quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Pequeno Dicionário de Natal

Pequeno Dicionário de Natal


Ano Novo - Celebração que ocorre em seguida ao Natal, o que faz com que muitas vezes, Natal e Ano Novo sejam mencionados juntos. Por exemplo, quando se enviava cartões de Natal, ou quando alguém resolve enviar um emeio. Também no início do Ano Novo, 6 de janeiro, é celebrado o Dia de Reis, quando se desmontam as Árvores de Natal e os presépios.

Boas Festas - Uma maneira de desejar Feliz Natal e Feliz Ano Novo juntos. Ver "Ano Novo"

Ceia - Refeição que se faz na noite da véspera do Natal. Costuma ter como prato principal uma ave, mais tradicionalmente um peru, mas hoje em dia também os superfrangos: chester, bruster ... Pode ser mais farta ou mais frugal, mais sóbria ou mais ébria.

Dezembro - Último mês do ano, no qual é celebrado o Natal.

Déjà vu - Você já viu um glossário como este.

Dia de Reis - Tradicionalmente celebrado no dia 6 de janeiro. Estaria relacionado aos "magos do oriente" que levaram dádivas para Jesus: ouro, incenso e mirra, segundo o Evangelho de Mateus. Em alguns países é nesse dia que são distribuídos presentes. No Brasil, é o dia de desmontar Árvore de Natal e presépio.

Felicidade - Em geral ela é desejada mais na época do Natal. São repetidos os votos de Feliz Natal e Feliz Ano Novo.

Infância - O melhor momento da vida para celebrar o Natal. Desde que nossa família tenha condições de nos dar presentes.


Jesus - Figura polêmica. Segundo as vertentes mais tradicionais do cristianismo, nasceu na Palestina, durante o reinado de Otávio Augusto em Roma, para ser o Salvador do Mundo. Na Bíblia há dois curtos relatos de seu nascimento nos Evangelhos de Mateus, e de Lucas. Para os judeus, apenas um rabino, talvez. Para os muçulmanos, um profeta que precedeu O Profeta, isto é, Maomé. Para os céticos extremos, talvez não tenha existido. Contudo é de se levar em consideração que vivemos no ano 2015 da Era Cristã. Na Bíblia não há menção à data de nascimento de Jesus, de maneira que ele passou a ser celebrado no solstício de inverno, por volta de século III. Ver Natal.

Natal - Data natalícia é relacionada à data de nascimento de qualquer pessoa. Mas com a prevalência do cristianismo no ocidente e oriente próximo, a data em que é celebrado o nascimento de Jesus se tornou "O Natal". Ver Jesus.

Papai Noel - Figura polêmica. Papai Noel, Santa Claus (em inglês, de "Saint Nicholas"), São Nicolau... Dizem que a origem da personagem estaria ligada a um bispo da cidade de Myra, na Ásia Menor, hoje Turquia, no século IV, que tinha fama de generoso, e de distribuir presentes às crianças de sua cidade. Durante a cristianização dos povos germânicos na Europa, a iconografia teria também incorporado a figura do deus Odin. A personagem também foi sendo desenvolvida ao longo do século XIX nos Estados Unidos, e, por fim, recebeu grande impulso aparecendo nas propagandas da Coca-Cola, a partir da década de 1930. De qualquer maneira, Papai Noel, com seus diversos nomes ao redor do mundo, acabou por se tornar uma personificação para o Natal, mesmo maior que o próprio Jesus, haja visto o sucesso que ele faz em países forte sem tradição cristã, como o Japão. Hoje ele está enraizado no imaginário como aquele que circula ao redor do mundo entregando presentes. Ver Jesus e presentes.

Presentes - A época do Natal costuma ser uma época de troca de presentes. Estaria relacionada à narrativa do Evangelho de Mateus, onde diz que "magos do oriente" teriam levado presentes a Jesus: ouro, incenso e mirra. Em alguns países, os presentes são trocados no Dia de Reis (ver Dia de Reis). Presentes costumam fazer a alegria das crianças no Natal. Ver Infância.

Solidariedade - A solidariedade costuma se manifestar nessa época do ano, com muitas pessoas se movimentando para proporcionar um melhor Natal aos menos favorecidos.

Votos - Entre tantos significados no dicionário, o desejo sincero. Na época do Natal se manifesta com as palavras "Boas Festas", "Feliz Natal", "Feliz Ano Novo". Ver Ano Novo e Felicidade. "Os Votos" é também uma excelente crônica de Sérgio Jockymann.
Boas Festas!

Petrov, o Dr. Pacheco, o Big Bang e o Chocotone


De: José Alfredo <JoseAR@emeio.com.br>
Para: Antonio Prata <antonioprata@folha.com.br>
Assunto: Petrov, o Dr. Pacheco, o Big Bang e o Chocotone


Caro Antonio,


Esta é a segunda vez que uso uma crônica sua como trampolim para minhas próprias divagações. Na primeira eu havia comentado como a violência da realidade nos afeta, e como, para alguns, a ignorância é uma bênção. Me desculpe por essas apropriações.


Em sua crônica de domingo passado, 20/12/2015, você comenta de um marinheiro soviético chamado Arkhipov, e de como, ao recusar uma ordem de seu capitão, durante a Crise dos Mísseis em Cuba, em outubro de 1962, ele evitou uma hecatombe nuclear, e hoje podemos estar consumindo à vontade, em lugar de estarmos comendo insetos radiativos no fundo de uma caverna (não que a caverna fosse um destino inevitável num holocausto nuclear. Veja que duas infelizes cidades japonesas receberam bombardeios atômicos, foram reconstruídas, e continuaram a ser habitadas, mas, enfim, continuemos).


Me lembrou a notícia de Petrov, outro soldado soviético, nesse caso um oficial do Exército Vermelho, que não acreditou quando o sistema de defesa soviético indicou um ataque estadunidense a caminho, o qual ele deveria revidar. Ele não revidou. Preferiu esperar mais um pouco. Claro, que se o ataque estivesse mesmo a caminho, e ele esperasse, ele não poderia mais revidar, pois o ataque provavelmente daria cabo dele também. Ele esperou e o mundo não acabou novamente em 1983.


O Doutor Pacheco foi aquele dentista que tomou muitas cervejas e fez com que seu avô encontrasse a sua avó, e disso resultasse uma vasta descendência, do qual você é um neto, e seu filho um bisneto.


"Cazzo" você diz (você queria dizer "foda" ou "caralho" com a expressão italiana?), para concluir que Deus não existe, e que não há lógica no mundo, e que tudo é absurdo.


Mas, veja bem, há pessoas que juntando um mais dois, ou Arkhipov, ou Petrov, e o Doutor Pacheco, e o seu avô, chegariam exatamente à conclusão oposta. É maravilhoso que a coisa tenha sido como foi, e não de outra maneira. E que se seu avô não tivesse encontrado o Doutor Pacheco, você não existiria, e não estaríamos divagando sobre a nossa realidade violenta.


No fim, você afirma que não sabe porque está escrevendo essas coisas. Um místico poderia dizer que foi iluminação divina. Já um neurocientista explicaria por meio de alguma conexão físico química no seu cérebro. Não sei porque você escreveu. Eu escrevi porque você escreveu e me deixou intrigado.


Parodiando Fernando Pessoa, ou Álvaro de Campos, você termina dizendo "comamos chocotones, comamos chocotones porque não há mais metafísica no mundo senão chocotones". Digo que a nossa percepção é falha, e todo o conhecimento da física que temos hoje é coisa de menos de 200 anos, e que antes disso o átomo e o quark eram metafísica. Especulação. O Big Bang nem sempre foi consenso (não estou certo que seja atualmente), mas serve como uma gênese alternativa. A propósito, essas coisas ainda são domínio de muito poucas pessoas relativamente à população mundial, de maneira que os físicos falam e nós, os mortais comuns, precisamos acreditar. E pode bem ser que daqui a pouco algum cientista descubra algo que venha a nos maravilhar. Pois tenho para mim que toda inteligência é ateia, não porque esteja provado que Deus não exista, mas justamente porque não pode ser experimentado, a não ser nas subjetividades de cada um, e cada um está aparentemente livre para rejeitar a hipótese de Deus existir.


Enfim, me parece que sua crônica foi uma maneira paradoxal de desejar Feliz Natal aos seus leitores. Mesmo porque Natal, a celebração do nascimento de Jesus Cristo, na sua crônica não faz muito sentido.


Li em algum lugar que na antiga União Soviética, o ateísmo era uma espécie de profissão de fé na prática (como talvez dissesse Frei Betto, o regime era ateu, não laico). Assim, os soviéticos aproveitavam a mudança de ano para trocar presentes. Talvez fosse uma alternativa.


Se poderia dar outro sentido, e continuar aproveitando os chocotones.


Abraço,


José Alfredo.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Ceia de Natal: convém manter-se hidratado


Ceia de Natal: convém manter-se hidratado


Então é Natal. As pessoas enchendo as lojas atrás dos presentes. A decoração característica, com árvores montadas, estrelas, algum presépio aqui e ali. Algumas igrejas entram no clima e celebram domingos de anunciação, e os cultos das vésperas.
É uma das grande noites de ajuntamento familiar, para aguardar o momento de abrir presentes e comer a ceia.
Ah. A ceia de Natal.
Aquelas mesas bem decoradas com velas, e guirlandas. E com pratos caprichados. E variedade de bebidas.
Podemos começar com as sempre presentes nozes, e as castanhas, sejam as de caju, sejam as do pará. Estas são sempre um bom aperitivo, para iniciar a comer. Ir enganando a fome nos primeiros momentos.
Podem ser acompanhadas por um vinho tinto, não muito forte. Ou pela indefectível Coca-Cola, que provavelmente vai estar a postos para as crianças, ou para os abstêmios. Refrigerantes de baixa caloria também caem bem, por conta de quem diz estar em regime, ou tiver restrições ao consumo de açúcar.
Deverá, claro, haver pratos de frutas descascadas e cortadas. Bananas estão sempre à mão. Maçãs também podem estar presentes. Morangos podem ser encontrados. Melancias e uvas costumavam ser frutas da estação. Hoje podem estão no mercado praticamente o ano todo. E podem estar à mesa. Ao contrário da crença popular melancia com uva não faz mal, exceto se comermos uma melancia inteira, e um quilo de uvas junto. A suculenta manga deve ser descascada e cortada em pedaços, afinal não é muito conveniente ficar chupando manga à mesa de Natal.
Depois podemos ter uma torta fria. Eu acho bom com frango desfiado. Mas tem gente que gosta de acrescentar palmito.
E vamos aos pratos principais.
Para ficarmos sadios, as saladas. Tomates, alfaces, cebolas, todos bem lavados, e cortados. Além dos tradicionais sal, vinagres e azeite, hoje em dias há uma variedade de molhos prontos que podem ser acrescentados à salada: rosé, caesar, parmesão, ... Todos em bisnagas prontas para serem usadas para dar aquele toque especial à salada.
Há o arroz. No Natal, muito arroz à grega é feito. Mas como eu não gosto muito de passas, eu prefiro um arroz de forno, com carne moída, ervilha, milho e ovo cozido picado. Com cobertura de queijo.
E as aves assadas. Acho o peru complicado. Tem seu cozimento lento, e é difícil fazer com que a carne não fique seca e sem gosto no final. Melhor mesmo os tais chester ou bruster, que são versões especiais do frango comum. Carne macia e saborosa, e preparo mais rápido.
E podemos ter até o presunto tender, que eu prefiro feito salgado.
Nesse ponto, entre as bebidas, continuam disponíveis os refrigerantes já citados, e o vinho. Podemos acrescentar os espumantes, mais suave ou mais seco, dependendo dos gostos. E ainda há a cerveja, ou as cervejas, já que agora há toda uma variedade de cervejas artesanais.
E após o principal, passamos à sobremesa.
Nessa época do ano panetone é amplamente distribuído. Mais recentemente temos a sua variação chocotone.
Doce também seria haver nessa mesa um pudim de leite. Pudim de leite bem preparado é ótimo.
Pode haver também as rabanadas, se bem que elas dão bastante trabalho para serem feitas.
Também poderia haver nessa mesa arroz de leite com canela. E torta de chocolate.
Com tudo isso, convém manter em casa remédios digestivos, para o estômago e o fígado, além do ácido acetilsalicílico, nossa popular Aspirina. E muita água para se manter hidratado.  

12/10/2015: Crônica feita durante a Oficina Santa Sede de Primavera 2015, com Rubem Penz. A ideia aqui era juntar uma efeméride com um pecado capital…

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Malala



Malala



Malala ("He Named Malala") é um documentário com produção dos Estados Unidos e dos Emirados Árabes Unidos, que aborda a vida da adolescente Malala Yousafzai, que era uma ativista da educação de meninas em seu Paquistão natal, e que por isso acabou sofrendo um atentado, quase fatal. Contudo, aparentemente ao contrário do que desejavam seus algozes, ela acabou por receber reconhecimento mundial. O filme coloca em contexto tanto a vida de Malala, quanto o Talibã no noroeste do Paquistão, no Vale do Swat, terra natal de Malala.

O início, com uma animação, fala de Malalai, uma adolescente que teria encorajado os afegãos contra os invasores ingleses. Tendo participado da Segunda Guerra Anglo-Afegã, Malalai é uma heroína no Afeganistão, e também entre a etnia pashtu paquistanesa. Malala Yousafzai recebeu seu nome em homenagem a essa antiga heroína afegã.

Após essa espécie de prólogo, o filme fala de sua vida atual na Inglaterra, e seu ativismo, para relembrar sua infância no Vale do Swat, onde fala das cores e dos aromas, sentindo inclusive falta das ruas de chão batido (como pode alguém sentir falta das ruas de chão batido? Me lembro de minha mãe quando morávamos em uma rua de chão batido na Vila Bom Jesus: era respirar pó e cuspir tijolo, dizia ela).

A partir da descrição do Vale do Swat, o filme mostra a infiltração do Talibã na região, com transmissões de rádio, pregando visões estritas do islamismo, e que foi crescendo em poder político e militar à medida em que foi se tornando mais popular. Chegou ao ponto da proibição do consumo de cinema e música ocidentais, e da explosão de escolas para meninas.

Nesse contexto, Malala se tornou uma espécie de correspondente da BBC no Vale do Swat, relatando a situação sob o reinado de fato do Talibã Paquistanês, e comentando sobre ser uma menina, e estudar sob aquelas circunstâncias.

E o filme narra algo sobre o atentado de que ela foi vítima por conta de seu ativismo. Seu ônibus escolar foi parado, e os milicianos perguntaram quem era Malala, que acabou se apresentando. Ela levou um tiro que estilhaçou parte do seu crânio, a deixou surda de seu ouvido esquerdo, e paralisou o lado esquerdo do seu rosto. Os fragmentos de osso do crânio afetaram seu cérebro, que inchou. Ela esteve entre a vida e a morte. Teve uma lenta recuperação, que contou com a ajuda de fisioterapeutas e fonoaudiólogos.

A fama mundial tornou Malala Yousafzai ainda mais ativista do direito à educação para meninas. No filme, ela é vista visitando a Nigéria, onde mais de 200 meninas foram sequestradas em 2014; o Quênia, e a Jordânia, num campo de refugiados da Guerra Civil Síria.

Um número: o filme declara que mais de 60 milhões de meninas estão deixando de receber educação formal, principalmente por conta de conflitos civis, como são os casos, das já citadas Síria e Nigéria, e também na Líbia, ou nessas regiões mais periféricas do Paquistão ou do Afeganistão.

Educação feminina, eis aí um bom motivo de engajamento.


Após a decepção em 2013, Malala foi honrada com o Prêmio Nobel da Paz, em 2014.


28/11/2015 - Crônica feita durante a Oficina Santa Sede de Primavera, com Rubem Penz.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Sessão de Autógrafos na 61a Feira do Livro de Porto Alegre


Sessão de Autógrafos na 61a Feira do Livro de Porto Alegre


Na 61a Feira do Livro de Porto Alegre, finda há nem tanto tempo assim, acabei por ir a duas sessões de autógrafos numa mesma noite. E as situações não poderiam ser mais contrastantes.


A primeira, na própria barraca das sessões de autógrafos estava praticamente vazia.


Compreensível. Um autor regional, com um livro técnico, não atraiu muita atenção. E, sendo um livro técnico, é possível que até os familiares de nosso autor tenham se eximido de marcar presença para prestigiar o autor.


Apesar de sua aparente solidão, o autor parecia animado, e me tratou com toda a cortesia, com uma bela dedicatória. Devo ter sido o primeiro potencial leitor a comparecer.


Depois disso, perguntei sobre uma nova coleção de crônicas, organizada por Rubem Penz, "Cobras na Cabeça", uma homenagem aos quarenta anos das cobrinhas criadas por Luís Fernando Veríssimo. Na banca de venda de livros para serem autografados, informaram que essa sessão de autógrafos seria no porão do Memorial do Rio Grande do Sul, antigo prédio dos Correios, e lá estavam sendo vendidos os exemplares para serem autografados. E estavam mesmo.


Como eu disse, o contraste não poderia ser maior.


Se na barraca de autógrafos, eu senti a solidão do autor cujo livro eu havia comprado, aqui o ambiente era bem outro.


A começar para quantidade de autores. Dezoito (Nesse caso, havia mais autores, que leitores na sessão que eu estivea anteriormente). Cada um tendo trazido parentes e amigos, eu imagino que devia haver bem umas cem pessoas a espera dos autógrafos. Sim, porque uma obra coletiva requer autógrafos de todos os autores. E, ao menos um amigo ou conhecido de cada autor, parava para uma conversinha, um abraço mais apertado, um aperto de mãos mais demorado. Resultado: uma fila que se movia lentamente, bem lentamente.


De quebra, na minha frente na fila estava um adolescente, acompanhando a mãe dele, que não parava de mexer no espertofone, para conferir cada novidade do feice. O rapaz não parecia minimamente interessado no que estava ocorrendo ao redor. Só estava ali para acompanhar a mãe mesmo. Eu me perguntava por que ele não estava circulando, ou sentado em algum lugar, em vez de atrapalhar um pouco mais a fila.


A fila. Como eu disse, ela andava lentamente.

Mas andava. Depois de um tempo que me pareceu demasiadamente demorado, eu havia pego os autógrafos de todos os autores, e, inclusive, perguntado sobre relações de parentesco de uma autora com uma antiga colega de trabalho - o marido da autora era primo de minha ex-colega, mas o relacionamento não era muito próximo. Eu também colaborara um pouco para a fila se arrastar.


Enfim, tempos depois, com dor nas pernas pelo tempo em que permaneci em pé, pude ir embora. Tendo vivido duas experiências bem diferentes nestas sessões de autógrafos.




15/12/2015.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

61a Feira do Livro de Porto Alegre


61a Feira do Livro de Porto Alegre



Desde que pude, comecei a frequentar a Feira do Livro de Porto Alegre, que existia antes de mim, e, possivelmente continuará após mim. Deve fazer mais de trinta anos.


No início, eu gostava muito de garimpar boas ofertas nos balaios. Sempre havia, ainda há, coisas muito boas nos balaios da Feira.


E sempre comprava uma quantidade relativamente grande de livros, algo como mais de dez a cada edição.


Livros são instrumentos de educação; sabedoria, para quem puder encontrá-la; e prazer.


Contudo, eles ocupam espaço. E se você tem muitos livros, você tem muitas partes da sua casa ocupada por livros. Foi o que aconteceu comigo.


Houve um momento em que eu brincava com as pessoas, informando que estava realizando um experimento científico, acumulando livros em casa. Eu estava experimentando quantos livros eu poderia ter em casa, antes de causar o desabamento do prédio em que moro. Brincadeirinha!


Acompanhando a Feira há muitos anos, devo dizer que já vi edições maiores, com mais barracas, e mais gente circulando. Os tempos mudam. Muitos saites da internet oferecem descontos agressivos em livros. A lógica por trás disso é que muitos desses saites vendem de tudo, e se conseguirem atrair o consumidor com um livro a preço baixo, pode ser que este comprador acabe levando também um computador, ou uma TV de tela plana, o que compensa o desconto para o livro, e gera lucro para o saite.


A curva demográfica também está mudando, com a população em geral ficando mais velha, e não querendo sair de casa para ir até a Feira.  Ou talvez já tenha acumulado muitos livros ao longo da vida.


Mas a Feira permanece como um grande evento cultural da cidade. Nas pouco mais de duas semanas da Feira, autores mais e menos famosos realizam suas sessões de autógrafos. Os mais animados, realizam palestras que têm boas audiências. E há mesmo escritores que se permitam compartilhar suas experiências com outros aspirantes a escritores, com oficinas de escrita. E ainda há as apresentações musicais nos finais de tarde, próximos à tenda dos autógrafos.


Comprei alguns livros. Dois de autores portoalegrenses. E três de autores latino americanos, na área internacional. Monterosso, Cortázar, Vargas Llosa, Octávio Paz, Juan Rulfo, tanta gente escreveu tanta coisa boa, que não possível não se comover, tanto pela existência dessas obras, quanto pela impossibilidade de ler tudo em uma vida apenas.


Mas vamos tentando. Tentando ler. E tentando retornar à Feira do Livro de Porto Alegre.


10/12/2015.

sábado, 12 de dezembro de 2015

A Piauí, Michel Laub, a Legião Urbana e eu


A Piauí, Michel Laub, a Legião Urbana e eu






A revista Piauí de setembro/2015 traz um longo artigo de MIchel Laubsobre a Legião Urbana. Em especial sobre um show ocorrido em Porto Alegre, em 1990. Michel Laub mistura suas memórias daquele show, com uma apreciação estética da obra de Renato Russo, e a própria biografia (de Michel Laub).

Ele teve oportunidade de rever aquele show, que está disponível no YouTube. Além disso leu livros sobre a memória do Rock Brasileiro dos anos 1980, biografias da Legião, e o diário de Renato Russo, do período que o cantor passou numa clínica para desintoxicação.

A primeira coisa que me ocorreu foi, como diz a expressão moderna, “explodir a minha cabeça”. Mas como assim? 1990? Na minha cabeça o show da Legião Urbana foi em 1994. Aquele em que estive. Depois é que fui me dar conta que, obviamente a Legião Urbana fez mais de um show em Porto Alegre, e aquele de 1990 era parte da turnê promovendo o disco “As Quatro Estações”. O que estive foi o de 1994, por conta do disco “O Descobrimento do Brasil”.

São notáveis as diferenças de experiência de vida entre mim e Laub nesse caso. Ele é seis anos mais novo que (a acreditarmos no que a Wikipédia diz sobre ele ), mas tem uma narrativa bem legal para sua própria vida.

Ele informa que em 1990, estava no fim do colégio, e passou a admirar mais Renato Russo, quando Russo admitiu nesse show de 1990 que uma das músicas era em homenagem a um ex-namorado.

Aquele foi o último show da Legião a que Laub assistiu, depois do grupo ter sido parte do fim de sua infância, e de toda sua adolescência. Ou seja, ele não foi ao show de 1994, apesar de ainda viver em Porto Alegre naquela época.

E em 1997 se mudou para São Paulo.

Depois Laub vai comentando a bibliografia sobre o rock brasileiro dos anos 1980 (e 1990). Lá estão “Só por Hoje e para Sempre”, o diário de Renato Russo em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos; “As Quatro Estações”, de Mariano Marovatto, um livro sobre a gravação do disco homônimo; “Memórias de um Legionário”, de Dado Villalobos; “O Trovador Solitário”, de Arthur Dapieve - uma biografia de Renato Russo; “O Filho da Revolução”, de Carlos Marcelo, outra biografia de Renato Russo. “Dias de Luta”, de Ricardo Alexandre; e "BRock", também de Dapieve, são outros livros citados. Para seu artigo, Laub informa ainda ter lido (ou, talvez, relido) entrevistas de Renato Russo; visto os filmes sobre sua vida, e vasculhado o YouTube, em sua preparação para o artigo.

Ele comenta as performances da Legião, inclusive um célebre show no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, onde houve quebradeira, detenções e necessidade de atendimento médico para parte do público. Naquele show, segundo Laub, Renato Russo deveria ter agido como um bombeiro, mas tinha seus momentos incendiário (atenção: essas palavras são minhas, pensando ter captado a ideia. Laub não usou estas palavras). Era um comportamento errático, que voltou a acontecer em outros shows.

Então Laub comenta sobre o fim de sua infância e o início da adolescência em Porto Alegre. Inclusive sobre como, sendo um adolescente nos anos 1980, usou tênis iate quadriculado.

E passa a analisar o rock brasileiro daquela época: Barão Vermelho, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Replicantes, Lobão, Lulu Santos, Garotos Podres, Fellini, Titãs, Ira!, Engenheiros do Hawaii, Plebe Rude, Capital Inicial, e, claro, Legião Urbana.
E então passa a fazer análise dos discos da Legião. Todos eles.
Mas quando finaliza, o sentimento é que aquele show no Gigantinho, em 1990, foi o ponto alto da ligação sentimental de Laub com a Legião Urbana, e isso é colocado no artigo. Os amigos com quem ele havia ido àquele show se separaram. Ele não foi mais a shows da Legião Urbana. Depois ele fez faculdade de direito, começou jornalismo sem concluir, e se mudou para o centro do país, onde acabou por se tornar jornalista e escritor.

Por contraponto, em 1990, eu estava no quinto emprego, casado e com um filho bebê. Fazia oito anos que eu trabalhava remuneradamente, tendo enfrentado sete anos de cursos noturnos, inclusive um superior de teologia, que não concluí.

As Quatro Estações” foi o primeiro disco da Legião Urbana que comprei. Lembro de alguma entrevista de Renato Russo, que ele dizia que com esse disco a Legião tinha se tornado algo “mega”. Mas, a partir daí fui mais um dos fãs da banda. Eu tinha então 26 ou 27 anos. Adquiri discos anteriores (acho que já eram “compact discs”, isto é, CD’s). E comecei a comprar os posteriores. Lembro que quando ouvi numa rádio o lançamento da primeira música de trabalho do disco “O Descobrimento do Brasil”, “Perfeição”, pensei com os meus botões, “já não era sem tempo”.

Eu nunca havia ido a um show da Legião, e esse de 1994 foi uma oportunidade. O problema é que quando fui à loja que estava vendendo os ingressos, eles já estavam esgotados.

Em 1994 eu estava com o braço com um gesso, por conta da minha derradeira tentativa de andar de skate. Foi um show em um dia de chuva. E, a exemplo de Laub, eu comprei dois ingressos, um para mim e um para a minha mulher, de um cambista, e um desses ingressos era falso. Apesar de um dos ingressos ser falso foi permitido que entrássemos. O guarda-chuva que levamos ficou numa pilha de guarda-chuvas num dos portões.

Naquela noite, eu acho que já era de domínio público que Renato Russo era portador do vírus HIV. O disco “O Descobrimento do Brasil” recém havia sido lançado. Ele se apresentou com uma longa camisa branca, que parecia uma bata (ou será que era mesmo uma bata?).

Ao contrário do show de 1990 não consegui encontrar nenhuma reprodução do show de 1994 no YouTube. Como lembrou Laub, o show de 1990 no Gigantinho está praticamente todo publicado no YouTube.

E o que me lembro é de um ginásio lotado. O lugar onde tivemos que ficar era atrás (atrás!) do palco. Apesar disso me pareceu extremamente divertido, com aquela atmosfera de culto laico, onde o público cantava junto com Renato. Exceto quando ele cantava as músicas do disco mais recente, que o pessoal ainda não tinha decorado.

Quando Renato Russo faleceu em 11 de outubro de 1996, eu soube no escritório, por meio de uma colega. Pude sentir a mesma amargura que ouvi de um radialista da antiga Rádio Ipanema na noite em que foi divulgada a morte de Kurt Cobain, pouco mais de dois anos antes. Um vasto sentimento de perda.

Procurei por referências a este show de 1994 no Google, mas não encontrei muita coisa. A melhor referência que encontrei, foram as memórias de Micael Machado, no saite Consultoria do Rock. E lá se confirmam algumas coisas ditas aqui, inclusive o Gigantinho totalmente lotado, com gente atrás do palco (eu inclusive). O testemunho de Machado ajuda a estabelecer com acurácia a data do show: 28 de maio de 1994, um sábado de chuva. Outono de Porto Alegre.

Enfim, o artigo de Laub celebra os 30 anos do primeiro disco da Legião Urbana, e os 15 daquele show que ele havia ido. Mas certamente trás de volta lembranças de milhares de fãs do grupo.


09/11/2015.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Diário - cinema - 007 contra Spectre


Diário - cinema - 007 contra Spectre


007 contra Spectre ("Spectre", Estados Unidos, 2015) é o 24º filme oficial da franquia "007", desde 1962 (há outros dois, digamos, não autorizados, Casino Royale, de 1967, e Nunca Mais Outra Vez, de 1983). Neste caso, após uma missão "por conta própria" no México, James Bond descobre, ou redescobre, uma entidade chamada Spectre, responsável por uma série de atividades criminosas ao redor do mundo. Seu líder, Ernst Blofeld (Christoph Waltz), Bond descobre, é seu desparecido irmão de criação. É possivelmente a última participação de Daniel Craig, no papel de James Bond.


Aí temos nossas perseguições, tiroteios e explosões que se tornaram comuns nesses filmes, passando por Londres, Roma, Alpes austríacos e Marrocos.


O filme é cheio de citações históricas à série. Estão lá, por exemplo, o rolls royce de "Goldfinger" (1964), o velho Aston Martin do mesmo "Goldfinger", ou a clínica nos Alpes de “No Serviço Secreto de Sua Majestade" (1969), e a Festa dos Mortos a cidade do México lembra um pouco o início de "Viva e Deixe Morrer" (1973), e a perseguição de um jaguar a um aston martin, como em "Um Novo Dia para Morrer" (2002).


Estes quatro filmes estrelados por Daniel Craig podem ser vistos como uma coleção a parte, dentro do universo de 007. Uma preocupação maior com o verossímil, não muito, mas um pouco. Os criminosos estão à procura de dinheiro, muito dinheiro, pois dinheiro é poder, e assim vão tentando se infiltrar em atividades econômicas lícitas, para cobrir as atividades criminosas, exatamente como o crime organizado faz. No caso dos filmes, é claro, a escala dos crimes se torna muito maior. Bond continua um conquistador, mas parece menos sedutor. Um pouco menos. Por fim, Money Penny tem sua própria vida sentimental, sem ficar esperando eternamente por uma aproximação de James.


Aguardemos o próximo filme da franquia para ver o que acontecerá. Quem viver, poderá ver. 

Quem ver este, e gostar da série 007, há de gostar do filme.


06/12/2015.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Não Controlamos o Destino de Nossos Corpos - Um texto na Piauí de setembro de 2015


Não Controlamos o Destino de Nossos Corpos - Um texto na Piauí de setembro de 2015



Na edição de setembro de 2015 da revista Piauí há um texto muito veemente de Ta-Nehisi Coates, denunciando o racismo nos Estados Unidos, ou como ele diz no texto, "na América". De fato, o texto é líbelo em forma de carta que ele dirige ao seu filho, o menino Samori Coates.


Também é um excerto do livro "Entre o Mundo e Eu", lançado recentemente.


Ateu, Ta-Nehisi Coates renuncia a qualquer narrativa consoladora pós-morte para o escravismo dos Estados Unidos, ou ao racismo decorrente desse escravismo. Como diz no destaque do texto, os corpos dos escravos foram transformados em açúcar, algodão, tabaco e ouro para os senhores dos escravos.


A denúncia se mistura com as lembranças de Ta-Nehisi. Ele fala da Universidade Howard (uma universidade fundada na segunda metade do século XIX, em Washington, D.C., para fornecer educação superior a negros, inicialmente para formar teólogos ou pastores, e logo depois todo tipo de artes e ciências. Segundo uma nota do texto, ainda hoje cerca de 80% do corpo discente é composto de alunos negros), onde ele estudou, e conheceu muita gente. Inclusive a mãe de seu filho.


Ele lembra especialmente de um jovem chamado Prince Jones. Alto, magro, de pele clara para os negros dos Estados Unidos, Prince Jones era uma cristão evangélico, e visava construir para si uma carreira acadêmica.


A verdade é que a gravidez da mãe de Samori fez com que Ta-Nehisi precisasse se deslocar mais pelos Estados Unidos. E é então que ele fala da polícia do condado de Prince George. Ele comenta sobre essa polícia, numa lembrança de um dia ter sido parado por ela, e lembrar uma série de arbitrariedades praticadas por essa polícia, o que nos faz pensar que não é apenas no Brasil que a polícia tem seus suspeitos preferenciais, e justifica suas arbitrariedades e execuções montando cenas de "resistência".


E é então que Ta-Nehisi percebe que um outro assassinato por parte da polícia do Condado de Prince George foi a de Prince Jones.


Prince Jones, o rapaz que queria ser acadêmico, o rapaz que tentava cumprir aquilo que se diz dos negros norte-americanos, que, para vencer o preconceito e ter sucesso na vida, eles precisavam se esforçar duas vezes mais.


Prince Jones foi baleado por um policial numa estrada perto de Washington, e a única testemunha do assassinato foi o próprio policial. Em sua defesa o policial alegou que Prince Jones teria tentado atropelá-lo. Ta-Nehisi se pergunta porque Prince Jones teria interesse em desistir de sua carreira acadêmica para se tornar um atropelador de policiais.


A partir desse ponto tudo é denúncia no texto, que afirma que, assim como os negros que foram escravos no passado estavam à mercê de seus proprietários, os negros de hoje nos Estados Unidos não controlam o destino de seus próprios corpos, pois estão à mercê das forças do Estado, que fazem o controle social dos negros, inclusive, sim, matando alguns deles.


Uma triste denúncia, um líbelo contra o preconceito. E uma advertência ao filho dele.


Diário - cinema - Ponte dos Espiões


Diário - cinema - Ponte dos Espiões



"Ponte dos Espiões" ("Bridge of Spies", Estados Unidos, 2015) é um filme sobre um advogado estadunidense que se vê envolvido nos bastidores da espionagem da Guerra Fria.


Tudo começa com a caçada do FBI a um espião russo infiltrado em Nova York. Rudolf Abel (Mark Rylance) supostamente é este espião. Ele se disfarça como um artista amador. O filme não mostra nada sobre ele, a não ser possuir um estúdio cheio de equipamentos de comunicação (para interceptar comunicações nos Estados Unidos?), e receber uma mensagem cifrada dentro de uma moeda oca.


Ele é preso, e James Donovan (Tom Hanks), um advogado de uma seguradora, é convocado pela American Bar Association, a OAB dos Estados Unidos, para defendê-lo.


A beleza da coisa é que Donovan é apresentado como um idealista que irá levar seu trabalho a sério, contra o clamor da opinião pública, e mesmo contra um juiz de manifesta parcialidade. Jim Donovan é mais idealista do que os americanos se apresentam em Jornada nas Estrelas, a série original.


Depois, quando os russos oferecem uma troca de espiões, a ser feita em Berlim, num dos picos da Guerra Fria, isto é, durante a construção do Muro que separou a cidade por quase trinta anos, lá se vai Donovan para negociar, com aval do Governo dos Estados Unidos, mas não muito apoio. No clima barra pesada da Guerra Fria, Donovan realmente permanece fiel aos seus ideais, e tenta cumprir a missão que lhe foi dada da melhor maneira possível. Ao menos no filme.


Enfim, um bom dois filmes, uma história em Nova York, outra história em Berlim. Com o idealismo spilberguiano para aliviar um assunto que tende a ser muito pesado. Mais um filme para Tom Hanks brilhar, sem grandes competidores em cena.


06/12/2015.

domingo, 6 de dezembro de 2015

O mundo sempre andou complicado


De: José Alfredo <JoseAR@emeio.com.br>
Para: Antonio Prata <antonioprata@folha.com.br>
Assunto: O mundo sempre andou complicado

Caro Antonio,


Tenho acompanhado a sua produção cronística na Folha de São Paulo. A de 22 de novembro próximo foi muito tocante, ao falar da felicidade de um amigo alheio às últimas notícias. É a velha reafirmação da ignorância como uma bênção.


Leio suas palavras sobre a queixa da mãe do menino assassinado no Complexo do Alemão, cujo inquérito da polícia civil declara que os policiais militares agiram no legítimo cumprimento de sua missão. Ou sobre os estragos produzidos pala torrente de lama decorrente do rompimento de uma barragem de rejeitos de minério de ferro, num distrito da cidade mineira de Mariana. Ou ainda sobre o ataque terrorista a Paris.


Então você se lamenta sobre a omissão dos homens. Omissão que sempre houve: você relata o esforço de um homem no Gueto de Varsóvia escrevendo para autoridades de diversos países, denunciando a situação, e pedindo intervenção, intervenção esta que nunca veio, tendo o Gueto sido arrasado pelos nazistas, após breve resistência.


Mas parece que as coisas são assim. Você lamenta a si mesmo, quando ao ler sobre um atentado na Nigéria que matou 45 pessoas, não se sentir tão tocado, apenas, digamos, desconfortável.


Infelizmente (ou felizmente para nossa pretensa sanidade mental) parece que somos mais capazes de empatia com algumas situações do que com outras.


Isso pode explicar a comoção intensa com os atentados em Paris, e a quase omissão com atentados na Nigéria. Paris, um dos destinos turísticos mais procurados, é uma cidade com que pessoas do mundo todo podem se identificar, e se deixar comover. Já a Nigéria, um país cujo território foi forjado na prática pelo colonialismo inglês, e uniu etnias com divergências históricas, nunca parece ter deixado de estar em guerra civil de maior ou menor intensidade; um lugar exótico e distante, que quase não nos toca.


Talvez seja essa falta de empatia também que, entre outros fatores, nos torne o país com o maior número absoluto de assassinatos no mundo, e entre os vinte maiores em número proporcional.


Talvez a ignorância seja mesmo uma bênção. Mas sua crônica declara que você continua procurando saber, e denunciando, o que ocorre. Apesar da sua, da nossa, impotência.


Um abraço,


José Alfredo.


30/11/2015 - Crônica feita durante a Oficina Santa Sede de Primavera, com Rubem Penz.