quinta-feira, 13 de novembro de 2014

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Caminhando na Vila Cefer


Caminhando na Vila Cefer



No dia da votação do primeiro turno das eleições, eu me dirigi à Vila Cefer para votar. A minha seção fica na Escola Ibá Ilha Moreira, na Vila Cefer I.


E talvez eu esteja ficando velho, pois caminhar por ali, me trouxe uma série de recordações de anos anteriores, dos anos que eu lá morei.


Talvez seja sinal de que a gente vai ficando velho.


As Vilas Cefer, I e II, são antigos projetos de habitação popular, concebidos durante a ditadura. Centenas de casas de madeira, com banheiros de alvenaria, todas iguais. Foram inauguradas no final da década de 1960, como um condomínio fechado popular.


Posteriormente a ideia de condomínio foi abandonada, mas até hoje os logradouros são denominados em números. E por conta desta configuração de condomínio a numeração das casas costuma ser em sequência em ambos os lados das ruas, em lugar de uma calçada com números pares e a outra com números ímpares, como é comum. E se entra em ambas as vilas pela rua "Um". As vilas são morro acima. Assim chegar na rua Onze, ou Cinco, as mais altas, pode ser bem cansativo.


Há uma linha de ônibus que sobe entrando pela Rua Um da Vila Cefer II, passa rua Nove da mesma vila, e volta pela longa Rua Um da Vila Cefer I.


Quando minha família se mudou para lá, na metade da década de 1970, a Cefer parecia um lugar relativamente próspero, com várias famílias com crianças, algumas com seus volkswagens.


Quando criança, na minha turminha, nós achávamos que lugar sinistro devia ser a Vila Pinto, favela vizinha, encravada entre a Cefer II, a Vila Brasília e a Vila (Bairro?) Bom Jesus. Levou tempo para eu perceber que éramos pobres estigmatizando quem era ou parecia ser mais pobre que nós. E lembro que uma vez foi um choque quando fui jogar botão (futebol de mesa) na casa de um colega de turma, e percebi que a casa dele era uma casa na Vila Pinto, no limite entre esta e a Cefer 2. Não houve problema, Jogamos botão e nos divertimos naquela ocasião.


E uma das peculiaridades da Cefer II é ter logradouros que não são ruas, mas tem casas, chamados de acessos. Esses acessos permitem uma série de atalhos para pedestres, mas neles os carros não devem passar. Ou não deveriam. Muitos moradores construíram garagens nesses acessos, e obviamente os automóveis trafegam por ali para chegar nessas garagens.


Hoje em dia, a Cefer vive uma próspera decadência.


Muitos proprietários alteraram os projetos originais (inclusive minha irmã), transformando as antigas casinhas de madeira, em casa de alvenaria. Algumas destas transformações inclusive levaram à construção de sobrados com dois pisos.  


Umas poucas casas incendiaram ou ruíram. Uma das que ruíram foi a de meu colega da terceira série do antigo primeiro grau, o Sílvio. A casa ficava bem em frente à escola da Cefer II, a Escola Evaristo Gonçalves Neto. O curioso é que o Sílvio era um dos "riquinhos" da turma, aquele que mais aparecia com roupas e tênis novos, cuja roupa era sempre limpinha e engomadinha. Naquele tempo, faz mais de trinta anos, parecia que a casa do Sílvio estava sempre com uma mão de tinta nova. Hoje restam as ruínas daquela casa num terreno semi-baldio.


Na Rua Dois, da Cefer I, uma casa incendiada permitiu que a casa ao lado ficasse com um pátio bem maior do que é o padrão dos quintais da vila.


E há o beco que serve de caminho entre a Cefer I e a Cefer II. Só para pedestres. Uma ponta fica na rua 2 na Cefer I, e a outra na rua 8 da Cefer II.


E a gente fica pensando em quando era criança: "Huummm... aqui era a casa dos avós do Marquinhos (e provavelmente ambos já faleceram)."


"Um pouco mais adiante era a casa da família do Marquinhos. Será que alguém da família ainda mora lá? Acho que não."


"E aqui nesse beco está a casa que era dos pais do Pardal. Puxa, os novos proprietários fecharam a entrada da casa pelo beco!"


No centrinho comercial da Cefer I, um bar com grades substituía um minimercado, e a farmácia que havia ali fechou, dando lugar a um armazém.


Grafites e pixos adornam os muros e paredes. Quando não há isso, há os tijolos de seis furos à mostra, ou o reboco de cimento cru, ou o musgo que cresceu por cima...


As casinhas já não são todas iguais, nem de madeira. A Cefer vive uma próspera decadência.


E eu vou ficando velho...


22/10/2014.

sábado, 8 de novembro de 2014

Diário - cinema - Até que a Sbórnia nos Separe


Diário - cinema - Até que a Sbórnia nos Separe


"Até que a Sbórnia nos Separe" (Brasil, 2013) é um filme de animação baseado livremente no espetáculo "Tangos e Tragédias" que se apresentou por trinta verões no Teatro São Pedro, em Porto Alegre. O espetáculo só parou por conta da morte repentina do músico Nico Nicolaiewsky, levado por uma leucemia fulminante. Tem direção de Otto Guerra e Ennio Torresan Júnior.


O filme conta a história da Sbórnia, a ponta de uma península, ou como diz a narrativa do filme, uma ilha ligada ao continente sulamericano por um istmo, onde seus moradores vivem com seus hábitos peculiares: gostam de música, dormem pendurados pelos pés, torcem fanaticamente nos jogos de machadobol, e sorvem uma bebida feita com uma erva chamada bizuwin.


A ilha passará por muitas mudanças quando a grande muralha que a separa do continente ruir. O bizuwin se tornará objeto da cobiça do capitalista Gonçalo Delacroix. E Pletskaya se cairá de amores por Clocliquot, filha de Delacroix.


Destaque para os músicos Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, que na animação fazem seus papeis de Kraunus e Pletskaya.


A animação foi exibida em 3D, mas me parece que seria melhor para os espectadores que fosse em 2D mesmo. O 3D não melhora muito o filme, e aumenta o preço dos ingressos.


Para nós, porto-alegrenses, é um filme que invoca afetos. O machadobol é uma clara invocação do nosso Grenal. O bizuwin remete à nossa erva-mate. E, claro, temos a lembrança de Nico Nicolaiewsky, que se foi antes do quando pudéssemos esperar.


Por tudo isso, um filme que merece ser visto. Especialmente pelos porto-alegrenses.


03/11/2014.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Diário - cinema - Um Amor de Vizinha


Diário - cinema - Um Amor de Vizinha


"Um Amor de Vizinha" ("And So It Goes", Estados Unidos, 2014) é uma comédia dramática e romântica, sobre a terceira idade. Neste caso traz Michael Douglas como Oren Little, um corretor de imóveis viúvo e prestes a se aposentar. Ele tem um filho junkie, e vive amargurado, e vive implicando com os vizinhos do condomínio onde mora, e do qual, logo descobrimos, é proprietário. Entre esses vizinhos está Leah, vivida por Diane Keaton, uma viúva que atua como cantora em um bistrô local.


A carapaça de amargura de Oren começa a quebrar quando ele descobre que tem uma neta. O filho lhe faz esta surpresa, traz Sarah (Sterling Jerins, uma menina lindíssima, que me lembrou Jennifer Connelly, que, como sabemos, está atuando desde a adolescência), a neta para Oren, e informa que precisará passar uma temporada na prisão. Contrariado, Oren fica com a menina, mas Leah o ajudará nisso.


É um filme interessante por mostrar o protagonismo de personagens velhos, cheios das dores de viver. Basta lembrar que ambos os personagens principais são viúvos, como já foi dito. Há balanços: o que foi feito, o que deixou de ser feito. E há o presente. O que se vai fazer? O que ainda se pode fazer?


É um filme modesto, mas bom. Feito para quem já vai ao cinema há muito tempo, e ainda procura motivos para continuar indo.


03/11/2014.