terça-feira, 30 de setembro de 2014

Leituras na Piauí - Agosto de 2014 - "Onze Ideias que deram em nada"


Leituras na Piauí - Agosto de 2014 - "Onze Ideias que deram em nada"




A edição de agosto de 2014 da revista Piauí, número 95, contém alguns textos bastante interessantes, mais ou menos como é comum, e como é a proposta da revista.

Destaques para as abordagens sobre a Copa do Mundo realizada no pais, tanto o fracasso futebolístico, em texto de Nuno Ramos, quanto nas manifestações contra a Copa, relatadas por Ciro Oiticica.

Eu gostei em especial do texto de Reinaldo Moraes, "Último telefonema para o cronópio", onde ele relata sua admiração juvenil pelo escritor argentino Júlio Cortázar, analisa parte da obra do argentino, e conta inclusive um encontro entre os dois. Tudo isso por conta centenário de Cortzar neste agosto de 2014. Foi o primeiro artigo que li na revista, e inclusive pensei em resumir para publicar aqui. Mas na verdade seria difícil fazer uma publicação digna dentro do mês, como seria o caso, para o aniversário do argentino. O texto de Reinaldo Moraes é divertido e, um pouco, emula as narrativas de seu ídolo de juventude. Mais vale ler o próprio texto de Reinaldo Moraes, que um resumo que eu produzisse.

Mas achei surpreendente o texto, ou os textos, de Antonia Pellegrino, "Onze Ideias que deram em nada".


Como diz, são “onze ideias que deram em nada”. Então, temos um texto com onze subtítulos, cada um com uma ideia, com tamanhos variáveis, falando de coisas que não deram certo. Começando por uma estranha “ideia de desejo”, passando por uma “ideia de ressentimento”, onde a autora faz a contabilização de um caso de amor que não deu certo.


Fala sobre a “ideia de ir aos índios”, e de como essa ideia acabou por falhar. Avalia a memória, e tentar resgatar a “ideia de memória”. Não vou citar todas essas ideias que deram em nada.


Vou destacar apenas mais a “ideia de um lago com carpas”, onde em quatorze parágrafos a autora relata o empreendimento de construir um lago para povoá-lo com carpas no quintal de casa, esse sonho de inspiração japonesa. Todo o investimento no sonho, os gastos com engenheiros e empreiteiros. As frustrações e os imprevistos.


Por fim, vou citar a “ideia de catecismo”, segundo Antonia Pellegrino. Em uma frase, como ela fez: “Rezava para dormir, hoje se masturba”. Desconcertante.


Como eu disse, o texto mais surpreendente desta edição de revista Piauí.


24/09/2014.

Diário - filmes antigos - Peixe Grande


Diário - filmes antigos - Peixe Grande


Ganhei de presente o o DVD contendo o filme "Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas" ("Big Fish", Estados Unidos, 2003). Um filme de Tim Burton, estrelado por Ewan McGregor, Albert Finney e Billy Crudrup, que ainda tem Jessica Lange, Helena Bonham Carter e Marion Cotillard como coadjuvantes de luxo.


É uma comédia dramática onde o filho, Will Bloom (Billy Crudrup) tenta entender seu pai (Ed Bloom, vivido por Ewan McGregor na juventude, e Albert Finney na maturidade) que ele sempre viu como um mitômano, inventando histórias fantásticas sobre o que viveu. Boa parte destas histórias são encenadas tal qual Ed Bloom as conta.


Sendo um filme de Tim Burton, há toda uma série de bizarrices (ou seriam eventos fantásticos?) no filme. Uma bruxa com olho de vidro, um gigante, uma trupe circense, irmãs gêmeas coreanas, e uma cidade chamada Spectre que Ed Bloom encontra após cruzar uma estrada cheia de desafios.


Um filme razoável, sobre relacionamento entre pai e filho, num momento extremo. Mais tocante ainda quando somos informados que foi produzido não muito tempo após o próprio Tim Burton perder seu pai.

17/09/2014.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Brucutu


O Brucutu



Periodicamente eu tenho que ir ao laboratório de análises clínicas recolher material para exames. As delícias de envelhecer.

Pois nesta terça fui novamente ao laboratório que o plano de saúde permite. Já faz algum tempo que faço esses exames rotineiros ali.

É sempre o mesmo procedimento básico: jejum de doze horas e se vai ao laboratório. Ali, no balcão, se encaminha a requisição de exames. A atendente encaminha o pedido de exames, confirma endereço e telefone, pergunta quais remédios estão sendo tomados no momento. E como se vai fazer o exame um pouco antes do trabalho, se pede o atestado de comparecimento ao laboratório. O atestado é fornecido após o recolhimento do material para os exames, aqueles nossos fluidos e excreções de sempre.

Recolhido o material, volto à recepção para o pedido do atestado. É ali que o encontro. O Brucutu!

O homem, por volta dos seus, talvez, trinta anos, estava junto ao balcão, onde eu deveria  pedir o atestado. Vestia uma calça jeans, com os fundilhos caídos, quase mostrando o sulco entre as nádegas, vulgo "cofrinho'. Camisa jeans para fora das calças. Óculos de aros de metal. Cabelo padrão para homens brancos morenos. Forte. Deveria parecer um homem. Parecia um pós-adolescente.

Aparentemente estava marcando um exame.

Havia pegado uns biscoitinhos fornecidos aos clientes pelo laboratório. e os mastigava.

Falava com a boca cheia enquanto ia fornecendo as informações solicitadas pela atendente. "Endereço?" - "Rua Tal, número 456, chomp, chomp, chomp, ..." - "Telefone residencial?" - "Não tem, chomp chomp, ..."

Ele me olhou. Eu estava atrás dele, acho que um metro e meio atrás. Talvez tenha ficado inquieto com a minha presença. Resolveu ficar de lado para o balcão, e, consequentemente, de lado para mim. Continuava mastigando...

A atendente passou a dar instruções: "Jejum de doze horas..." . "A urina deve recolhida após um período de duas horas sem ir ao banheiro, ou ser a primeira da manhã". "Duas horas?" - o homem levantou a voz. Quase gritou. "Isso. Ou a primeira urina da manhã." - a atendente disse. "Vou recolher a primeira urina da manhã. Vocês tem embalagem?" - ele perguntou. A atendente alcançou para ele uma embalagem envolta em um saco plástico.

Sabe-se lá por quê razão, ele se meteu a dar palpites sobre cursos superiores para a atendente. "Direito ou Medicina. Direito, Administração ou Medicina, mas Direito e Medicina são melhores. Farmácia também, mas Farmácia é mais difícil. É o que dá para ganhar mais dinheiro. Se candidatar em mais concursos." - propunha ele. Banal e eficaz. Só a falta de dinheiro causa mais ansiedade que ficar falando em dinheiro. Acho que só a vontade de se mostrar, faz você falar esse tipo de coisa para uma pessoa do sexo oposto que você vê pela primeira vez na vida. Uma pessoa que, a princípio, é obrigada a lhe ouvir.

"Quanto vai custar?" - ele perguntou. "Quarenta e um reais, faixa A5 do seu plano." - a atendente respondeu. "Ok." - o Brucutu disse, enquanto pegava a embalagem do exame de urina e se dirigia à saída.

Mas algo o fez voltar: "Vocês tem banheiro aqui?". "Nessa porta, no fundo do corredor." a atendente disse.

Ele atravessou a porta, e depois a porta do banheiro, fazendo barulho.

Eu finalmente pude pedir meu atestado, rapidamente fornecido.

Eu agradeci e fui embora.

Para longe dali. Para longe do Brucutu. Aliviado...



23/09/2014.

sábado, 20 de setembro de 2014

Diário - cinema - Lucy


Diário - cinema - Lucy



Lucy é um filme onde Scarlett Johansson encarna a personagem título, uma garota passando uma temporada em Taipé, que acaba envolvida com a máfia local, e é obrigada a traficar uma nova droga sintética dentro do corpo. A droga vaza da embalagem, e acaba proporcionando novas capacidades mentais à moça.


O filme tem algumas inconsistências, a começar que normalmente quando uma pessoa leva drogas ensacadas em suas entranhas e a embalagem vaza, isso normalmente faz com que a pessoa morra ou quase. Não adquira novos poderes mentais.


A tal droga sintética, "EPH4", simplesmente surge do nada, nas mãos de um cara que Lucy conheceu na balada.


Fazia tempos que eu não via bandidos tão maus no cinema como esta máfia chinesa que persegue Lucy.


O doutor Norman, personagem de Morgan Freeman, parece que está no filme para fins didáticos. De fato, ele aparece dando uma palestra, e segue o filme dando explicações.


Por fim, a produção dá uma bela embarangada em Scarlett (não faz mal, ela continua linda).


Filme fraco. Johansson e Freeman mereciam coisa melhor para atuarem.

17/09/2014.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Diário - cinema - Guardiões da Galáxia


Diário - cinema - Guardiões da Galáxia


"Guardiões da Galáxia" ("Guardians of the Galaxy", Estados Unidos, 2014) é um filme com personagens do universo Marvel (de heróis e super-heróis), onde cinco seres bastante diferentes entre si acabam unidos para, huummm, defender o universo contra supervilões.


Nesse caso são Peter Quill (Chris Pratt) um humano e pirata que foi sequestrado da Terra quando criança; Gamora (Zoe Saldana) uma mulher alienígena criada por Thanos; Rocket (voz de Bradley Cooper), um guaxinim geneticamente modificado; Groot (voz de Vin Diesel), uma árvore humanoide; e Drax (Dave Bautista), um alienígena bombadão que quer vingar a morte de sua família. Contra eles está Ronan, que quer destruir o planeta Xandar por conta de uma guerra antiga.


O filme é um tanto confuso, e não sei se tudo que ele tenta abarcar, não seria melhor distribuído em uns dois ou três filmes. Do jeito que vi o filme, fica parecendo uma colagem de cenas de ação.


Serve para estender o Universo Marvel, pois afinal, remete para os confins do universo as jóias que podem ser usadas como poderosas armas por supervilões, como já é o caso do "tesseract", aquele cubo branco que é mote, por exemplo, do filme "Os Vingadores", de 2012. A jóia encontrada por Quill no início do filme é outra dessas armas. E o filme informa que existem outras quatro.


Thanos, que aparece neste filme, também apareceu brevemente no filme "Os Vingadores" durante a invasão alienígena à Terra.


Ou seja, a Marvel tem assunto ainda para muitos filmes no futuro.


O filme, além da correria e da colagem de cenas, tem algumas boas piadas, mas isso não compensa a história confusa. Se fosse em outros tempos, eu diria que era melhor aguardar o DVD. Hoje dá para dizer que é melhor aguardar sair na TV por assinatura, ou na distribuição de vídeo sob demanda.

17/09/2014.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Diário - leituras - Os Deixados para Trás


Diário - leituras - Os Deixados para Trás


Por conta da série "Leftovers" ("Os Deixados para Trás" pode ser uma tradução) na TV por assinatura, resolvi ler o livro que inspirou a série.


O livro conta a história de algumas pessoas de Mapleton, uma cidadezinha de subúrbio do estado de Nova York, logo após um evento que é descrito como o "arrebatamento", embora o autor não seja muito claro a esse respeito. Mas em 14 de outubro de algum ano do século XXI, 2% da população mundial desapareceu, e ninguém mais pôde encontrá-los.


A história se concentra em Kevin Garvey, prefeito da cidade, e sua família. Laurie, a esposa que abandona a família para aderir a uma estranha seita, os "Remanescentes Culpados", que fazem voto de silêncio, fumam o tempo todo e constrangem pessoas afetadas pelo evento. Jill, a filha adolescente que entra em crise por conta principalmente do abandono da mãe. E Tom, o filho mais velho, que estava fora da cidade, na faculdade e se envolve com um messias charlatão.


Além disso tem algum destaque a personagem de Nora Durst, que perdeu o marido e os dois filhos pequenos no evento.


Talvez a questão seja, como reagir após um evento tão catastrófico como o sumiço de duas em cada cem pessoas do planeta.


E talvez o grande mérito do livro de Perrotta seja embaralhar as crenças mais ou menos consolidadas pela teologia protestante fundamentalista evangélica a respeito do arrebatamento. Segundo esta narrativa, os salvos por Jesus que estiverem vivos e fossem piedosos no momento da volta de Jesus seriam arrebatados. Mas e que tal se nem todos os arrebatados fossem cristãos? Ou mesmo se alguns deles fossem ateus? E se as pessoas que se têm como cristãos piedosos não fossem levados? O autor se arrisca a criar um arrebatamento assim. Se é que foi mesmo um arrebatamento.


E o grande problema é que o foco é por demais centrado em Mapleton. Assim temos uma história centrada nos subúrbios americanos com suas fofocas, suas neuroses e sua repressão. Fica parecendo no final um "sub-John Updike", com um toque fantástico nesse arrebatamento. Ou não. Vai que alguém ache que essa é justamente a força do livro.

Eu sei que achei uma leitura meio fraca, com seus personagens não muito bem definidos, e um final que pode soar inconsistente.


Por fim, uma palavra sobre livro e série televisiva: são obras diferentes. No livro Garvey é o prefeito, e na série é o chefe de polícia. A personagem de Kevin Garvey me parece muito menos protagonista no livro, perdendo para Laurie e Nora Durst. O pai de Kevin não existe no livro. Nem o caçador de cachorros enlouquecidos; quer dizer há, mas só de passagem, citado em uma página.

PERROTTA, Tom. Os Deixados para Trás. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012.

18/08/2014.