segunda-feira, 10 de março de 2014

Max e os Felinos e As Aventuras de Pi - um comentário conjunto


Max e os Felinos e As Aventuras de Pi - um comentário conjunto




Não sei se ainda há algo a ser dito sobre a questão das obras “Max e os Felinos”, do brasileiro Moacyr Scliar, e “As Aventuras de Pi”, do canadense Yann Martel.


Depois da pŕopria narrativa de Moacyr Scliar sobre o incidente, e da reportagem do The New York Times sobre o assunto, ainda pude ler um texto de Carla Ceres, onde ela comenta o livro de Martel e cita o incidente, além de demonstrar que, se houve plágio da ideia de Scliar, por parte de Martel, o autor canadense não plagiou apenas a Moacyr Scliar, mas também Edgar Allan Poe e Herman Melville. Ceres ainda fala na Bíblia e no Bhagavad Gita.


A Biblia: um navio cheio de animais cruzando o Atlântico, no caso de Scliar, ou um navio cheio de animais cruzando o Índico e o Pacífico no caso de Martel, sempre terão como base de referência a Arca de Noé. Ou Utnapshtim antes, na Epopeia de Gilgamesh. É complicada a questão do que é original ou plágio em obras de arte.


Atenção, este é um texto com comentários às obras citadas, que, eventualmente, podem diminuir seu prazer de ler as referidas obras.


Tanto na obra de Scliar, quanto na de Martel, um jovem náufrago se vê sozinho em um barco salva-vidas, junto com um grande felino. Um jaguar na obra do brasileiro, um tigre na obra do canadense. O brasileiro escreveu primeiro. O canadense depois. Este admite que copiou a imagem, embora negue ter lido o livro do brasileiro, tendo sabido da história através de uma resenha. Supostamente a resenha teria sido escrita pelo escritor estadunidense John Updike, para o The New York Times, ou para o New York Times Review of Books, mas ficou constatado que Updike não escreveu a respeito, nem foram encontradas resenhas em uma ou outra publicação. Sobre isso fica a dúvida: onde Yann Martel leu a respeito? Contra o canadense ainda paira uma aura de arrogância por uma suposta citação dizendo que “era uma boa ideia estragada por um escritor menor”. Em todo caso, Martel cita no início da obra uma certa “centelha da vida” devida a Scliar.


Em todo caso, “Max e os Felinos” e “As Aventuras de Pi” acabam por ser obras muito diferentes apesar do grande felino no barco em ambas.


“Max e os Felinos” é uma novela em três capítulos, em que o protagonista, Max Schmidt, crescendo, tem que enfrentar seus medos, e as ameaças ao seu redor. São três capítulos, e em cada capítulo “reina” por assim dizer um grande felino, um tigre, na sua infância e juventude na Alemanha, o jaguar no naufrágio em sua fuga do nazismo para o Brasil, e uma onça a rondar sua propriedade na serra gaúcha uma vez já estabelecido no Brasil.


O jaguar no escaler é uma figura interessante, mas me pareceu bastante acessório na obra de Scliar. Além disso, pode com muito mais facilidade ser descartado como um delírio de Max, uma vez que Max é resgatado em alto mar, na costa do Brasil por um navio, e a tripulação nega que houvesse algum jaguar a bordo, quando Max acorda.


Já “As Aventuras de Pi” é um romance razoavelmente longo, em que a personagem Pi, o tigre, chamado de Richard Parker, e o barco salva-vidas tem um papel fundamental. A vida de Pi em Pondcherry, na Índia, e sua vida no Canadá, são como prólogos e epílogos de uma obra que central mesmo é a sobrevivẽncia no mar em condições bastante adversas.


O menino Piscine Patel desenvolve uma religiosidade peculiar, em que acaba se tornando tanto hindu, quanto cristão, quanto muçulmano. Em determinado momento ele é confrontado pelos líderes das três religiões, que o viam como um bom crente, tanto hindu, quanto cristão, quanto muçulmano. Tudo isso porque ele frequentava os templos dessas religiões. É a fina ironia de Martel: para ser considerado um bom crente, basta frequentar as reuniões da religião que se segue.


Essa questão religiosa está colocada tanto no livro, quanto no filme “As Aventuras de Pi”. O filme é uma sequência grandiosa de imagens, que podem reforçar ideias religiosas, como foi o meu caso. No caso do filme, as desventuras no mar podem ser vistas como uma grande luta de um crente com o seu Deus, porque, afinal, a fé não está desprovida de dúvidas e vacilações, porque as dúvidas e vacilações fazem parte dos seres humanos que professam a fé.


Já o livro é mais irônico a respeito da fé. Como hindu, Pi Patel tinha como princípio ser vegetariano. Mas diante da adversidade em alto mar, ele acaba por renunciar a este princípio em nome da sobrevivência. Ou seja, melhor renunciar, mesmo que temporariamente, a nossos princípios religiosos para viver esta vida, que manter-se fiel à fé, e, consequentemente, partir para a outra vida com Deus, após a morte, parece ser a ironia de Martel. Pois com a escassez de mantimentos e o agravamento da fome, Pi Patel só pensa em como aliviar a fome, só vive para isso. Qualquer peixe, ou tartaruga, ou ave, que lhe caia as mãos logo se torna uma vítima para seu estômago, e para o do tigre que coabita com ele o bote.


E no caso de da obra de Martel. talvez o tigre não possa ser tão facilmente descartado quanto o jaguar na obra de Scliar. Mesmo que seja difícil acreditar que quatro animais, uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre, escapem de um naufrágio junto com um humano. E mesmo que o autor ofereça uma interpretação humana para os animais no barco salva-vidas: a zebra é um marinheiro filipino do navio, a hiena o cozinheiro do navio, o orangotango a mãe de Pi, e o tigre o próprio Pi. Mesmo com tudo isso, o rapaz e o tigre juntos no barco ainda parecem algo verossímil. Ou talvez seja outra ironia do autor com a fé e com Deus. No caso de serem uma hiena, uma zebra, um orangotango e um tigre parece melhor que o caso de seres humanos matando e devorando uns aos outros. Talvez acreditar em Deus torne melhor viver em um mundo violento como o que nós vivemos. Ou não. Mas na obra isso pode ficar em aberto, afinal é uma obra de ficção.


De qualquer maneira, de volta à civilização e à segurança e estabilidade que esta proporciona, Pi Patel pôde voltar a professar com fervor sua singular religiosidade, e constituir família no final da história. Ele que havia perdido o pai, a mãe e o irmão no naufrágio.


Ao final deste texto, vejo que falei muito mais de “As Aventuras de Pi” que de “Max e os Felinos”. Faz sentido. O livro de Scliar é bem menor que o de Martel. Menor em volume de páginas, que fique claro. Além disso a obra de Martel teve a adaptação para o cinema, coisa que também acabei por comentar, mesmo que levemente.


Foi então plágio o que Martel fez? Depende. Certamente, como Martel mesmo admitiu ele copiou essa imagem de um grande felino num barco com um homem sobrevivendo a naufrágio. Mas são obras tão diferentes que é difícil falar em plágio puro e simples. Martel copiou uma ideia, mas criou uma outra história.


Ambas as histórias são boas. Mas se eu tivesse que dar um veredito, eu diria que a de Martel é um pouco melhor.




02/11/2013.


Diário - leituras - Max e os Felinos


Diário - leituras - Max e os Felinos


Li o livro "Max e os felinos" de Moacyr Scliar.

Trata-se de uma novela em três capítulos, que tem por protagonista Max Schmidt. No primeiro fala de sua infância, adolescência e juventude em Berlim, no segundo de sua viagem para o Brasil fugindo de uma perseguição nazista, no terceiro fala de sua vida no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e na serra na região de Caxias do Sul. Cada um desses capítulos vêm sob a égide de um felino, que pode ser tanto um demônio interior, quanto uma opressão que venha do exterior. Claro os significados hão de mudar, tanto quanto haja experiências de leitores que possam projetar-se dentro da história.

O volume ainda incorpora a reflexão de Moacyr Scliar sobre a polêmica por conta de uma certa inspiração (na melhor hipótese) ou plágio (na pior hipótese) do escritor canadense Yann Martel ter usado a história do Scliar, na verdade o capítulo 2 desta novela, para escrever seu livro "A Vida de Pi" ("Life of Pi").

O livro contém ainda um artigo da professora Zilá Bernd, onde ela tenta estabelecer os significados e os paralelos entre as obras de Scliar e Martel.

Dito tudo isso, certamente mudei eu, e mudou Moacyr Scliar. "Max e os felinos" certamente não me encantou como as obras de Scliar que li na minha adolescência e juventude. Estas foram "A guerra no Bom Fim", "Os deuses de Raquel" e "O ciclo das águas". Talvez fosse um bom teste, ler novamente uma dessas obras para conferir o que eu acho delas atualmente.

Não que “Max e os felinos” seja ruim. Apenas me parece que já li obras melhores de Moacyr Scliar.



SCLIAR, Moacyr. Max e os felinos. Porto Alegre: L&PM, 2009.



05/04/2013.


Diário - leituras - As Aventuras de Pi


Diário - leituras - As Aventuras de Pi


Depois de ter visto o filme "As Aventuras de Pi", versão do diretor Ang Lee, para o livro homônimo, e também motivado pela polêmica entre o livro de Yann Martel e o livro "Max e os Felinos", de Moacir Sclyar, resolvi ler o livro que deu origem ao filme.

Livros e filmes são obras diferentes, mesmo que uma se baseie na outra. O filme "O Nome da Rosa" conta uma história um pouco diferente da narrada por Umberto Eco no romance homônimo. E o filme Parque dos Dinossauros é bem diferente do livro de mesmo nome, escrito por Michael Crichton, mesmo com Crichton trabalhando como roteirista para o filme. Talvez principalmente por isso.

Assim, o livro de Yann Martel é um pouco diferente do filme de Ang Lee. Só um pouco.

O livro pode aprofundar detalhes da religiosidade singular de Piscine Patel, com detalhes não possíveis no filme. E o livro conta mais coisas. Sem contar nos enfoques diferentes.

Se o filme é um conjunto de imagens grandiloquentes e maravilhosas, e uma obra que pode parecer comovente para crentes, o livro é mais sombrio, mais questionador. Ou talvez não, e a questão acabe se colocando pelo esforço devido à cada uma das atividades, isto é, leva-se cerca de duas horas para ver um filme, e, no meu caso, alguns dias para ler um livro. Como a leitura é feita com pausas, é possível refletir e questionar mais o que é apresentado no livro.

De qualquer maneira ambos, o filme e o livro, contam a história de um rapaz que sobrevive ao naufrágio de uma navio cargueiro no Pacífico, e precisa passar muitos dias num bote junto com um tigre. Mas há diferenças na maneira como essa história é contada.

O título que as obras receberam em português é interessante. A obra original de Yann Martel se chama "Life of Pi", "Vida de Pi", e se não estou enganado, esse é literalmente o título em português nas primeiras edições brasileiras. Virou "As Aventuras de Pi", uma liberdade que não tira o sentido da obra. Mas pelo conteúdo poderia tranquilamente ser também "As Desventuras de Pi", levando em consideração que a personagem Pi Patel não escolheu passar pelos eventos pelos quais passou, ele foi levado por circunstâncias que lhe causaram bastante sofrimento.

O livro é bom, e a leitura flui, embora tenha havido um ou outro momento em que a narrativa gerou um certo cansaço. Mas, enfim, foi bom ter lido.


MARTEL, Yann. As Aventuras de Pi. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. Tradução de Maria Helena Rouanet, para "Life of Pi".



30/04/2013.

Diário - leituras - À margem da linha


Diário - leituras - À margem da linha


“À margem da linha" é uma  novela que conta a história de dois irmãos que fogem de casa à procura do pai, que abandonara a familia tempos antes. A história é narrada pelo irmão mais jovem, que, podemos pensar, está vivendo o final da infância e o início da adolescência. O tempo é indefinido, mas é um tempo em que trens são um meio de transporte importante para os subúrbios-periferias, e também um tempo em que era normal crianças vagarem de pés descalços, mesmo quando estivesse frio. O período de tempo que dura a história também é indefinido, podemos pensar em semanas ou em meses em que esses dois meninos vagam seguindo a estrada de ferro em busca de alguma localidade onde esteja vivendo o pai deles.


É uma história triste, que na verdade trata das descobertas e do amadurecimento desse irmão mais jovem que vai narrando a história, contando suas desventuras e lembrando a vida difícil que tinha a família muito pobre.

E é uma novela que se lê rapidamente. São 110 páginas que em outra editoração poderiam ficar em umas 60 ou 70.

Mas é uma boa história. Valeu a pena lê-la.



RODRIGUES, Paulo. À margem da linha. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2001.


24/07/2013.

sábado, 8 de março de 2014

Luiz Gama e a Escravidão Brasileira


Luiz Gama e a Escravidão Brasileira



Por conta do relativo sucesso do filme “12 Anos de Escravidão”, a Folha de São Paulo publicou textos neste sábado, 08/03, lembrando o brasileiro Luiz Gama.


Nascido em 1830, na Bahia, e livre, Luiz Gama teria sido vendido pelo próprio pai no mercado de escravos em São Paulo.


Tendo aprendido a ler com um hóspede de seu senhor, conseguiu os papéis que comprovariam a sua liberdade, se tornou um militante do abolicionismo, inclusive atuando em processos junto à justiça da época, apesar de não ter sido formado em Direito.


O filme, levantando a questão se tais coisas teriam acontecido também no Brasil (sim, provavelmente aconteceram e em maior escala. Vieram muitos mais cativos para o Brasil, que foram para o sul dos Estados Unidos), trouxe à tona o nome do brasileiro, cujo conhecimento estava restrito aos pesquisadores de história do direito e de história da escravidão no Brasil.


São pequenos textos que relembram um pouco de Luiz Gama.



08/03/2014.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Diário - cinema - Clube de Compras Dallas


Diário - cinema - Clube de Compras Dallas



De repente, um caubói do Texas, daqueles de frequentar rodeios, descobre que é portador do vírus do HIV. Após um colapso, seus exames demonstram que o nível de células T (células do sistema imunológico) no sangue está muito abaixo do nível de uma pessoa sem o vírus. O ano é 1985. Assim começa o filme “Clube de Compras Dallas” (“Dallas Buyers Club”, Estados Unidos, 2013).
Este drama, mais um baseado em fatos reais, mostra como alguém contaminado com a doença era imediatamente estigmatizado, e associado à homossexualidade masculina. E o protagonista logo descobre isso.


E mostra sua luta para tentar se manter vivo, uma vez que o diagnóstico no início do filme, prevê que ele venha a viver apenas mais 30 dias.


A atuação de Matthew McConaughey, como Ron Woodroof, protagonista da história, foi de fato, digna do Oscar, que ele ganhou como melhor ator. Os 20 quilos que dizem que ele perdeu para o papel dão a ele um ar de meio acabado e doente mesmo. O mesmo vale para Jared Leto, como a transsexual Rayon.


Um bom filme. Para adultos.



04/03/2014.

Diário - cinema - 12 Anos de Escravidão


Diário - cinema - 12 Anos de Escravidão



“12 Anos de Escravidão” (“12 Years a Slave”, Estados Unidos, 2013) é um filme sobre um homem negro livre do norte dos Estados Unidos, que é raptado e tornado escravo no sul escravista. O filme é baseado em livro autobiográfico de Solomon Northup, publicado no século XIX.


No caso Solomon era um homem negro e livre. Trabalhava como marceneiro e violinista. Segundo o filme, o ano de seu rapto foi 1841.


O filme é um retrato cru do escravismo, com seus espancamentos, chibatadas e estupros.


Além disso, mostra como o escravismo era uma ameaça mesmo para os cidadãos livres, que vivessem fora dos estados onde a escravidão era praticada. Aparentemente as autoridades do norte fizeram pouco ou nada para evitar o rapto. Um negro tinha um status menor que um branco mesmo nos estados industrializados e sem escravidão do norte.


Neste domingo, o filme recebeu o Oscar, como melhor filme de 2013. Apesar disso, parece que o filme não fez boa bilheteria nos Estados Unidos.


O filme é bom, mas não é uma obra confortável de se assistir.



04/03/2014.

terça-feira, 4 de março de 2014

31 de dezembro de 2012


31 de dezembro de 2012



No último dia de 2012, Rudolph saiu de seu apartamento próximo da Avenida Assis Brasil no zona norte de Porto Alegre, disposto a fotografar.


Desde a popularização da fotografia digital no início do século XXI, ele incrementou seu gosto por fotografar. E já fazia alguns anos que ele costumava fotografar no último dia do ano. Para acrescentar certa excentricidade ao novo costume, nesse dia ele fotografava com película em lugar das muito mais populares, fáceis e baratas câmera digitais. Em anos anteriores, para aumentar a excentricidade costumava fotografar com película de uma espécie chamada APS. APS significa “Advanced Photo System”, um sistema que usava um filme um pouco menor que os triviais filmes 135, que pretendia facilitar a vida de quem fotografava com filme. Bastava colocar o cartuchinho dentro da máquina que ela “puxava” o filme até o ponto da primeira foto. O fotógrafo basicamente se preocupava em enquadrar o assunto e apertar o botão, praticamente não havia risco do filme trancar ou ser velado por engano. Em anos anteriores ele usava esse sistema com uma câmera bem pequena, quando saía ao final do meio expediente que tinha na seguradora em que trabalhava no centro da cidade.


No ano de 2012, a seguradora nem teve expediente, já que a véspera do Ano Novo caíra numa segunda-feira. Rudolph resolveu então usar um filme comum, 135, numa câmera semiprofissional automática que ele tinha.


Saiu do prédio em que morava, em direção à Assis Brasil, e de lá, pegou a Francisco Trein, em direção ao Hospital Conceição. Acontecia que a sogra de Rudolph estava internada lá para ser tratada de uma pneumonia, e a mulher de Rudolph estava lá com a mãe. Mas a mulher dele teria que voltar para casa, então ele imaginava que poderia encontrá-la.


Fotos das ruas, fotos de carros, fotos de plantas, fotos de flores, fotos de prédios. Esta era a temática das fotos de Rudolph.


Quando estava na frente do hospital, ele sacou o celular, que também tinha uma câmera, uma câmera fraquinha, mas uma câmera, e ligou para a mulher, perguntando que horas ela sairia do hospital.


Para surpresa dele, ela informou que estava em casa, saindo do banho. O improvável acontecera. Eles se desencontraram. Provavelmente um em cada calçada na Rua Francisco Trein, distraídos ou concentrados em suas próprias preocupações, passaram um pelo outro sem se verem.


“Paciência!” pensou Rudolph consigo mesmo.


Seguiu em frente, em direção ao Parque Germânia. não muito longe do hospital.


Era final de tarde, e a luz do sol ia rareando, o que empobreceria as cores da fotografia. De quebra, ainda havia uma pequena chuva de verão aparentemente se formando.


Rudolph caminhou até o final da Francisco Trein e foi em direção ao parque.


Continuou com suas fotografias. Árvores, ruas, automóveis, prédios. Nesse caso ainda o parque.


Em seguida o tempo fechou, e começou uma garoa.


Rudolph se abrigou junto a um posto de gasolina que havia ali perto.


Quando a chuva engrossou de vez, ele entrou na loja de conveniências do posto, e aproveitou a pausa forçada para pedir um capuccino e um pão de queijo.


Ele estava nos primeiros goles e na primeira mordida, quando o celular tocou. Era sua mulher.


Ela lhe perguntou se estava tudo bem.


Ele respondeu que sim.


Ela disse que tinha uma notícia não muito boa, e pediu que ele fosse para casa para que ela contasse. Ela não queria falar ao telefone.


Rudolph se sentiu ruim. Não queria esperar. Perguntou se alguma coisa havia acontecido com a mãe dela.


Ela disse que não.


Ela falou no Bello.
O Bello...


O amigo. O que havia acontecido com Bello?


Rudolph sabia que ele estava em tratamento para câncer no fígado desde o início do ano. Aparentemente o tratamento com quimioterapia havia surtido efeito, e o câncer estava em regressão, se é que não havia regredido totalmente. Bello era um tremendo otimista, e sempre tinha as melhores expectativas sobre a evolução da doença.


Mas perto do Natal, manifestara sintomas de resfriado. Ele tinha o projeto de passar a entrada de ano na Serra. Mas aparentemente isso havia sido cancelado por causa do resfriado.
Então? O que havia acontecido com Bello?


“Ele faleceu.” Ela respondeu. Uma das filhas de Bello ligara para informar.
O enterro seria no dia seguinte...


De repente o café perdeu um pouco do gosto.


Ali fora, a chuva de verão continuava. Intensa.


A mulher de Rudolph manifestou certa preocupação com ele. Pediu que ele voltasse para casa. Perguntou se estava tudo bem com ele. Rudolph a tranquilizou. Ele estava bem. Triste,  mais abatido, mas estava bem.


Rudolph sabia que diante do passamento de nossos queridos, só nos restava seguir em frente. Era trivial dizer isso, mas assim era a vida. Cada um tinha a sua...


Rudolph ainda teve tempo de terminar o café e o pão de queijo antes que a chuva diminuísse de intensidade e lhe permitisse voltar para casa.


Ainda houve tempo para bater mais umas duas ou três fotos no caminho para casa. Ruas. Prédios...


Logo depois de fotografar um dos novos prédios em volta do Parque Germânia, Parque Germânia que deveria ter se chamado Parque Alemanha, mas depois mudou, Rudolph pensou consigo mesmo que perder o Bello era como perder uma espécie de “pai espiritual”. Talvez pudesse se pensar na palavra guru, mas fazia tempo que Rudolph não tomava os posicionamentos do Bello como base para os seus. Na verdade havia se distanciado bastante. Rudolph recordou que fazia bastante tempo, mais de dez anos desde que perdera seu pai, o pai biológico. Agora perdera também o pai espiritual.


Expirou forte, “Eta, orfandade!”


Foi no início dos anos 1980 que Rudolph conhecera Bello. Rudolph  e mais alguns amigos estavam em uma busca espiritual. Também era um momento de decisões da adolescência também.
Pelos caminhos da busca, uma igreja aqui, outra ali, questionamentos, dúvidas, por fim acabaram chegando à casa de Bello. Que falou da Bíblia. Que falou de Jesus. Rudolph e seus amigos aceitaram aquelas palavras. A princípio mais os amigos que Rudolph propriamente. Mas aquela aceitação, foi o início do fim da busca.


Com aquelas decisões, Rudolph e seus amigos se inseriram no ramo protestante evangélico do cristianismo, no Brasil.


Mas, claro, uma paternidade espiritual era diferente de uma paternidade biológica. Se as pessoas seguem caminhos diferentes daqueles de seus pais biológicos, imagine o quanto podem se distanciar com relação a pais espirituais.


Evangélicos tendem a ser bastante sectários. Evangélicos puros e duros tenderão a dizer que a salvação só vem por Jesus, e, grosso modo, só os evangélicos conhecem verdadeiramente Jesus. Há matizes, mas em geral é assim. Sua convicção, derivada de sua esperança os faz serem assim.
Bello era um dos mais puros entre esses puros e duros. Sempre falando de Jesus. Sempre contando as bênçãos que Deus havia presenteado a ele. Sempre convicto. Sempre otimista.


Rudolph, pelo contrário, se distanciara dessa militância. Embora mantendo suas convicções, se tornara acanhado. Quase não falava de Jesus. Mesmo que acreditasse receber bênçãos, não falava muito delas. No trato da religião se tornara o que muitos evangélicos chamariam de “liberal”. E cada vez mais, a ponto de nos últimos tempos se questionar se o combate ao consumo de drogas ilícitas não se tornara mais nocivo para a sociedade que a liberação dessas drogas. Posição que se tornaria praticamente anátema entre os mais puros e duros dos puros e duros evangélicos.


Mas muito antes disso, Bello e Rudolph haviam diminuído seus contatos. Cada um começara a frequentar comunidades religiosas diferentes, havia diferenças de temperamento, e assim como se perde contato com amigos ao longo da vida, assim acontecera entre eles.


Mais ou menos no final da primeira década do século XXI algum contato foi retomado, graças, como se tornou comum, às redes sociais da Internet. Algum contato significava alguma troca de mensagens eletrônicas vez por outra. E houve uma vez em encontro casual num shopping.


Esse marasmo acabou rompido por conta de um contato de Noemi, mulher de Bello. Bello estava doente, e a doença era grave. Foi assim que Rudolph soube do câncer no fígado do amigo.


Foi assim que Rudolph foi visitar Bello quanto ele esteve internado no Hospital de Clínicas.  Ali Rudolph pode rever Bello. Isso foi no início do ano.


Bello continuava o crente inabalável em suas convicções. Falava de Jesus para os seus companheiros de quarto, para as enfermeiras e o corpo médico. O Hospital de Clínicas é um hospital-escola, então ele é frequentado pelos alunos de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bello sempre que podia falava de sua fé. Também inabalável era seu otimismo. Convicto que venceria a batalha contra a enfermidade, “no poder de Jesus”, como Rudolph acha que ouviu quando esteve lá.


Tal otimismo era um pouco desconcertante para Rudolph. Pois, afinal, o crente que morre, vai para junto de Jesus, segundo as suas convicções. Bello achava que Jesus queria que ele ficasse nessa terra por mais algum tempo. Pareceu a Rudolph que o desejo de permanecer na terra era mais importante que estar com Jesus para Bello. Mas Rudolph racionalizou dizendo que não sabia realmente o que havia por trás daquelas manifestações.


Bello esteve no hospital para uma cirurgia de desobstrução da vesícula biliar, e para acertar como seria seu tratamento. Cerca de uma semana depois Bello teve alta, e começou a ser submetido a sessões de quimioterapia.


Com seu otimismo, ele seguia em frente. Ganhou peso, inclusive. E o câncer que havia sido diagnosticado estava regredindo de acordo com os exames.


Desde essa época, Rudolph e Bello mantinham um contato mais ou menos regular via telefone. Bello sempre falava em receber uma visita de Rudolph, e Rudolph se esquivava. Rudolph pensava consigo mesmo que quimioterapia gera baixa da imunidade do paciente que a ela se submete, e tinha temor de contaminar Bello. Contribuía para a esquiva também aquele afastamento doutrinário de ambos. Rudolph sempre temia, por alguma eventualidade, entrar em choque a respeito de alguma coisa do cristianismo.


Agora não havia mais risco de choque doutrinário. Agora não havia mais risco de contaminação. Bello não estava mais entre nós. Estava com Jesus.


Rudolph chegou em casa após sua caminhada.


Naquele dia quente e úmido, a camiseta que vestia estava com manchas de suor.


Assim que chegou em casa, Rudolph trocou poucas palavras com sua esposa, e foi tomar banho.
Com o chuveiro ligado e a água caindo com força, Rudolph chorou. E chorou. E chorou...
Chorou por alguns bons minutos sob o chuveiro.


Cada um tem as suas dores, a sua maneira de tratar a delícia e o terror de estar vivo nesse mundo de contradições.


No caso de Rudolph, ele não entendia o porquê dele permanecer vivo enquanto pessoas que ele julgava melhores que ele se iam.


Quando ele comentou isso com a mulher, novamente quase chorando, a resposta dela foi simples e eficaz. “Cada um vive aquilo que tem que viver”...


Era preciso dormir.


O enterro seria às nove horas da manhã do dia seguinte. O primeiro dia de 2013.






O primeiro dia de 2013 foi nublado. Vez por outra caíam gotas de uma fraca garoa. Esse tipo de clima ajudou a amenizar o calor abafado do verão em Porto Alegre.


O enterro seria num cemitério parque, desses que parecem cemitério de filme americano, campos verdejantes a perder de vista, com túmulos no chão, no município vizinho de Canoas. Um culto de ação de graças pela vida de Bello seria celebrado antes do enterro.


Assim, foram Rudolph e sua esposa no velho fusca que eles tinham. Era preciso confiar que o fusca velho vencesse o caminho até Canoas. E ele venceu. Pelo menos naquele dia.


E havia bastante gente para aquele velório-culto de ação de graças-enterro. Bello era um homem gregário. E havia bastante gente lá. Gente que Rudolph não via há muito tempo. Gente de várias comunidades diferentes de evangélicos da cidade de Porto Alegre, com os quais Bello tivera contato ao longo dos anos. Se Bello pudesse ver e interagir com aquela gente toda em seu enterro, provavelmente soltara um grito de gratidão: “Deus seja louvado!”. É. Tal qual se vê nas notas de dinheiro do Brasil.


Rudolph pensou consigo mesmo como velórios e enterros podiam se tornar eventos sociais. Como muitas vezes era possível reencontrar amigos e conhecidos com os quais se havia perdido contato nessas situações.


Rudolph inclusive encontrou os amigos com quem havia encontrado Bello na primeira vez. Lá estavam Flávio e Pedro. Flávio inclusive viera de São Sepé, a mais de duzentos quilômetros de Porto Alegre para o enterro, junto com sua esposa. Pedro se tornara solteirão e vivia em Porto Alegre, mas Rudolph nunca mais o havia visto.


O culto de ação de graças transcorreu como costuma acontecer em cultos de ação de graças, exceto que era relativamente raro chamar-se de culto de ação de graças a um celebrado em velório. Era mais comum o culto em memória. Foram cantadas algumas das canções das quais Bello mais gostava. Algumas pessoas compartilharam memórias de sua convivência com Bello. O pastor que dirigia o culto, também deu sua palavra a respeito de Bello.


Rudolph levara para o enterro uma câmera compacta digital. Queria registrar algo do enterro. E assim fez. Questionou-se se não era excessiva excentricidade fotografar um enterro. Pensou se não havia se tornado alguma espécie de voyeur. Talvez sim.


Fez algumas poucas fotos em preto e branco...


O cortejo fúnebre saiu da capela acanhada e lotada em silêncio.


Rudolph perguntou à sua esposa  se a cor do caixão seria marrom ou vermelha. Ela não respondeu. Deu de ombros. Achava que aquela pergunta não fazia sentido...


O caixão foi colocado no tumba. Lá se ia o corpo de Roberto Carlos Monte Bello. Do pó ao pó. Da terra à terra.


Bello agora era uma lembrança nas mentes dos que o conheceram.


Algumas poucas gotas de chuva devem ter caído nesse momento. Confundiam-se com as lágrimas contidas daqueles que já sentiam saudades de Bello.


Hora de voltar para casa.






Rudolph ainda deu uma carona para Flávio e sua esposa, Noemi, até a rodoviária de Porto Alegre para comprarem passagem de volta para São Sepé. Depois passaram em shopping para almoçar.
Após o almoço, havia um intervalo de tempo antes do horário do embarque para São Sepé. Flávio e Noemi resolveram que queriam ter mais uma palavra com a viúva de Bello, que também se chamava Noemi.


Pedro também havia resolvido ir até lá.


Os três amigos se reencontraram por conta da morte de Bello.


Houve um momento de lembranças. O filho de Bello, que também se chamava Roberto Carlos falava do pai, dos projetos, das aspirações que ele ainda tinha. Conversa vai, conversa vem. As lembranças de cada um foram trazidas. Era bom lembrar. Era ruim sentir a falta.


Mas Rudolph achou que ali estava mais uma coisa para registrar.


Perguntou ao grupo se eles se importavam que ele registrasse aquele momento. Ninguém se incomodou.


Pelo contrário. Rudolph tinha a ideia de apenas registrar um pouco da conversa em fotos. Cada um no seu lugar. Mas não. O pessoal resolveu que era necessário posar para as fotos. E assim foi.
Rudolph fotografou, posou e fotografou de novo.


Contudo se tranquilizou. Aquele era o dia do enterro de seu amigo. E agora estavam ali, na casa que pertencera a seu amigo. Ele, outros amigos, a viúva e o filho do falecido posando para fotos. Talvez ele não fosse tão excêntrico, afinal...



04-03-2013.
06-03-2013.