domingo, 24 de agosto de 2014

Semana do Centenário de Cortázar


O escritor argentino Júlio Cortázar faria 100 anos esta semana, se estivesse vivo.
Em todo caso, pela obra que deixou, que continua sendo lida e debatida, e influenciando outros escritores, viva Júlio Cortázar.
Júlio Cortázar nasceu em 26 de agosto de 1914, na Bélgica, filho de um diplomata argentino. Faleceu quase 70 anos depois, em Paris, França.


24/08/2014.

Diário - leituras - Os Prêmios, de Júlio Cortázar


Diário - leituras - Os Prêmios, de Júlio Cortázar



“Os Prêmios” é um romance de Júlio Cortázar, em que o autor franco-argentino narra a história de um grupo de cidadãos buenairenses que são sorteados em um concurso, e ganham o direito a um cruzeiro, uma viagem de navio, sem saber o destino.


Dentre os personagens, não muito bem definidos, um jovem adolescente acompanhado por sua família suburbana, um casal que ainda não havia se casado formalmente (um pequeno escândalo para a sociedade argentina da época - o livro foi publicado originalmente em 1969), uma mulher divorciada com seu filho pré-adolescente, um casal formado por um homossexual e uma mulher liberada sexualmente, dois professores da escola em que estuda o adolescente, um mais velho e viúvo, o outro jovem e solteiro. Enfim um grupo relativamente variado, formado por pessoas de classe média e remediados da cidade de Buenos Aires.


A história se inicia em um bar, o “London”, onde essas pessoas devem se reunir à espera das autoridades encarregadas da entrega dos tais prêmios. Após todos estarem reunidos, chega um oficial do governo e leva os premiados e seus acompanhantes para o porto, onde eles deverão embarcar.


Tudo é cercado de tensões. O oficial não é claro em seus propósitos. O navio em que os premiados devem viajar não é definido. Mesmo após todos serem embarcados em certo navio, de uso misto, para carga e passageiros, o destino do passeio não é certo. Talvez o Japão, mas talvez não passem de Ushuaia, no extremo sul da América do Sul. De quebra, ainda há uma série de restrições sobre a possibilidade de circulação dos passageiros dentro da embarcação, o que gera uma série de conflitos, que irão se avolumando no decorrer da história, até que a situação se torne insustentável.


Nas interações entre as pessoas, as personagens vão se mostrando. O desajuste de uma, a solidão de outra, as máscaras, as indefinições, enfim, o autor vai explorando as possibilidades das personagens.


É um livro razoável. Diferente de "O Jogo da Amarelinha", seu romance mais conhecido, “Os Prêmios” é caracterizado por sua linearidade. É também anterior a "O Jogo da Amarelinha".


Uma curiosidade é que o livro, ou esta edição que li, possui uma nota, que fica como um posfácio, onde o autor comenta algo da obra escrita. O que nos leva a um mundo em que viagens transatlânticas de navio eram, digamos assim, comuns, e tais navios transatlânticos de passageiros tinham sua primeira, segunda e terceira classe de acomodações. Deve ter sido nestas viagens que o autor se inspirou para criar esta obra.


CORTÁZAR, Júlio. Os Prêmios. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.


18-06-2014

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Homens

Homens


Ela tinha um ex, um antigo ex, o atual, um amante e um filho.

O ex era o pai do filho. Não pagava pensão. Raramente aparecia. E quando aparecia causava confusão.

O antigo ex meio que desistiu. Quando apareceu, só quis se aproveitar sexualmente dela. Não que ela não gostasse se sexo, mas não era só chegar e desfrutar...

O atual era pouco efetivo. Dava pouco apoio quando ela precisava.

O amante de pouco servia. Alegava que tinha família a preservar.

O filho ainda não a decepcionara. O filho tinha oito anos de idade.


19/08/2014.

sábado, 16 de agosto de 2014

Viagem Sentimental a São Borja


Viagem Sentimental a São Borja



São Borja fica a mais ou menos 600 quilômetros de Porto Alegre. É mais longe que Florianópolis, a capital do estado vizinho, por exemplo. Fica às margens do Rio Uruguai, fronteira do Brasil com a Argentina.


Em 1984 eu quis ir a São Borja.


Vivíamos os estertores da ditadura no Brasil, e eu estava pelo meio de minha adolescência, e fiquei bastante impressionado com o documentário "Jango", de Sílvio Tendler, que passou nos cinemas naquela época. Na minha cabeça, eu devo ter visto este filme no antigo Cinema Scala, que ficava na Rua da Praia. Ou talvez no Cacique que era uma sala que ficava ao lado. Tempos dos cinemas de rua.


O documentário tentava ser uma síntese do que havia sido o governo de João Goulart, o Jango do título, como ele era conhecido. Como eu disse, vivíamos os estertores do regime militar, e o documentário era bastante favorável à figura de Jango. Foi feito a partir de filmes e fotos de época, e de depoimentos.


Lembro-me que ao sair do filme, eu e alguns colegas cogitamos de ir à cidade de São Borja, cidade que abrigava o túmulo do presidente deposto por uma articulação civil-militar que impediu os brasileiros de elegerem seu presidente por 25 anos.


De quebra, São Borja também era a cidade que alojava os restos mortais de Getúlio Vargas. O presidente que havia legado ao país os primeiros direitos trabalhistas para os trabalhadores urbanos. E que se suicidou diante da perspectiva de sofrer um golpe civil-militar, em agosto de 1954.


É, São Borja é conhecida como a “Cidade dos Dois Presidentes”.


Aquele momento passou.


O desejo de conhecer a cidade permaneceu incubado.


Houve uma vaga nova oportunidade na segunda metade da primeira década do século XXI na possibilidade de uma excursão de estudantes do curso de História para lá. Sendo um estudante temporão, com família e trabalho, deixei a nova oportunidade passar.


Pois em março passado, finalmente pude me pôr a caminho para conhecer a cidade dos dois presidentes.


Férias. E férias sem muita pretensão. Viajar pelo interior do Rio Grande do Sul.
E assim lá fomos nós a caminho de São Borja, no início de março.


É uma viagem longa. Como eu disse, quase 600 quilômetros a partir de Porto Alegre, cruzando o Rio Grande do Sul no sentido leste-oeste, mais ou menos no caminho do sol. Dependendo da pressa e da vontade de correr riscos em nossas estradas, a viagem pode levar de 6 a 9 horas. Razão pela qual não a fizemos toda de uma vez.


Tendo saído tarde de casa, fizemos uma parada estratégica na cidade de Santa Cruz do Sul, com sua belíssima catedral de estilo neogótico.


Após a pausa em Santa Cruz a viagem seguiu para oeste. Passando pela cidade Santa Maria, e depois por Santiago do Boqueirão.


Entre Santiago e São Borja há uns cerros, que eu não imaginava que existiam. Acrescentaram uma pequena dose de emoção à viagem, com o sobe e desce, e curva para a direita e curva para a esquerda.


E por fim, lá onde termina a BR287, estava um dos acessos à cidade de São Borja.


São Borja não chega a ser uma cidade que tenha muitas belezas naturais a explorar, mas tem os seus pontos.


A começar que foi o primeiro dos chamados Sete Povos das Missões. Ou seja, a cidade foi fundada por jesuítas espanhóis no final do século XVII, na segunda tentativa de evangelizar e aldear os povos indígenas da margem oriental do Rio Uruguai, homenageando um dos primeiros líderes dos jesuítas, São Francisco de Bórgia.


A catedral atual, que lembra vagamente uma nave espacial, foi erguida no mesmo terreno da primeira matriz jesuítica do século XVII.


Pelas idas e vindas territoriais entre os impérios coloniais espanhol e português, a cidade acabou ficando para o Império Português, e por herança, para o Brasil.


Além de terra dos presidentes, e início dos povos missioneiros, São Borja foi local de nascimento de um líder republicano do final do século XIX. o Coronel Aparício Mariense da Silva. Na praça principal da cidade, muito propriamente chamada "15 de Novembro", há uma estátua deste vulto da república. Líder republicano, após a proclamação da república, ele foi intendente (prefeito) de São Borja por dois mandatos.


Assim, a gente vai descobrindo os encantos da cidade….


Uma cidade basicamente plana. Suas poucas subidas e descidas são suaves.


Ficamos hospedados num hotel muito adequadamente situado à Avenida Presidente Vargas, a poucas quadras da Praça XV de Novembro.


Nessa mesma avenida ficam o Museu de João Goulart, abrigado numa casa que pertenceu à família Goulart. E também o Museu de Getúlio Vargas.


O Museu de João Goulart tem um acervo modesto. Avalio assim pensando no tamanho de tal figura para a cidade: um pequeno mobiliário que herdado da família, alguns balcões com vitrines expondo publicações da época do Governo João Goulart, alguns objetos que pertenceram ao ex-presidente. E poucas lembrancinhas à venda para os eventuais curiosos que por ali chegassem.


E o Museu de Getúlio Vargas estava fechado para reformas. O acervo estava guardado em um quartel da cidade. Não vimos.


São Borja, desde 1997 tem a ponte internacional que a liga à cidade de Santo Tomé na Argentina. São 1.400 metros. Mas nós não fomos ao território argentino, e não passamos pela ponte.


Como eu disse antes, São Borja fica às margens do Rio Uruguai. Um rio longo, mais de 1.700 quilômetros, o Uruguai separa o Rio Grande do Sul da Argentina, e separa a Argentina do país Uruguai mais ao sul. O rio Uruguai é cantado em verso e prosa no Rio Grande do Sul, um estado que, como todo o Brasil, tem todo um passado agropastoril e um presente urbano, mas gosta de celebrar o saudosismo desses tempos em que a maioria da população vivia no campo.


Nós precisávamos ir ver este marco do Rio Grande do Sul. Tão cantado, tão falado. E fomos. A margem do Rio Uruguai fica a pouco mais de cinco quilômetros do centro de São Borja. Uma distância bem razoável.


No caminho passamos por uma lancha da Polícia Federal. Sabe como é, área de fronteira, área de contrabando, e, eventualmente, área de tráfico de drogas.


Quando lá chegamos, pudemos constatar que aquela área, próxima do rio, é uma área de lazer para os são-borjenses. Um local com ampla área de estacionamento, e cheia de barracas de comes e bebes. No dia e horário que fomos tudo estava fechado (era uma tarde de dia útil), mas pudemos imaginar o agito que deve ser aquilo nos finais de semana.


E ali estava o rio. Na nossa frente. Sua margem de terra escura e pedrinhas, e  areia. Sua água escura, que parecia quase parada, sem correnteza. Seus talvez 1.000 metros de largura, e, na outra margem, a Argentina com seus barrancos e a vegetação ciliar. Ali estava o rio que demorou meia vida para que eu pudesse ver e molhar os calçados. O rio que por um tempo pertenceu em ambas às margens ao Reino de Castela. O rio que, por fim, é a fronteira entre os lugares onde se fala português e espanhol. Bom turista, tirei umas poucas fotos do rio, enquanto minha mulher e meu filho ficavam disputando quem atirava pedras mais longe. De preferência pedras chatas, que podiam picar na água para ir mais longe. Dia de sol. Dia quente de março. Foi como conheci o Rio Uruguai.


E no outro dia era dia de visitar o cemitério da cidade. Cemitério este onde deveriam estar os restos mortais dos presidentes.


O cemitério de São Borja fica num canto meio ermo da cidade. O jazigo da família Vargas fica logo na entrada do cemitério. Já o da família Goulart fica mais à direita de quem entra.


No jazigo da família Goulart estava enterrado o corpo do ex-presidente. E o de sua irmã, Dona Neusa Brizola, e o de Leonel Brizola, falecido em 2004. E o de Neusinha Brizola, filha do político que fez algum sucesso como cantora nos anos 1980. Foi surpreendente se dar conta que tanta gente conhecida estivesse enterrada naquele jazigo.


Já os restos mortais do presidente Getúlio Vargas já não descansavam mais no jazigo da família Vargas naquele cemitério. Haviam sido transferidos para um mausoléu-monumento que estava sendo construído em plena Praça XV de Novembro. Em março este monumento ainda estava por ser concluído.


Bustos dos dois ex-presidentes adornam a prefeitura de São Borja, cujo prédio se chama Presidente João Goulart.


E foi esta minha visita à cidade.


Não sei se algum dia voltarei a visitá-la. Eu gostaria.


Mas esta visita preencheu uma expectativa de 30 anos de espera.


Em 1984 não imaginei que demoraria tanto.



19/05/2014.



Blitz Policial


Blitz Policial


Quando começaram a ser implantadas as primeiras ações afirmativas, a fim de diminuir a desigualdade no acesso ao ensino superior público há alguns anos, estabelecendo cotas de vagas para alunos negros ou indígenas, e de escolas públicas, houve certo rebuliço. Nenhuma novidade. Até hoje há resistência a esse tipo de ação afirmativa.


Se não me engano houve uma reportagem de uma de nossas revistas semanais informando, que, de dois alunos gêmeos que se candidataram no vestibular da Universidade de Brasília, um deles ficou na cota de alunos de origem negra, e o outro no acesso universal, isto é, fora de cotas. Nenhum problema, o acesso por cota é autodeclarado.


E parece que uma pessoa que fazia parte da comissão de ingresso na universidade deu uma resposta irônica: se as pessoas tem dúvidas sobre se alguém é negro ou não, podemos chamar uma patrulha da polícia militar aqui, e ela pode definir quem é negro ou não...


Claro, ela estava sendo irônica. Mas é possível relembrar mais de um caso em que a, digamos, imperícia de alguns policiais militares gerou a morte de inocentes porque alguém pareceu suspeito. E ser negro costuma ser parte das características de ser suspeito.


Me lembrei disso este final de semana.


A Avenida Antônio de Carvalho liga as Avenidas Protásio Alves e Ipiranga e Bento Gonçalves. É uma das importantes ligações entre as zonas norte e leste da cidade.


Nestes últimos dias tem sido um local de ataque aos ônibus que por ali circulam. Quando os ônibus passam por ali, é o momento em que assaltantes costumam agir. De tal maneira, que os rodoviários que conduzem linhas de ônibus por ali, fizeram paralisações por conta desses assaltos e da violência.


Em consequência, a brigada militar, a polícia militar do Rio Grande do Sul tomou a iniciativa de reforçar o policiamento preventivo na região.


Aparentemente funcionou. Os jornais locais informaram que as ocorrências de assaltos aos coletivos foram reduzidas a zero, e os rodoviários ficaram mais calmos.


Neste final de semana passado, utilizei uma das linhas que passam pela Avenida Antônio de Carvalho.


Mais ou menos na metade da avenida, em um ponto de ônibus, o veículo ficou parado mais tempo do que é comum. Como eu estava sentado em um banco que fica de costa para o motorista e o cobrador do ônibus, não percebi o que estava acontecendo até que um policial apareceu no fundo do ônibus, enquanto outro policial o acompanhava pela calçada. O policial veio olhando os passageiros. No fundo do ônibus, onde pude ver, o único passageiro suspeito foi um jovem negro, vestindo moletom com capuz, e boné. O policial apontou para ele e mostrou-lhe a porta do ônibus. Ele prontamente levantou, e desceu do ônibus. Não reclamou, nem contestou. Parou ao lado do coletivo, encostou as mãos no veículo, e abriu as pernas, posição padrão para uma revista, e a revista de fato foi realizada pelo policial que estava na calçada. Em segundos o rapaz foi revistado e autorizado a regressar ao ônibus. O policial que estava no ônibus desembarcou, e a viagem prosseguiu.


O rapaz desceu umas duas paradas depois. Seguiu seu caminho.


Eu segui minha viagem...



11/08/2014.




quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Eduardo Campos - 1965 - 2014

E vez por outra nós somos surpreendidos pela morte de alguém.
Hoje o ex-governador e candidato à presidência Eduardo Campos faleceu em um acidente aéreo.
Pena. Em plena campanha eleitoral. E parecia que ele tinha uma longa carreira ainda pela frente, mesmo que eventualmente perdesse esta eleição. Quiçá se vencesse...


13/08/2014.

sábado, 9 de agosto de 2014

Leituras na Piauí - Junho de 2014 - "Eu, um Velho", de Roger Angell


Leituras na Piauí - Junho de 2014 - "Eu, um Velho", de Roger Angell



"Eu, um Velho" é um artigo, originalmente publicado na revista americana New Yorker, onde o autor relata um pouco do que é estar vivendo na décima década de vida, isto é, estar vivendo aos noventa e poucos (ou noventa e muitos, isso não fica claro no texto) anos. É um relato fluido e humano. De alguma forma é uma espécie de privilégio que o autor tenha lucidez para fazer todo este longo relato sobre ser muito velho.


Ele começa falando, como se poderia esperar, das dores físicas. Os dedos retorcidos, parecendo marcas de uma antiga sessão de tortura, por conta da artrose. A cegueira parcial em um dos olhos por conta de degeneração macular. As dores e os desvios da coluna que lhe tiraram alguns centímetros de altura. O uso diário e necessário de analgésicos para seguir adiante, por conta de dores nas pernas. A cirurgia para válvula no coração. Há todo um leque de procedimentos de saúde pelo qual passou e passa diariamente uma pessoa com mais de noventa anos.


A sensação, como ele diz, de andar com um piano ou um cofre pendendo sempre sobre a cabeça onde quer que ele vá, como metáfora da possibilidade da morte a qualquer instante.

E, apesar, de tudo, uma relativamente boa relação com a morte. Uma atitude mais serena em relação à indesejada das gentes que quando ele tinha cinquenta ou sessenta anos.


E depois disso, pensar na morte dos conhecidos, na morte dos amados. Angell fala das lembranças, começando pelo mais recente cachorro. Mas também de uma filha que partiu antes dele. Pensa no pai, ou na mãe. Em amigos. Enfim, eu posso imaginar. Se com quarenta anos já sentimos a morte de tantos queridos em nossa vida, imagine com noventa. Talvez se seja o último remanescente de toda uma geração.


E há a invisibilidade de ser velho. Ele diz que acha normal ele ser excluído, ou não incluído, quando tenta se aproximar de outras pessoas mais jovens que ele conversando. Mesmo que sejam pessoas com sessenta anos. Ele diz que é como se os mais jovens dissessem para ele, "o seu tempo já passou, meu velho. Deixe nós com nossas atividades e nossos assuntos."


Por fim, aos noventa e tantos, Angell se diz surpreso com duas coisas.


Uma é justamente chegar a tal idade. Cada dia novo vivido é uma espécie de surpresa.


A outra é a permanência do desejo. Desejo que não necessariamente é sexual, como genitalizado. Mas o desejo de ter alguém do lado. De não estar só. Como ele diz, de haver uma coxa encostando na sua quando você está deitado na cama.


Por tudo, um depoimento comovente e muito humano. Vale a pena ler o artigo.



O artigo original: “Eu, Um Velho”, na Piauí.



07/08/2014.

O logro do taxista


O logro do taxista




Eu já ouvira falar do golpe, por meio de jornais, normalmente acontecendo com turistas brasileiros em Buenos Aires. Consiste no seguinte: pega-se o táxi e se vai a um destino qualquer. Terminada a corrida, o taxista informa o valor da corrida e o passageiro paga com uma nota de cem pesos. O motorista manipula a nota rapidamente e devolve a nota ao passageiro, alegando que a nota é falsa. O passageiro constrangido, e pego desprevenido, pega a tal nota falsa, e paga o taxista com outra nota. O golpe consiste em o taxista rapidamente, e sem o passageiro perceber, trocar a nota recebida do passageiro por dinheiro falso que o próprio taxista estava distribuindo. Ele ganha duas vezes. Os cem pesos autênticos do passageiro, mais o valor da corrida, que o passageiro constrangido paga.


Pois me aconteceu um caso parecido. E aqui em Porto Alegre.


Eu costumo fazer compras no Shopping Bourbon Wallig, e pegar táxi para ir para casa. Uma corrida não muito longa, que costuma custar menos de dez reais. Nesta sexta-feira, fiz compras no supermercado, e, como de costume, peguei o táxi. O que fica à disposição na fila.

Feita a rápida corrida, peguei o dinheiro na carteira, dez reais, e entreguei ao taxista, mas não fiquei prestando atenção a ele, preocupado que estava com as compras.


Em alguns segundos ele reclamou: “Mas esta aqui é uma nota de dois reais!”. Pego desprevenido, constrangido, eu peguei a nota de volta, dois reais, e fui procurar a nota de dez reais que devia estar na minha carteira ainda. Eu tinha dez reais. Havia pego no caixa eletrônico no banco no intervalo de almoço. Mas não havia dez reais na minha carteira. Juntei os trocados que havia na minha carteira, nove reais, uma nota de cinco e duas de dois, ainda juntei a tal nota de dois reais que ele dissera que eu entregara a ele como dez reais, e dei a título de gorjeta. Aparentemente ele ficou contente.


Eu peguei as compras e entrei em casa com elas. E aí a ficha começou a cair. Pensei com os meus botões: “Mas espera aí. Eu tinha dez reais. Como eles sumiram?”, e me lembrei sobre o tipo de golpe a respeito do qual li, e relatei acima. Sim, provavelmente eu dera os dez reais, e o taxista percebeu que eu não estava prestando atenção, trocou as notas e alegou o dinheiro insuficiente. Recebeu duas vezes pela corrida. Fui logrado.


O problema nem é o dinheiro em si. Dez reais a mais não vão me fazer tanta falta, nem o taxista vai enriquecer por conta disso. O problema é ser feito de bobo, de otário.


E não há como provar, nem reclamar. Não vi o prefixo, não anotei a placa, nem percebi o modelo do automóvel. Só vi que era um Fiat. Podia ser um modelo siena, ou um grand siena, entre tantos modelos parecidos que estão na praça em Porto Alegre.


Felizmente não vi o nome do taxista. Espero nunca mais encontrá-lo entre os talvez dez mil motoristas de táxi de Porto Alegre.


Felizmente já andei centenas de vezes de táxi e este é apenas o segundo incidente desagradável. O outro foi um rapaz metido a esperto que ficou inventando voltinhas para aumentar a corrida e rodar o taxímetro, o que fez uma corrida ficar uns 20% mais cara do que eu costumava pagar para aquele trajeto, faz algum tempo.




De qualquer modo, fica a dica: tenho que prestar mais atenção no dinheiro que entrego ao taxista ao final da corrida.




01/08/2014.

Diário - cinema - A Culpa é das Estrelas


Diário - cinema - A Culpa é das Estrelas



"A Culpa é das Estrelas" ("The Fault in Our Stars", Estados Unidos, 2014) é um filme sobre uma adolescente, Hazel Grace, interpretada por Shailene Woodley, que tem câncer. O câncer foi descoberto na infância, na glândula tireoide, e gerou metástases nos pulmões, fazendo com que Hazel tenha um fôlego curto, e dependa de um cilindro de oxigênio para todas as suas atividades.


Em um grupo de apoio mútuo para pacientes jovens com câncer, ela conhece Augustus - "Gus" - Waters, vivido por Ansel Elgort, um jovem, ex-atleta, cujo ossteosarcoma (um outro tipo de câncer) fez com que ele tivesse uma das pernas amputada, e entre eles surge um romance. O filme é baseado no livro homônimo de John Green.


O diretor usa e abusa de closes no rosto de Ansel Elgort sorrindo. De fato funciona. O rapaz é bonitinho e há de fazer muito sucesso entre as meninas. E cada vez que era mostrado aquele rosto dele sorrindo, eu podia imaginar um monte de meninas suspirando: “que fofo!”.


Obviamente um filme com uma temática assim, é feito para gerar um rio de lágrimas da parte dos espectadores, e isso de fato acontece. Em muitos momentos do filme, a plateia é levada às lagrimas.


Em alguns momentos é capaz de gerar reflexões sobre vida e morte, doença e saúde. E reflexões sobre como encarar isso tudo.


Ao final da exibição, esse foi um ponto que acabou por me deixar desconfortável. Ao final do filme, depois de alguns momentos, fiquei pensando, "epa, mas esse é filme que acaba sendo de autoajuda". Não que a autoajuda seja uma coisa ruim em si. Mas não estou certo que seja a melhor abordagem para um tema duro como o câncer na adolescência.


No fim, acabei por achar um filme regular. Talvez uma abordagem menos "tente se sentir bem com isso" fosse melhor.



07/08/2014.