sábado, 31 de outubro de 2015

Alternativas

Alternativas


Ali estava eu, ouvindo as palavras da médica. O escritório era até aconchegante. Móveis de cerejeira, livros na estante atrás da cadeira da doutora, foto dos netos. Carpete simples. Janelas que davam para a rua, e não para a parede de outro prédio.

- Glicose: um pouco acima, mas controlada. Vamos manter a dose do remédio via oral. Um comprimido à noite, e outro pela manhã. A hemoglobina glicada indica que a estratégia está funcionando.

Cada item era pontuado por uma pequena pausa.

- O colesterol ruim está dentro dos parâmetros, com a ajuda da dessa dose de estatina.

- Os índices da tireoide estão bons.

- Os índices da vitamina D também estão bons com esta dose suplementar que a senhora está tomando.

- Agora vamos olhar esta ecografia abdominal... É. Tudo bem. Nenhum problema detectado nos rins ou na bexiga. Nenhum problema sério no fígado, a não ser este pouco de gordura, a tal esteatose, que muita gente tem.

- Por fim, vamos ver a mamografia... É, nada demais. Aqueles mesmos nódulos de calcificação do ano passado. A princípio, nada para ficar muito preocupada. Mas é importante mantermos a monitoração. Aqueles apertos e compressões, e o ar frio da sala de exames, e o próprio aparelho frio, tudo aquilo está valendo a pena, pois demonstram que a sua saúde está boa. Mas, mesmo que encontrássemos alguma coisa para nos preocuparmos, um diagnóstico precoce é a melhor forma de tentar a cura.

Depois dos exames laboratoriais e de imagem, o exame clínico propriamente.

E assim foi. Pressão doze por oito. Pulmões normais. Coração com uma mínima arritmia.

E assim eu podia sair da sala de minha médica.

Aliviada pelo quadro estar estável, por eu estar vivendo de forma relativamente tranquila.

- Até mais, doutora. - Me despedi.

- Até mais. - Ela me respondeu.

- Até mais, Alice. - Eu me despedi da recepcionista.

- Tchau! - ela disse, enquanto me olhava.

Não que eu gostasse de visitar a médica regularmente, mas que alternativa havia? É como ficar velho, ninguém gosta muito, mas qual é a alternativa?




16, 18/10/2015.


P.S. Esta crônica foi inspirada pelo "outubro rosa" , que inspirou entre tanta gente, as autoras do livro "Santa Sede 6: crônicas de botequim".



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Diário - leituras - Santa Sede 6: crônicas de botequim


Diário - leituras - Santa Sede 6: crônicas de botequim


PENZ, Rubem (Org.). Santa Sede 6: crônicas de botequim. Porto Alegre: Buqui, 2015.


Dediquei meus recentes dias à leitura do livro "Santa Sede, crônicas de botequim, safra 2015". É um livro com 81 crônicas, de nove autoras diferentes, Bruna Marçal Cabrera, Marta Leiria Leal Pacheco, Patrícia Franz, Ana Paula Vieira de Moraes,Andrea Troller Pinto, Joana Narvaez, Maria Lúcia Meirelles, Ana Luiza Tonieto Lovato e Paula Luersen, resultantes da oficina de crônicas "Santa Sede", ministrada pelo escritor Rubem Penz, em um bar na Cidade Baixa.


Essas oficinas ocorrem desde 2010, no mesmo bar.


Rubem Penz é publicitário, escritor, em especial cronista, e possui coluna semanal no Jornal Metro de Porto Alegre, às terças-feiras. Já publicou alguns livros, um deles já resenhado aqui.


Esta edição da oficina, como é possivel constatar teve a peculiaridade de ter apenas mulheres oficineiras, gerando uma série de crônicas, como não poderia deixar de ser, com um olhar feminino sobre o mundo.


Temática variada: aparências, encontros e desencontros, relacionamentos, maternidade, e uma temática especial, o "outubro rosa". As cronistas dedicaram uma seção do livro à busca por conscientização para prevenção contra o câncer de mama.


Entre 81 crônicas, gostei bastante da primeira que li, "Manobras" sobre um manobrista (ou seria um flanelinha? O texto me evocou um flanelinha) que recebe as mulheres que vão fazer o exame com a mesma frase: "Doutora, um excelente exame e um excelente resultado para a senhora!". Justamente a abertura da seção dedicada ao outubro rosa. Também a crônica "Ensaio sobre Rateadas", de Joana Narvaez é uma muito boa história, um conto disfarçado de crônica, muito memorável pelas razões que, quem ler, há de concordar comigo.


Pinçadas duas entre 81, cabe ao leitor desfrutar as demais crônicas, e, como vai acontecer, gostar mais de umas que de outras. Mas isso é humano. como humanas são as crônicas destas mulheres.


Se possível, leia.



26/10/2015.

Um bar muito cheio

Um bar muito cheio (Relembrando a noite de autógrafos no Apolinário - 15/10/2015)




Eu não costumava ser frequentador de noites de autógrafos, mas de um tempo para cá, comecei a ir em algumas.


Houve inclusive uma ocasião em que cheguei com uma semana de antecedência.


Dito tudo isso, havia uma noite de autógrafos para ir novamente, quinta-feira passada (15/10/2015). O livro que estava sendo autografado era o volume seis das Crônicas de Botequim - Santa Sede (ou será que seria Santa Sede - Crônicas de Botequim, enfim...), livro de crônicas resultante da oficina ministrada pelo Rubem Penz, no bar Apolinário, na Cidade Baixa.


Ir ou não ir? Ir. Afinal eu era aluno e ex-aluno dessas oficinas. Outros oficineiros combinaram de ir. Então vamos.


Para variar era uma noite relativamente quente de primavera em Porto Alegre.

Além disso, eu chegaria lá quente, pois seria uma caminhada longa, desde o centro da cidade até o bar. É cansativo subir a Marechal Floriano. E é perigoso descer a Marechal Floriano. Para quem nunca se deu conta, entre a Duque de Caxias e a Fernando Machado, a Marechal é uma lomba íngreme. No meu caso, descer é sempre um exercício de precaução. Tenho medo de um escorregão ou um tropeção, e chegar na esquina da Fernando Machado rolando.


Após a longa jornada, chego num Bar Apolinário lotado. Não há lugar para sentar. Além da clientela normal do bar, há os parentes e amigos das autoras, Bruna, Maria Leiria, Patrícia, Ana Paula, Andrea, Joana, Maria Lucia, Ana Luiza e Paula, e do coordenador, o Rubem, e mais tanta gente quanto a divulgação nos meios de comunicação e na Internet conseguissem atrair.


Eu chego pingando suor, e o ar condicionado do bar não dá vencimento a tanta gente junta.

Pouco antes de mim, e portanto logo à minha frente, chega uma senhora. Ela também veio para a sessão de autógrafos, e compra um volume do livro. Eles estavam à venda logo à direita de quem entra no bar. Ela se demora um pouco mais no processo de compra, trocando palavras com o vendedor. No burburinho do bar, não consigo ouvir o que ela diz.

Quando ela termina sua conversa, é a minha vez de comprar o livro. Trinta reais.


Me dirijo à fila. Na passada cumprimento a Vanessa, ex-oficineira, que se tornou namorada do Rubem.


A fila tem que se espremer entre as mesas do bar, um corredor apertado. Eu, carregando uma mochila e um casaco, me sinto um tanto quanto espaçoso e inconveniente, mas não é nada.


A fila anda, e logo o meu livro chega à mesa de autógrafos. Começa com a assinatura da Bruna, e terminará com a da Paula.


Quando o livro chega na altura do Rubem, ele me informa que aquela senhora que chegara antes de mim, foi oficineira na pŕimeira Oficina de crônicas, em 2010. Histórica.


Recebo o livro de volta e vou para o fundo do bar. Peço uma água com gás, e passo a folhear o livro. Tendo sido uma oficina apenas com mulheres, com exceção do ministrante, e sendo lançada em outubro, este volume de crônicas sai com uma sessão relacionada ao outubro rosa. Boa iniciativa.


Bebida a água, era pagar a conta, se despedir das colegas oficineiras, da Vanessa, do Rubem, e seguir em frente. Missão cumprida.



18/10/2015.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O Guaíba se movimenta


O Guaíba se movimenta


O Guaíba é o nosso rio, o rio que banha Porto Alegre. Chamo rio porque sentimentalmente ele me continua sendo um rio. Sei que nos últimos quarenta anos ele foi de rio a estuário, e de estuário a lago. Mas para alguns de nós, porto-alegrenses de certa idade, ele será sempre um rio, mesmo que isso seja inexato geograficamente. Tanto que o Werner Schunemann o chamou de "Lago Rio Guaíba" no programa do Jô.


Gostamos de acreditar que o Guaíba nos proporciona o mais belo pôr do sol do mundo.

Como ouvi um dos componentes do Madredeus falar do Tejo em um filme, o Guaíba é nossa herança.


Me banhei no Guaíba na minha mais tenra infância. Ainda não havia ciência da poluição do rio. Depois novamente na adolescência, inconsequência da idade, óbvio.


E hoje em dia, penso que tenho uma visão privilegiada do rio, quase diariamente. Trabalho num prédio, de onde posso vê-lo.


O Guaíba é uma imensidão de água, sacia a sede da cidade.


E eu sempre me preocupei com os momentos de estiagem. Com certa frequência, os momentos de estiagem acontecem no verão. Não por medo de falta de água. A pior consequência da estiagem tem sido a proliferação de algas, que geram sabor ruim na água distribuída à população.


Depois de um inverno especialmente chuvoso, e com uma primavera também úmida, vejo o rio subir.


Nas últimas semanas, o rio inundou a prainha do Gasômetro, e cobriu boa parte do aterro antes do dique entre o Gasômetro e o estádio Beira-Rio.


As águas estiveram a ponto de transbordar o cais Mauá, e as comportas que compõem o muro que protege a cidade de inundações esteve fechado. Foram relembrados os episódios das enchentes de 1941 e 1967, e a função do muro.


A enchente de 1941 é mítica. Gerou livros. Mas pouca gente que a testemunhou está viva hoje para lembrar como foi.


Já a de 1967 é mais recente, pouco citada, mas o grupo RBS resgatou imagens da época. As fotos são bastante assustadoras. A cidade passou um belo apuro naqueles dias.


E aqui estamos. Dizem que a enchente destes dias é maior que a de 1967. Mas não estamos sofrendo por causa do sistema de proteção, concluído no início dos anos 1970.

Menos mal.


O rio continua aí. De repente, quase sem percebermos, ele vem e nos assusta.



16/10/2015.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Diário - filmes antigos - Fargo


Diário - filmes antigos - Fargo


Por estes dias, tive a ocasião de ver o filme "Fargo" ("Fargo", Estados Unidos, 1996), dos irmãos Coen, que deu o Oscar de melhor atriz a Frances McDormand. É um estranho filme que mistura momentos de tensão e violência, violência extrema por vezes, com um certo humor "non sense".


Fargo é uma cidadezinha de Dakota do Norte, no meio oeste dos Estados Unidos, onde tudo começa. Um homem, Jerry Lundergard (William H. Macy), casado com a herdeira de um empresário da região, e cansado do papel subalterno que seu sogro lhe reserva, contrata dois criminosos para sequestrarem a mulher dele, e dividirem o resgate, isto é, ele dividir o resgate com os criminosos.


Ele entrega aos criminosos um automóvel da concessionária em que trabalha, e aparentemente tudo fica combinado.


As coisas começam a dar errado quando, após o sequestro, um patrulheiro rodoviário intercepta os bandidos, por causa da placa irregular do automóvel novo, e um dos bandidos se mostra extremamente violento. A partir daí muitas coisas saem do controle, numa sucessão trágica.


Frances McDormand faz o papel de Marge Gunderson, uma delegada de polícia que começa a investigar os fatos. O detalhe bizarro é que ela está em estado de avançada gravidez: sete meses.


Interessante o clima do filme. Minessota, estado do centro norte dos Estados Unidos é bastante frio. Durante todo o filme, há neve acumulada por todo lado. Parece um frio de congelar os ossos.


Esse estranhamento da mistura de violência com humor, faz lembrar Quentin Tarantino. Mas é irmãos Coen.


É um bom filme, que quase um estranhamento, uma estupefação nos espectadores.


14, 26/10/2015.

domingo, 25 de outubro de 2015

Diário - cinema - Perdido em Marte


Diário - cinema - Perdido em Marte



"Perdido em Marte" ("The Martian", Estados Unidos, 2015) é um filme no qual Matt Damon interpreta Mark Watney, um astronauta que é deixado em Marte pelo resto da equipe da qual ele faz parte, quando esta se sente compelida a abandonar o planeta por conta de uma tempestade ameaçadora. Isso acontece porque durante esta retirada, Watney é atingido por um objeto lançado pela tempestade, e os sensores de seu traje espacial transmitidos aos seus colegas indicam que ele morreu.


Deixado no planeta, ele verifica o que tem de suprimentos, e o que ele pode fazer com eles para tentar sobreviver até uma próxima expedição para Marte.


Enquanto isso, na Terra, a NASA primeiro celebra um funeral bonito para Watney, depois descobre que ele permanece vivo no planeta vizinho, e fica pensando o que pode ser feito para resgatá-lo, o que pode passar pela tripulação que havia deixado ele para trás.


É um filme muito legal porque Matt Damon consegue segurar bem o fato de ficar sozinho em Marte. E as soluções que ele vai arranjando para sobreviver, são uma ode à ciência e à técnica.


Há também a fotografia de "Marte", isto é, provavelmente da Jordânia, simulando Marte. Muito impressionante, principalmente nos planos abertos.


E há ainda a trilha sonora de clássicos da década de 1970, com destaque para Donna Summer, Abba, e David Bowie - "Starman", obviamente.


Enfim, uma bela obra cinematográfica.



10/10/2015.

sábado, 24 de outubro de 2015

Se passam os dias, 23/10/2015 - 61ª Feira do Livro de Porto Alegre




E mais dias se passam.


A estrutura da Feira do Livro vai sendo montada em Porto Alegre. Sera a 61ª edição neste ano de 2015.


Vai acontecer de 31 de outubro a 15 de novembro.


Provavelmente com mais chuva do que de costume. Sendo que a chuva costumeira não é pouca.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Se passam os dias - 20/10/2015


Se passam os dias - 20/10/2015



Descuidar do blogue é ver que se passaram quinze dias desde a última postagem, quase sem que a gente percebesse.


Até se escreve, mas não se publica, pois sempre é preciso fazer algo mais importante.
Quinze dias.


Nesse meio tempo, o Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, virou um zumbi político; o Guaíba transbordou seu leito, embora bem de leve; e o glorioso Brasil de Pelotas conseguiu classificação à série B do campeonato brasileiro de futebol.


A primavera continua chuvosa, com surpreendentes noites frescas, quase frias.


A vida continua...



20/10/2015.

domingo, 4 de outubro de 2015

Porto Alegre está menos ansiosa


Porto Alegre está menos ansiosa


Porto Alegre está menos ansiosa por estes dias, menos temerosa.


Os rumores de assaltos e arrastões diminuíram.


De quebra não tem havido nenhuma revolta em bairros pobres, como aconteceu na semana passada.


A cidade vive dias de menos insegurança. Ou seja, voltamos ao normal estranho.


Tivemos pico de insegurança por conta do parcelamento de salários dos policiais do estado.


A polícia civil resolveu parar, e a polícia militar anunciou aquartelamento. Na prática, o que a população pensou sentir foi uma diminuição do policiamento ostensivo nas ruas, com um súbito aparente incremento dos assaltos à mão armada.


O comércio fechou mais cedo em alguns dias, e as pessoas procuravam não sair de casa, inclusive cursos noturnos liberaram alunos mais cedo.


Agora voltamos ao normal estranho, como eu disse.


Continuam os assaltos. Há notícias de assassinatos, principalmente na periferia, que a polícia frequentemente diz que são associados a conflitos de traficantes de drogas.


Continuamos paranóicos, mas não sobressaltados.


15/09/2015.


P. S. Mais sobre esses dias:

- Um Dia Anormal;

- Pequena crônica de mais um dia de medo;

- Medo, tristeza, angústia.

E esta crônica encerra a série sobre estes dias maus de agosto e setembro, da crise ainda maior da segurança pública.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Medo, tristeza, angústia


Medo, tristeza, angústia


Medo! Tristeza! Angústia!


Ontem assaltaram dois colegas na Rua da Praia. Dizem que foi arrastão. Intimidaram com uma pistola.


Ontem a polícia militar matou um rapaz no Bairro Santa Tereza. Alegaram que houve tiroteio. Os moradores da região negam. O tiro foi nas costas. A morte gerou revolta e os policiais ficaram sitiados. O batalhão de choque teve que vir resgatar os policiais. Um ônibus foi incendiado. A fumaça podia ser vista de longe.


Ontem houve notícias de arrastões na Rua Voluntários da Pátria, uma rua de comércio popular, e muito movimento de pedestres, próxima de pontos de ônibus. As notícias dão contam de mais de dez meliantes juntos fazendo o arrastão, levando carteiras e celulares.


Dizem que demorou até a polícia aparecer.


A polícia sofre com o parcelamento de salários.


De maneira que a população fica na incerteza do policiamento.


Estamos com mais medo. Estamos com mais medo que normalmente temos, quando os policiais estão se sentindo frustrados e angustiados por não receberem seus salários.


E a tristeza e a angústia só crescem.


É a notícia de um adolescente que morre em consequência da "ação de contenção" por parte da segurança do Metrô de São Paulo.


É a notícia de uma ciclista atropelada por um ônibus, também em São Paulo. Uma menina, modelo, no auge da vida!


Que tristeza! Que droga!


O medo e a angustia nos acompanham.


Hora de voltar para casa.


Alguns preferem sair em grupo, em busca de mais segurança.


Eu saio.


A rua tem um arremedo de normalidade.


Uma loja fechada precocemente, mas outra ainda aberta.


Uma farmácia aberta. Aproveito para reforçar o estoque de analgésicos. Ótimo.


Vamos em frente.


A rua parece normal. Quase normal.


Talvez eu que esteja angustiado. Temeroso.


Sigo para o bar. Happy hour. "Happy", ou não...


Beber. Relaxar. Entorpecer os sentidos.


Enfrentar o medo. Ou não...




06/09/2015.

P. S. : Mais sobre esses dias:

- Um Dia Anormal

- Pequena crônica de mais um dia de medo.

Pequena crônica de mais um dia de medo



Pequena crônica de mais um dia de medo



Dizem que a cidade, em especial a cidade grande, é como uma selva. Ninguém sabe o que vai encontrar se resolver sair de casa. A frase é um chavão antigo. Não lembro onde li, ou de quem ouvi (ouvi ou li?).

Claro, é diferente, pegar o ônibus é ir ao centro de uma cidade, e vagar numa selva real. Acho que eu teria mais medo numa floresta habitada por predadores, que numa grande cidade.

A grande cidade não se define por seu grande território, mas por sua grande população.
Porto Alegre é uma grande cidade. Um e meio milhão de habitantes. Três milhões na sua região metropolitana. Gente pra caramba.

Porto Alegre é a capital do Rio Grande do Sul, um estado onde as pessoas gostam de invocar tradições, e prezar um certo separatismo, que muitos pensam que faria dos gaúchos melhores, ou mais cultos, ou seja lá o que for que os demais brasileiros. Claro. Qualquer um gosta de achar que é o bom, que é o melhor. É sempre necessário um choque de realidade para perceber que nem sempre a gente é mesmo o melhor.

Dito tudo isso, é bom sabermos que estamos falidos.

Acho que faz trinta anos que estamos falidos. Desde o final de minha infância eu ouço falar que o Governo do Estado não tem dinheiro. Posso enumerá-los: Amaral de Souza, Jair Soares, Pedro Simon, Alceu Collares, Antonio Britto, Olívio Dutra, Germano Rigotto, Yeda Crusius, Tarso Genro, e, agora, José Ivo Sartori.

A grande novidade do atual governador é agir como se não houvesse opção.

Em julho o salário do funcionalismo público foi parcelado, com a primeira parcela num corte de dois mil reais.

Em agosto o parcelamento teve a primeira parcela em seiscentos reais. Seiscentos reais. Seiscentos reais é menos que o atual salário mínimo brasileiro.

Dentro do nosso quadro político, o Governador disse que não tinha dinheiro nem alternativas para pagar o funcionalismo. A oposição, que me parte, compunha o governo anterior, alega que haveria meios de conseguir recursos para pagar o funcionalismo. Claro, que cada um acredite no que quiser.

Mas funcionalismo sem salário, significa greves, ou outro tipo de operação para chamar a atenção para o problema.

Em Porto Alegre, parece que estamos vivendo dias piores na segurança pública.

Nesta quinta-feira passada (03/09) o jornal Correio do Povo noticiou arrastões à noite, na Avenida Voluntários da Pátria, próxima aos pontos de ônibus no Camelódromo.

Depois na sexta-feira, veio a notícia que os arrastões teriam começado na Praça da Alfândega, no final da tarde dessa mesma quinta.

E, de quebra, tivemos um incidente em que um jovem morreu no bairro Santa Teresa, baleado por policiais militares. Os policiais alegaram que houve tiroteio, mas moradores da região falaram que foi uma execução. A morte gerou revolta, os policiais da ocorrência ficaram sitiados, e o batalhão de choque teve que ser acionado. Esse incidente gerou outros, como o incêndio criminoso de um ônibus e uma lotação.

Então, na sexta, tivemos o temos o medo de mais arrastões, e lojas fechando mais cedo, por conta dos boatos.

A princípio, o clima não podia ser pior.

Mas, quando saí do trabalho, vi que a coisa estava menos pior. Menos pior que segunda, 3 de agosto, o dia em que praticamente todo o comércio fechou mais cedo. Sim, alguns lojistas fecharam mais cedo, mas muitos ainda estavam abertos por volta das dezenove horas. Nesse horário o centro da cidade ainda tinha um arremedo de normalidade, com mais pessoas saindo do trabalho, e parte do comércio ainda aberta.

Que bom, parecia que as pessoas tentavam resistir ao medo.

É preciso resistir.

Eu mesmo, fiz questão de ir a um bar, para uma breve pausa.

Fiquei feliz que o bar estivesse aberto, para degustar seu saboroso chopp artesanal.

Pensei comigo mesmo que era uma forma de resistir ao medo. Talvez seja auto-engano meu. Talvez não.


05/09/2015.

P.S. Sobre medo em Porto Alegre, veja também: Um Dia Anormal.