segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Assistindo o Oscar 2015


Assistindo o Oscar 2015



Fiquei assistindo a entrega do Oscar, edição de 2015.


O de sempre. Umas piadinhas, algumas músicas.


Nas principais premiações, Melhor Atriz para Julianne Moore, por “Still Alice”; Melhor Ator para Ed Redmayne, por “A Teoria de Tudo”; Direção para Alejandro Iñarritu, por “Birdman”; e melhor filme para “Birdman”. Hollywood adora uma metalinguagem, e espelhos.


Mas eu gostei mesmo que o documentário “Citizen 4”, de Laura Poitras, sobre o vazador de informações Edward Snowden tenha ganhado o Oscar.


Faz algum tempo eu havia comentado aqui como haviam ficado as coisas nos Estados Unidos, desde o Governo George W. Bush, e de como Laura Poitras era constantemente constrangida quando passava pelos aeroportos da América (“land of the free”, como diz o hino), segundo reportagem publicada na revista Piauí, edição de setembro de 2013. Parece que a Academia de Hollywood resolveu premiar alguém que, de fato, luta pela liberdade de expressão.


Ah sim. Houve um discurso da presidente da Academia falando de liberdade de expressão. Mas parece que Michael Moore, Tim Robbins e Susan Sarandon já foram banidos da apresentação do Oscar, justamente por terem proferido discursos, huummm,... “politicos”. Nesse caso a liberdade de expressão danou-se.


Fora isso, o de sempre: umas piadinhas, algumas músicas, palmas, discursos emocionados, ...


22/02/2015.

Atualização: corrigi o nome do vazador de dados - Edward Snowden. Edward Norton é ator. e estava concorrendo como ator coadjuvante ontem. Confusão minha. Gracias, Guerreiro!

Diário - cinema - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) - versão dois: comentando detalhes


Diário - cinema - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) - versão dois: comentando detalhes


Atenção: pode conter "spoilers", embora o final não seja revelado.


Já se vão alguns dias desde que assisti o filme "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" ("Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)", Estados Unidos, 2014), com direção de Alejandro Iñarritu.


Neste filme, Michael Keaton vive Riggan Thomson, ator que ficou muito conhecido na década de 1990 por ter encarnado "Birdman", personagem principal de uma trilogia de filmes de super-herói, e que agora está envolvido na produção teatral de uma peça do dramaturgo Raymond Carver. A peça se chama "What We Talk About When We Talk About Love", algo como "Sobre o que estamos falando quando falamos de amor".


É uma espécie de tentativa de reinício para Thomson, e ele vai fundo, é produtor, diretor e ator principal na montagem da peça. E ele está gastando suas economias nisso, de maneira que uma falência pessoal é algo muito possível. Além disso ele tem que lidar com a filha recém saída de tratamento contra drogas, Sam (Emma Stone); com a namorada Laura (Andrea Riseborough), que está no elenco da peça; e com o parceiro da peça, recém contratado, que tem um ego maior que um portenho de piada, Mike Shiner (Edward Norton). Também participam do elenco Naomi Watts, como Leslei, outra atriz da peça que está sendo montada; Zach Galifianakis, como Jake, assistente e advogado de Thomson; e Amy Ryan, como Sylvia, ex-mulher de Thomson e mãe de Sam.


Também podemos pensar que Thomson tem problemas mentais, pois o Birdman, a personagem que ele encarnou há 20 anos, está constantemente provocando Thomson para viver mais uma continuação daquele papel no cinema, o que é muito tentador, pois, possivelmente poderia causar uma redenção financeira para ele, além de saciar o desejo de milhares de fãs da série.


O filme tem uma câmera ambulante que segue os atores na filmagem. As tomadas feitas dentro do teatro são, em geral, claustrofóbicas e escuras. E o filme produz a ilusão de ter sido feito em apenas uma tomada de cena, sem a percepção dos cortes.


Um filme que fale de cinema e teatro é cheio de metalinguagem. E neste caso em especial, tem até seus momentos de fábula, como numa sequência logo no início em que Thomson está levitando no camarim, enquanto aguarda um momento de ensaio.


E claro, o filme aproveita para falar do mundo das artes de atuação, cinema e teatro.


Um dos grandes momentos do filme é quando Sam, a personagem de Emma Stone discute com o pai, depois que ele a flagra logo após ela ter consumido um baseado. Ele reclama da reabilitação dela, e por algum motivo a conversa descamba para a peça. E lá pelas tantas Sam diz que as pessoas virão à peça sem se preocupar muito com o drama representado no palco, e como isso afetaria suas vidas. Os espectadores estão mais preocupados, de fato, com o lugar em que comerão após a peça, diz Sam.


Em outro momento, um dos tantos em que Thomson fala consigo mesmo atrávés do Birdman, a personagem, Birdman, provoca Thomson para filmarem um novo capítulo da série, para que as pessoas corram aos cinemas, para fugirem da rotina medíocre que vivem a cada dia.


Há um momento de ironia, em que Shiner, o personagem de Edward Norton, entra com Thomson num bar. No bar, Shiner diz a Thomson que ele é um desconhecido, que ninguém iria ao teatro por causa dele. Mas o diretor se permite uma dupla ironia. Quem é abordado por uma fã, é justamente Thomson. Mas a ironia é dupla. A fã que aborda Thomson é uma senhora chegando à meia idade. Uma fã de Thomson quando ele era o Birdman, nos anos 1990.


E há a crítica de teatro. Uma senhora amargurada que escreve suas resenhas à mão em um bloco de papel no balcão de um bar. De fato, o filme critica a critica teatral. No filme a mulher declara que está pronta para detonar a peça, assim que estrear, pois não pensa de Thomson como um ator, mas como uma celebridade, uma pessoa sem talento que estrelou filmes em que basicamente não precisava atuar. Thomson contrapõe que na crítica da mulher não há análise da peça, apenas opiniões. Opiniões que qualquer um pode dar, mas que, no caso dela eram amplificadas porque publicadas em um jornal.


Foi um dos melhores filmes que vi recentemente.

18/02/2015.

Diário - cinema - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)


Diário - cinema - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)



Já se vão alguns dias desde que assisti o filme "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" ("Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)", Estados Unidos, 2014), com direção de Alejandro Iñarritu.


Neste filme Michael Keaton vive Riggan Thomson, ator que ficou muito conhecido na década de 1990 por ter encarnado "Birdman", personagem principal de uma trilogia de filmes de super-herói, e que agora está envolvido na produção teatral de uma peça do dramaturgo Raymond Carver. A peça se chama "What We Talk About When We Talk About Love", algo como "Sobre o que estamos falando quando falamos de amor".


É uma espécie de tentativa de reinício para Thomson, e ele vai fundo: é produtor, diretor e ator principal na montagem da peça. E ele está gastando suas economias nisso, de maneira que uma falência pessoal é algo muito possível. Além disso ele tem que lidar com a filha recém saída de tratamento contra drogas, Sam (Emma Stone); com a namorada, Laura (Andrea Riseborough), que está no elenco da peça; e com o parceiro da peça, recém contratado, que tem um ego maior que um portenho de piada, Mike Shiner (Edward Norton). Também participam do elenco Naomi Watts, como Leslei, outra atriz da peça que está sendo montada; Zach Galifianakis, como Jake, assistente e advogado de Thomson; e Amy Ryan, como Sylvia, ex-mulher de Thomson e mãe de Sam.


Tambem podemos pensar que Thomson tem problemas mentais, pois o Birdman, a personagem que ele encarnou há 20 anos, está constantemente provocando Thomson para viver mais uma continuação daquele papel no cinema, o que é muito tentador, pois, possivelmente poderia causar uma redenção financeira para ele, além de saciar o desejo de milhares de fãs da série.


O filme tem uma câmera ambulante que segue os atores na filmagem. As tomadas feitas dentro do teatro são, em geral, claustrofóbicas e escuras. E o filme produz a ilusão de ter sido feito em apenas uma tomada de cena, sem a percepção dos cortes.


Um filme que fale de cinema e teatro é cheio de metalinguagem. E neste caso em especial, tem até seus momentos de fábula, como numa sequência logo no início em que Thomson está levitando no camarim, enquanto aguarda um momento de ensaio.


Foi um dos melhores filmes que vi recentemente.


18/02/2015.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Indo Assistir ao XLIX Super Bowl no Cinema


Indo Assistir ao XLIX Super Bowl no Cinema


No dia primeiro de fevereiro, tive oportunidade de assistir no cinema à 49ª Edição do Super Bowl, a superfinal do campeonato de futebol americano, realizada no estado do Arizona. Nesta edição do Super Bowl, New England Patriots e Seattle Seahawks se enfrentaram.


Para quem não conhece o futebol da bola oval bicuda, cujos jogadores usam capacetes com grades de proteção facial e ombreiras, funciona assim: a NFL - National Football League é composta por duas associações, a conferência americana (“AFC” ou “American Football Conference”) e a conferência nacional (“NFC” ou “National Football Conference”), cada uma tem dezesseis times, que jogam entre si na temporada que dura de setembro a janeiro. Cada uma das conferências tem um campeão, e estes campeões jogam entre si na final (a "superfinal"), conhecida como "Super Bowl".


Um jogo de futebol americano é composto de quatro períodos de 15 minutos. Se a bola sai, ou um jogador sai de campo carregando a bola, ou é atirado para fora do campo quando conduzia a bola, o cronômetro para. Os times se revezam no ataque e na defesa, e normalmente cada time tem onze jogadores para defesa, e onze jogadores de ataque. E o jogo consiste basicamente em tomar território do adversário. Se conseguir invadir as últimas dez jardas, a "end zone", do território adversário consegue a maior pontuação, o "touch down" que vale seis pontos. Se conseguir chutar por cima do "y" adversário faz três pontos, o "field goal". Há outra formas de pontuar, "extra point", um ponto a mais logo após o "touch down", "mini touch down", que vale dois pontos quando o time atacante consegue penetrar novamente na "end zone" do adversário logo após o “touch down”, e o "safety", quando um jogador é derrubado com a bola dentro de sua própria "end zone".


Tenho assistido aos jogos do futebol americano desde que começamos a ter TV por assinatura em casa, lá por 2007/2008.


Desde então simpatizo com o time do New England Patriots. Provavelmente porque era o time que estava ganhando naquela época. Depois disso há muitas racionalizações para a simpatia. Por exemplo, constatar que a região de Massachusetts é uma região de forte migração brasileira nos Estados Unidos, ou que, apesar do nome ufanista, os Patriots representam os patriotas da Guerra de Independência dos Estados Unidos, e não os imperialistas de após segunda metade do século XIX. Mas são mesmo racionalizações, enfim.


E eu não gosto do Seattle Seahawks. Também um sentimento totalmente irracional. Sei que não simpatizo com o quarter back dos Seahawks, Russell Wilson, mas não sou capaz de explicar porquê. Eu precisaria ser analisado.


Para chegar ao Super Bowl, os Seahawks venceram o Green Bay Packers. O que achei uma lástima. Eu gosto dos Patriots, e simpatizo com os Packers. Num jogo entre Patriots e Packers eu nunca sairia triste. Num jogo entre Patriots e Seahawks, eu ficaria chateado com uma derrota dos Patriots.


Em 2007/2008 os Patriots fizeram uma campanha memorável. Ganharam quase todos os jogos que disputaram. A lamentável exceção foi justamente a derrota para o New York Giants, no Super Bowl XLII.


Depois disso, assisti às temporadas subsequentes, e, sempre que possível, o "Super Bowl", pela televisão.


Este ano foi diferente. Por deferência de minha esposa, que pagou os ingressos, fomos assistir ao jogo no cinema.


E é uma experiência interessante.


Logo na entrada havia dois jovens com a camiseta do Aaron Rodgers, o principal jogador do Green Bay Packers. O Green Bay Packers não foi ao Super Bowl porque foi derrotado pelo Seattle Seahawks, como foi dito acima. Pude ver um rapaz com camiseta do Patriots. E ainda um com camiseta do Pittsburg Steelers, que também não chegou ao Super Bowl. Pouco antes do início do jogo vi entrar no cinema um rapaz com camiseta do Seattle Seahawks. Ele estava acompanhado de um outro com camiseta do Grêmio Portoalegrense.
Ou seja, há bastante gente interessada no futebol gringo por aqui. Inclusive com interesse o suficiente para comprar camisetas e bonés dos times da competição. Muitos reunidos numa sala de cinema em sua admiração pelo jogo da bola oval bicuda.


Mas assistir uma partida de futebol americano pode ser uma atividade cansativa. Como eu disse, são quatro tempos de 15 minutos, com um intervalo de cerca de 15 minutos entre o segundo e o terceiro quartos. Em tese, setenta e cinco minutos. Contudo, como o cronômetro é parado em diversas circunstâncias ja explicadas, não é incomum que um jogo dure mais de  três horas. Assim, pense que o cinema abriu a sala por volta de 20h30min. Às 21h começou a transmissão da ESPN Brasil para o cinema. Por volta de 21h30min começou o jogo, que terminou logo após à 1h da madrugada.


A equipe de transmissão foi composta pelo narrador Rômulo Mendonça, e pelo comentarista Paulo Mancha. Paulo Mancha é um especialista em futebol americano da emissora. Muitos dos textos que expõem a história, e os times do esporte na ESPN Brasil são redigidos por ele. E Rômulo Mendonça é um narrador com tremenda verve humorística. Para quem acompanhou pela televisão, a equipe foi composta pelos mais tradicionais e menos histriônicos, Everaldo Marques, narrador, e Paulo Antunes, comentarista.


E, resumindo muito, o primeiro tempo (primeiro e segundo quartos) do jogo foi de 14 pontos para cada equipe. O segundo tempo (terceiro e quarto quartos) foi de 14 pontos para os Patriots, e 10 para os Seahawks. Placar final: Patriots, 28; Seahawks, 24. Um jogo equilibrado e cheio de emoções.


O primeiro ataque dos Patriots se frustrou à beira da End Zone, quando um passe de Tom Brady para touch down foi interceptado. Depois o Patriots conseguiu fazer 14 pontos, enquanto os Seahawks tinham apenas 7, mas tinham a posse da bola, e menos de um minuto para atacar. Pois os Seahaeks conseguiram pontuar em menos de um minuto, e levaram o empate para o intervalo.


No intervalo, uma apresentação de Katy Perry. Faz tempo que as apresentações no intervalo do Super Bowl são espetáculos musicais impressionantes. Com Perry não foi diferente, em cerca de vinte minutos a moça cantou e encantou. Terminando seu mini show com "Firework", e, sim, com fogos de artifício fechando o show.


O segundo tempo traria mais emoção. Próximo do final, o jogo estava 28 a 24 para os Patriots, mas o Seahawks atacavam. E quando faltava pouco mais de um minuto para o final do jogo, o quarter back dos Seahawks fez um longo lançamento, o lançamento foi interceptado pela defesa dos Patriots, parecia que era um passe incompleto, mas a bola caiu na barriga do atacante do Seahawks, Kearne, e ele agarrou a bola, um passe mágico. Quase inacreditável.  Com isso os Seahawks ficaram a uma jarda da end zone, e dificilmente não virariam o jogo, ainda mais depois de um lance de sorte como esse.


Contudo, no lance do jogo, o defensor dos Patriots, Malcolm Buttler, conseguiu ler a intenção de Russell Wilson, e interceptou o passe destinado a Ricardo Lockette. Isso a 20 segundos do final do jogo. Uau!


Para quem aprecia o esporte, foi um jogaço, com muita emoção até o final.


E eu fiquei especialmente feliz por ter visto os Patriots vencer.



12, 19/02/2015.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Lupi, O Musical - Uma Vida em Estado de Paixão


Lupi, O Musical - Uma Vida em Estado de Paixão



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Dia 31 de janeiro, estivemos no Theatro São Pedro, aqui em Porto Alegre, para assistir à peça "Lupi, o Musical".


Trata-se de uma peça musical que aborda a vida e obra do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, que fez sucesso principalmente nos anos 1940 e 1950, embora até hoje canções suas sejam regravadas. Posso lembrar regravações recentes de Adriana Calcanhotto, ou de Thedy Correa. Na peça há um momento em que o personagem Lupicínio comenta que a rádio que ele está, só o está entrevistando porque Caetano Veloso havia recentemente gravado uma versão da música dele, "Felicidade".


Então o musical aborda a vida, mas principalmente a obra de Lupicínio.


Entre os destaques, o nascimento em uma noite de tempestade, sendo o primeiro menino da família. O serviço militar em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, onde, segundo a peça, teve seu primeiro grande amor. A parceria, e depois rivalidade, com o jornalista Alcides Gonçalves.


E, claro, as canções. "Felicidade", já citada; "Nervos de Aço"; "Cadeira Vazia"; "Nunca"; "Ela disse-me assim"; "Maria Rosa"; "Vingança"; "Esses Moços, Pobres Moços"; "Se acaso você chegasse"; e outras. Destaco essas porque eram as que eu costumava ouvir durante minha infância. Meu pai era fã de Lupicínio. Às vezes ele ouvia discos, embora isso não fosse a coisa mais trivial para ele (toca-discos era uma tecnologia que ele só veio a conhecer na velhice). Mas era comum ouví-lo cantarolando os versos de Lupicínio. Era fácil em algum desentendimento com minha mãe que ele saísse cantarolando "Nervos de Aço".


Um elenco esforçado procurou trazer aquele mundo de meados do século passado até nós. Destaques para Gabriel Pinto e Juliano Barreto, as duas encarnações de Lupicínio em cena, e Lucas Krug, que faz o papel de Alcides Gonçalves. Entre outros personagens Pamela Amaro encarna Elza Soares, e Nani Medeiros Elis Regina. Além deles, compõem o elenco Nadya Mendes, Cintia Ferrer, Gabriel Pinto, César Pereira, e Raul Voges.


O teatro estava cheio, mas não lotado, como esteve em outras ocasiões neste verão. Talvez culpa do final de semana prolongado, propiciado pelo Feriado da Senhora dos Navegantes.


Na plateia, uma maioria de jovens de outrora, um pessoal que talvez tenha ouvido as canções de Lupicínio no seu auge, ou, como eu, que ouviam seus pais cantarolando as músicas de Lupi e achavam beleza nisso. Em alguns momentos, essa plateia cantou junto as canções de Lupicínio que se sucediam no palco.


Eu diria que a peça é um belo resgate, mais um, da obra de Lupicínio Rodrigues.

09/02/2015.

25 anos hoje - relembrando a morte de meu pai


25 anos hoje - relembrando a morte de meu pai


Foi em 1990, 4 de fevereiro.


Eu tinha pouco tempo de casado, menos tempo ainda de paternidade. Tinha vinte e poucos anos.


Na minha cabeça, era um final de semana.


Fazia pouco mais de dois anos que meu pai havia sido diagnosticado com câncer de pele, melanoma. A primeira cirurgia havia sido para extirpar um tumor no calcanhar dele, um tumor que aparentemente era do tamanho de meia bola de pingue-pongue. Os médicos também retiraram gânglios das virilhas dele.


Minha mãe demorou a contar sobre o diagnóstico. Inventou para mim uma improvável infecção fúngica que estava consumindo o calcanhar de meu pai.


Tempos depois meu pai ainda passaria por mais dois procedimentos, para retirada de pequenos tumores que apareceram no rosto, e nas costas.


Apesar do diagnóstico, e do prognóstico ruim, afinal este era um câncer de pele dos mais agressivos, nos primeiros tempos não parecia que a vida ou o humor de meu pai tivessem mudado muito em relação ao que era antes. Um homem quieto, reservado, que gostava de beber para relaxar, que tinha um relativo bom humor, e gostava das musicas da juventude dele, em especial das composições de Lupícinio Rodrigues.


Se não me engano, a primeira cirurgia foi no inverno de 1987. Como eu disse, o humor parecia o mesmo, mas ele foi sucumbindo à doença. Houve os novos tumores, depois a perda de apetite, depois a icterícia, o que significava que devia haver tumores no fígado.


Sei que em outubro de 1989, no aniversário de primeiro ano de meu filho e neto dele, quando o levei para casa após uma festinha para amigos e familiares, quando tentei ajudá-lo a entrar em casa, e segurei o braço dele, senti aquele braço, muito, muito fino.


Com a chegada do verão, meu pai continuou definhando.


A principal cuidadora dele era minha mãe. Eu e minha esposa ajudávamos como podíamos, e à medida que minha mãe pedia ajuda. Minha mãe também contava com a boa vontade de alguns vizinhos.
Sei que naquele início de fevereiro, a situação se tornou crítica. Pelo que me lembro, a minha mãe me chamou para ajudá-la na sexta e no sábado. Até a sexta-feira meu pai ainda conseguia se locomover. Meio hesitante, mas conseguia.


No sábado, já não conseguia mais. E minha mãe pediu ajuda.


No domingo, a situação só piorou. Meu pai ia perdendo a consciência, e minha mãe começou a sentir a respiração dele cada vez mais fraca. Nós o estávamos perdendo.


E assim foi naquela tarde de domingo… A respiração cada vez mais fraca, mais fraca, até que meu pai expirou.


Minha mãe chorou, e não me lembro o que aconteceu com ela.


Eu comecei a chorar. Lembro que meu tio, irmão caçula de minha mãe estava lá para ver como estava o cunhado, ajudar a irmã. Ele tentava me consolar.


Mas meu único pensamento era que eu queria chorar. E não queria ser consolado. Eu queria poder chorar, e ficar um pouco com meu morto, com meu pai.


Mas minha mãe, muito ciosa e muito formal não me deixou. Era preciso providenciar o velório e o enterro. Logo combinou com o vizinho para procurar uma funerária, cujos custos estivessem ao alcance da família. Quanto vale um morto?


Era preciso avisar minha irmã, que estava morando fora do estado.


Era preciso reservar a capela do cemitério.


Era preciso avisar parentes, amigos e conhecidos naqueles tempos sem telefones móveis, nem correios eletrônicos, nem redes sociais…


Era preciso tanta coisa.


Mas a única coisa necessária mesma foi negligenciada. Pelo menos na minha cabeça foi assim. Chorar o morto, segurar o morto. Despejar as lágrimas da despedida.


Depois devanear. Se iludir: - “e se a gente tivesse levado ele para o hospital? e no hospital tivessem colocado ele em respirador artificial, e alimentado ele por soro? Será que ele não viveria mais algum? Não permaneceria mais um tempo conosco?” -  Ilusões...


Depois percebendo a cada vez que eu visitava minha mãe: Não, ele não esta mais aqui. Não eu não vou vê-lo mais. Não. Não. Ele se foi mesmo.


Não mais.


E assim se passaram vinte cinco anos. Minha mãe mesmo, se foi pouco mais de cinco anos após. Meu filho que era um bebê então, hoje é adulto. E assim se passaram vinte cinco anos…

04/02/2015.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Uma queda


Uma queda



Porto Alegre, verão de 2015 - ou seria de 2014-2015, já que o verão no hemisfério sul começa em um ano e termina no ano seguinte, a exemplo do inverno no hemisfério norte de nosso planetinha?


Não importa. É fevereiro, e eu estou contando os dias para as minhas férias.


Vou para o trabalho, na Praça da Alfândega, numa repartição ali perto. Venho da zona sul da cidade. Deixei a lotação numa travessa da Salgado Filho e vim, tranquilo, escutando música no celular.


De repente, na Rua da Praia, quase esquina da Ladeira, começo a ouvir o som de algo despencando, como se algo (um pedaço da fachada?) estivesse caindo de um desses prédios altos aqui.


E então o susto. Não era um pedaço da fachada. Era o corpo de uma mulher. Uma mulher jovem, não mais de trinta anos. Roupas claras. A bolsa cai mais adiante. O corpo fez um impacto seco no chão. Fica todo desconjuntado. A cabeça com o rosto virado para o lado. Não há uma grande hemorragia. Não se forma uma poça de sangue ao redor do corpo da mulher.


Que aconteceu? A mulher se jogou? Alguém a atirou?


Ligo para a Brigada e para o SAMU, mas sei que é inútil. É evidente que não há chance da mulher estar viva, ou ser recuperada por uma equipe médica de emergência.


Sigo para o meu trabalho.


O dia vai ser pesado. A vida vai ficar mais pesada. Nunca mais vou me esquecer desse episódio.


E a manhã deste verão parecia tão promissora… Nem estava tão quente, nem tão úmida como costumam ser alguns dias do verão de Porto Alegre.


Depois ouço sirenes. Polícia, perícia e medicina legal comparecem.


Os meios de comunicação hegemônicos fizeram blecaute da notícia. Dos diários da cidade, Zero Hora, Diário Gaúcho, O Sul, Jornal do Comércio, ninguém noticiou. O tabu dos suicidas…


Vai virar fofoca. Comentário entre as pessoas. Talvez um suspiro rápido nas redes sociais na Internet. E logo será esquecido.


Eu não esquecerei. Embora bem quisesse…




04/02/2015.

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domingo, 8 de fevereiro de 2015

As Páginas do Diário do Centro do Mundo são um horror!


As Páginas do Diário do Centro do Mundo são um horror!




Mas não se engane, eu gosto delas. Eu gosto do conteúdo exposto nas páginas do Diário do Centro do Mundo, as quais costumam dar pontos de vista diferentes dos da mídia familiar-burguesa do Brasil sobre os assuntos do momento.


A midia familiar-burguesa é conhecida: Folha de São Paulo e UOL (família Frias); jornal O Estado de São Paulo (família Mesquita); Editora Abril e revista Veja (família Civita); jornal O Globo, revista Época, e TV Globo e suas afiliadas (família Marinho). São secundados por grupos menores, regionais, como o grupo RBS no sul do Brasil, com retransmissoras da TV Globo e uma série de jornais o impressos, sendo os principais Zero Hora no Rio Grande do Sul, e Diário Catarinense em Santa Catarina (familia Sirotski).


Um dos assuntos do momento são os desvios na Petrobrás, assunto sentido de forma quase abstrata pela população, mas bastante explorado por essa suposta grande mídia, e causador de grande revolta entre a população, de tal modo que há muita gente que acredita que os desvios e superfaturamento de contratos começaram em 2003, com o PT. Seria totalmente abstrato não fossem os recentes aumentos de combustíveis, que ficam automaticamente associados a esses desvios, embora, de fato, sejam causados pelo reinício da cobrança da CIDE, e pelo realinhamento de lucro por parte dos empresários que exploram a distribuiçao de combustíveis.


O outro grande assunto é a crise hídrica em São Paulo, este sim, sentido de maneira bem concreta pela população paulista, mas que raramente é mostrada como decorrente da semiprivatização da empresa de saneamento do estado de Sâo Paulo, e sua prioridade ao lucro e aos dividendos aos acionistas, e sua pouca capacidade de planejar a distribuição para momentos de escassez. Em tese, o grande responsável pela crise hídrica em São Paulo, seria o PSDB, partido que há 20 anos governa o estado. Mas isso quase não é citado.


Pois bem, o Diário do Centro do Mundo procura noticiar e comentar sobre esses e outros assuntos a partir de pontos de vista diferentes da grande mídia familiar-burguesa. E isso costuma ser bom. Eu costumo acessar as páginas do Diário do Centro do Mundo quase diariamente.


Mas há problemas na forma.


Eu acho terrível páginas que se auto-atualizam. Acho horrível em qualquer circunstância, mas é especialmente ruim em páginas que tenham mais de 10 linhas de texto para serem lidas. E no Diário do Centro do Mundo a página padrão tem mais, às vezes bem mais, que 10 linhas de texto. Então, o internauta está no meio de uma reportagem, ou de um texto de opinião, e, de repente, vem o tsunami da auto-atualização de página, e lá se vão segundos  preciosos de seu tempo, e uma pausa para a fuga de sua atenção. Esse é um problema nas páginas do Diário do Centro do Mundo.


O outro é a espécie de “marketing de emboscada”, encaixado nas páginas. Funciona assim, você começa a ler a página, e então você clica o botãozinho de “page down” (“página para baixo”). Então, em lugar de a página ir para baixo, se abre um video de propaganda de um patrocinador. No caso de hoje os vídeos eram de um fabricante de impressora, mas já vi muitas propagandas de perfume. Devo ter lido hoje umas dez páginas do Diário do Centro do Mundo, e fui obrigado a desviar de dez vídeos de propaganda de impressoras domésticas. Eram dois vídeos diferentes, mas isso não fez diferença para mim. Eu sei que o Diário do Centro do Mundo precisa de propaganda para conseguir se sustentar como mídia, mas esse tipo de propaganda me parece extremamente desagradável. Uma autêntica armadilha quando se quer ler um texto no saite. Deve haver um meio mais elegante e menos invasivo de divulgar os patrocinadores…


Então é isso. Eu gosto do conteúdo do Diário do Centro do Mundo. Mas a forma das páginas precisa melhorar.

05/02/2015.



sábado, 7 de fevereiro de 2015

Quem tem razão no trânsito?


Quem tem razão no trânsito?



- Vocês viram?


Não. Nós não tínhamos visto. Éramos quatro, Peter, Joe, Claude e Xandi, mas apenas um prestara atenção ao acontecido, o Peter. Talvez porque o resto de nós estivesse distraído olhando para uma moça loira, com saia curta e tomara-que-caia logo a nossa frente...


- O que houve? - eu perguntei.


- O táxi, quase atropelou o cara que estava atravessando a rua ali na esquina.


A rua era a rua que estávamos - nos dirigíamos a um restaurante, intervalo de almoço - a General Câmara. A esquina era com a Avenida Mauá, uma das mais movimentadas do centro de Porto Alegre.


E o acontecido, segundo o Peter: como muita gente que circula por ali, um pedestre resolveu atravessar a rua, a General Câmara. Um taxista vinha da Avenida Mauá, quase atropelou o pedestre, e meteu o dedo na buzina. O pedestre, com bastante razão, apontou para a faixa de segurança. Há uma bem clara naquela esquina. O motorista encolerizado acelerou e quase atropelou o pedestre, que felizmente não se machucou, embora também tenha feito menção de socar o vidro do táxi. Se bem que no caso de punho contra vidro automotivo, o punho tende a levar a pior, a menos que o dono do punho seja carateca...


Eis ai mais um motorista de táxi que achava que faixas de segurança eram apenas decoração do asfalto, para quebrar a monotonia escura do piche, como já me aconteceu outra noite em que também quase fui atropelado numa situação parecida. A diferença é que comigo aconteceu em uma rua menos movimentada na zona norte da cidade.


Mais um momento de falta de urbanidade na metrópole, selva de pedra.


Motorista e pedestre ficaram enfezados.


Mas eu acho que a razão estava mais com o pedestre.


28/01/2015.




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Vou me Embora pra Porto Alegre


Vou me Embora pra Porto Alegre


Vou me embora pra Porto Alegre
Lá conheço o prefeito
É ele o maior prefeito
Que o município já teve
Vou me embora pra Porto Alegre


Vou me embora pra Porto Alegre
Lá no verão a gente sua
Sua em bicas, sua em cântaros
Sua tanto no verão, que já aconteceu de vivente
Querer andar peladão


Lá tem a Ponta do Gasômetro
Onde a gente pode se exercitar
Correr e fazer ginástica
E andar de bicicleta
E depois de bem suar
Tem duchas pra se refrescar
E quando estiver cansado
Tomo táxi, vou pra casa
Tomo banho, e vou pro shopping,
Com ar condicionado
E cinema pra me distrair
Vou me embora pra Porto Alegre


Em Porto Alegre tem tudo
É outra civilização
Tem as obras da Copa
Que pra Copa de 2014, não ficaram prontas não
Tem operadoras de telefonia
Que te oferecem o mundo
Mas que quando queres cancelar o plano
Fazem ouvidos surdos
Tem cannabis nas praças
Pra quem quiser respirar
Prostitutas e prostitutos bonitos
Para quem quiser transar


E quando eu estiver triste
Mas triste de me matar
Farei a ronda das farmácias
Alguma me venderá o Prozac
Sem a receita mostrar
Tomarei os comprimidos
Com água mineral
Me anestesiará a dor da alma
E pensarei no prefeito
O maior prefeito que já chegou a governar
Vou me embora pra Porto Alegre


25/01/2015.



Observação: Este é um poema paródia, desenvolvido como crônica, para a Oficina de Crônicas Santa Sede, organizado pelo cronista Rubem Penz. A paródia é calcada no poema "Vou-me embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeira.
Rubem Penz pode ser encontrado em sua página pessoal.