelações vão sendo feitas.

E muito mais do que isso não é possível contar, para não estragar o prazer de quem for ver o filme.

Como eu disse, apesar de longo, é um filme bem interessante.

Por fim, uma pequena discussão sobre títulos e traduções. "Gone Girl" seria mais literalmente "Garota Ida", o que não faz muito sentido em português, assim poderíamos alterar para "Garota que se foi", "Garota Desaparecida", "Garota Sumida". Talvez "Garota que se evaporou" fosse uma boa alternativa. Os tradutores preferiram seguir a senda da "Amazing Amy", esta sim, a "Garota Exemplar". A "Amazing Amy" é uma personagem calcada na Amy do filme (sim, temos metalinguagem aqui), onde os pais de Amy inventaram uma personagem infantil cheia de capacidades, boa aluna, bos esportista, amiga dos animais, enfim, uma garota realmente exemplar. Valeu, mas distorce um pouco do título.


20/10/2014.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Identidade (Miniconto)

Identidade



Angustiada com a identidade do pai, ela preferiu gastar as suadas economias num teste de DNA em vez de fazer aquela sonhada viagem ao Rio de Janeiro.



23/10/2014.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Diário - leituras - Retalhos


Diário - leituras - Retalhos


“Retalhos” é uma história em quadrinhos, ou como está ficando conhecida hoje, uma “graphic novel” (novela gráfica?) em que o autor, Craig Thompson, mistura suas lembranças de infância e adolescência.


Uma infância que pareceu a ele sofrida, numa casa não muito confortável, num distrito rural do Wisconsin. Um lugar muito frio, onde ele sofria bullying na escola, e frequentava uma igreja evangélica com a família.


Como parte da adolescência, ele narra os problemas que ele via entre os jovens e adolescentes supostamente cristãos da igreja. E fala de seu primeiro amor, por Raina. Raina que lhe dá uma colcha de retalhos de presente. Eis aí a referência mais direta aos retalhos  do título do livro.


É um livro bastante triste.


Não é que a infância e a adolescência de Craig Thompson fossem mais tristes que a média das infâncias e adolescências de todo mundo, mas a sensibilidade de Craig Thompson e a sua maneira de contar essas reminiscências tornam tudo mais triste.


A história vale muito como o testemunho de uma pessoa que cresceu no meio-oeste norte-americano, isto é, Wisconsin, durante a década de 1980 e início dos anos 1990. Não é que um artista gráfico como Thompson seja “a média” das pessoas de Wisconsin, mas até que ele se tornasse um artista gráfico relativamente reconhecido, ele foi uma criança e um adolescente como os outros, com a peculiaridade que ele gostava de desenhar como terapia para os problemas que enfrentava.


Foi bom ter lido.

THOMPSON, Craig. Retalhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

02/03/2014.

domingo, 12 de outubro de 2014

Jesus é Sanidade

Jesus é Sanidade 


Jesus é Sanidade 
"Deixo-vos a minha paz, a minha paz vos dou" - disse Ele. 
“No mundo tereis aflições” 
Porque, sim, 
No mundo encontramos aflições. 
No mundo as contradições, a violência e a morte. 
Mesmo que na maior parte do tempo nos consideremos felizes ou conformados.


10/10/2014.

Consequências da Traição (Miniconto)


Julgou que o amante a estava traindo, e meteu-lhe um pé na bunda.

10/04/2014.

Gracias a Marcelo Spalding, Augusto Monterroso e seus contos curtos, e à revista piauí.

sábado, 4 de outubro de 2014

Diário - cinema - Sin City, A Dama Fatal


Diário - cinema - Sin City, A Dama Fatal


Este "Sin City, A Dama Fatal" ("Sin City: A Dame to Kill For", Estados Unidos, 2014) é uma nova adaptação dos quadrinhos, ou "graphic novels", de Frank Miller, da série "Sin City".
Retoma um pouco do mesmo universo da adaptação de 2005.

Aí está novamente a atriz Jessica Alba, como Nancy Callahan, a stripper da boate Kadie's Club, lamentando a morte de seu protetor, o policial John Hartigan (Bruce Willis) e pensando em vingança. E Marv (Mickey Rourke), um sociopata sempre em busca de confusão.

A novidade neste filme é Eva Green, como Ava, a tal dama fatal do título. E como costuma acontecer nos filmes que tenho visto em que Eva Green atua, ela acaba por ofuscar todo o resto do elenco, inclusive o excelente Josh Brolin que contracena com ela, a maior parte do filme.

É um filme que mistura os velhos filmes "noir" (filmes de suspense dramático, filmados na década de 1940, em preto e branco, sempre em cenas noturnas, com assassinos hipócritas, mulheres fatais, e policiais durões) com disneylândia. Alguém pode objetar que não há disneylândia, pois ninguém levaria crianças para ver um filme como este, com muita sensualidade e violência extrema, mas seria disneylândia para crianças com mais de dezoito anos, que podem achar divertidas algumas cenas de ação do filme, que ficariam melhor numa animação de aventura, ou num videogame, como no caso de uma perseguição automobilística, ou o ataque de uma assassina ninja.

São cinco, ou quatro, histórias que se sobrepõem, para gerar um longa metragem.

Começando por Marv, a procura de alguma confusão para se divertir. Passando por Johnny(Joseph Gordon-Levitt), desafiando o corrupto e todo poderoso senador Roark (Powers Boothe) numa mesa de pôquer, e aguentando as consequências. Chegando a Ava (Eva Green), a mulher que seduz todos os homens para conseguir o que quer. E por fim, Nancy (Jessica Alba), pensando em vingança. Todos em volta da Kadie's Club.

O uso do preto e branco, e da seletividade de cores quando elas aparecem, causam um impacto legal. Além disso, a fotografia do filme de fato remete para os quadrinhos de Frank Miller.

O filme empilha clichês, mas é bastante divertido.



02/10/2014.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Leituras na Piauí - Agosto de 2014 - "Onze Ideias que deram em nada"


Leituras na Piauí - Agosto de 2014 - "Onze Ideias que deram em nada"




A edição de agosto de 2014 da revista Piauí, número 95, contém alguns textos bastante interessantes, mais ou menos como é comum, e como é a proposta da revista.

Destaques para as abordagens sobre a Copa do Mundo realizada no pais, tanto o fracasso futebolístico, em texto de Nuno Ramos, quanto nas manifestações contra a Copa, relatadas por Ciro Oiticica.

Eu gostei em especial do texto de Reinaldo Moraes, "Último telefonema para o cronópio", onde ele relata sua admiração juvenil pelo escritor argentino Júlio Cortázar, analisa parte da obra do argentino, e conta inclusive um encontro entre os dois. Tudo isso por conta centenário de Cortzar neste agosto de 2014. Foi o primeiro artigo que li na revista, e inclusive pensei em resumir para publicar aqui. Mas na verdade seria difícil fazer uma publicação digna dentro do mês, como seria o caso, para o aniversário do argentino. O texto de Reinaldo Moraes é divertido e, um pouco, emula as narrativas de seu ídolo de juventude. Mais vale ler o próprio texto de Reinaldo Moraes, que um resumo que eu produzisse.

Mas achei surpreendente o texto, ou os textos, de Antonia Pellegrino, "Onze Ideias que deram em nada".


Como diz, são “onze ideias que deram em nada”. Então, temos um texto com onze subtítulos, cada um com uma ideia, com tamanhos variáveis, falando de coisas que não deram certo. Começando por uma estranha “ideia de desejo”, passando por uma “ideia de ressentimento”, onde a autora faz a contabilização de um caso de amor que não deu certo.


Fala sobre a “ideia de ir aos índios”, e de como essa ideia acabou por falhar. Avalia a memória, e tentar resgatar a “ideia de memória”. Não vou citar todas essas ideias que deram em nada.


Vou destacar apenas mais a “ideia de um lago com carpas”, onde em quatorze parágrafos a autora relata o empreendimento de construir um lago para povoá-lo com carpas no quintal de casa, esse sonho de inspiração japonesa. Todo o investimento no sonho, os gastos com engenheiros e empreiteiros. As frustrações e os imprevistos.


Por fim, vou citar a “ideia de catecismo”, segundo Antonia Pellegrino. Em uma frase, como ela fez: “Rezava para dormir, hoje se masturba”. Desconcertante.


Como eu disse, o texto mais surpreendente desta edição de revista Piauí.


24/09/2014.

Diário - filmes antigos - Peixe Grande


Diário - filmes antigos - Peixe Grande


Ganhei de presente o o DVD contendo o filme "Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas" ("Big Fish", Estados Unidos, 2003). Um filme de Tim Burton, estrelado por Ewan McGregor, Albert Finney e Billy Crudrup, que ainda tem Jessica Lange, Helena Bonham Carter e Marion Cotillard como coadjuvantes de luxo.


É uma comédia dramática onde o filho, Will Bloom (Billy Crudrup) tenta entender seu pai (Ed Bloom, vivido por Ewan McGregor na juventude, e Albert Finney na maturidade) que ele sempre viu como um mitômano, inventando histórias fantásticas sobre o que viveu. Boa parte destas histórias são encenadas tal qual Ed Bloom as conta.


Sendo um filme de Tim Burton, há toda uma série de bizarrices (ou seriam eventos fantásticos?) no filme. Uma bruxa com olho de vidro, um gigante, uma trupe circense, irmãs gêmeas coreanas, e uma cidade chamada Spectre que Ed Bloom encontra após cruzar uma estrada cheia de desafios.


Um filme razoável, sobre relacionamento entre pai e filho, num momento extremo. Mais tocante ainda quando somos informados que foi produzido não muito tempo após o próprio Tim Burton perder seu pai.

17/09/2014.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Brucutu


O Brucutu



Periodicamente eu tenho que ir ao laboratório de análises clínicas recolher material para exames. As delícias de envelhecer.

Pois nesta terça fui novamente ao laboratório que o plano de saúde permite. Já faz algum tempo que faço esses exames rotineiros ali.

É sempre o mesmo procedimento básico: jejum de doze horas e se vai ao laboratório. Ali, no balcão, se encaminha a requisição de exames. A atendente encaminha o pedido de exames, confirma endereço e telefone, pergunta quais remédios estão sendo tomados no momento. E como se vai fazer o exame um pouco antes do trabalho, se pede o atestado de comparecimento ao laboratório. O atestado é fornecido após o recolhimento do material para os exames, aqueles nossos fluidos e excreções de sempre.

Recolhido o material, volto à recepção para o pedido do atestado. É ali que o encontro. O Brucutu!

O homem, por volta dos seus, talvez, trinta anos, estava junto ao balcão, onde eu deveria  pedir o atestado. Vestia uma calça jeans, com os fundilhos caídos, quase mostrando o sulco entre as nádegas, vulgo "cofrinho'. Camisa jeans para fora das calças. Óculos de aros de metal. Cabelo padrão para homens brancos morenos. Forte. Deveria parecer um homem. Parecia um pós-adolescente.

Aparentemente estava marcando um exame.

Havia pegado uns biscoitinhos fornecidos aos clientes pelo laboratório. e os mastigava.

Falava com a boca cheia enquanto ia fornecendo as informações solicitadas pela atendente. "Endereço?" - "Rua Tal, número 456, chomp, chomp, chomp, ..." - "Telefone residencial?" - "Não tem, chomp chomp, ..."

Ele me olhou. Eu estava atrás dele, acho que um metro e meio atrás. Talvez tenha ficado inquieto com a minha presença. Resolveu ficar de lado para o balcão, e, consequentemente, de lado para mim. Continuava mastigando...

A atendente passou a dar instruções: "Jejum de doze horas..." . "A urina deve recolhida após um período de duas horas sem ir ao banheiro, ou ser a primeira da manhã". "Duas horas?" - o homem levantou a voz. Quase gritou. "Isso. Ou a primeira urina da manhã." - a atendente disse. "Vou recolher a primeira urina da manhã. Vocês tem embalagem?" - ele perguntou. A atendente alcançou para ele uma embalagem envolta em um saco plástico.

Sabe-se lá por quê razão, ele se meteu a dar palpites sobre cursos superiores para a atendente. "Direito ou Medicina. Direito, Administração ou Medicina, mas Direito e Medicina são melhores. Farmácia também, mas Farmácia é mais difícil. É o que dá para ganhar mais dinheiro. Se candidatar em mais concursos." - propunha ele. Banal e eficaz. Só a falta de dinheiro causa mais ansiedade que ficar falando em dinheiro. Acho que só a vontade de se mostrar, faz você falar esse tipo de coisa para uma pessoa do sexo oposto que você vê pela primeira vez na vida. Uma pessoa que, a princípio, é obrigada a lhe ouvir.

"Quanto vai custar?" - ele perguntou. "Quarenta e um reais, faixa A5 do seu plano." - a atendente respondeu. "Ok." - o Brucutu disse, enquanto pegava a embalagem do exame de urina e se dirigia à saída.

Mas algo o fez voltar: "Vocês tem banheiro aqui?". "Nessa porta, no fundo do corredor." a atendente disse.

Ele atravessou a porta, e depois a porta do banheiro, fazendo barulho.

Eu finalmente pude pedir meu atestado, rapidamente fornecido.

Eu agradeci e fui embora.

Para longe dali. Para longe do Brucutu. Aliviado...



23/09/2014.