domingo, 21 de fevereiro de 2016

O Difícil Desapego de um Velho Automóvel


O Difícil Desapego de um Velho Automóvel



Hoje liguei para a autoridade de trânsito de Porto Alegre para solicitar que minha velha Variant II fosse removida do leito da rua que moro. Confesso que o baque foi maior do que eu imaginava.


Este carrinho estava na família desde o início da década de 1990. Nos levou para a praia algumas vezes, nos levou para a serra outras.


O motor foi reformado três vezes. Foi repintada duas vezes.


Mas o tempo não para. Assim como nos traz tudo, a vida, o crescimento, a juventude, os filhos, a velhice, a doença, a morte; para o carrinho foi sempre trazendo a ferrugem, o desgaste. E o tempo se juntou à obsolescência, e se tornou difícil encontrar peças de reposição.


O tempo e a renovação da frota nacional de veículos tornou difícil revender o carrinho. E ele foi ficando.


Nos últimos meses, já andava pouco. A última tentativa de viagem, para Jaguarão, há uns quatro anos, foi abortada. Abreviada. Com o tráfego pesado da BR116, desistimos. Fizemos uma breve parada em Barra do Ribeiro e retornamos.


Já não confiávamos na capacidade do carrinho ir e vir com segurança. E, de quebra, o trânsito da cidade tem ficado cada vez mais pesado e mais caótico. Sem contar os motoristas estressados….


O golpe de misericórdia acabou vindo dos ladrões. Há coisa de um mês, arrombaram o carrinho, roubaram a bateria e destruíram parte da fiação. Tremendo desgosto.


O carrinho jaz ali, numa ruazinha da zona norte de Porto Alegre.


Hoje liguei para a autoridade de trânsito de Porto Alegre para solicitar que o carrinho fosse recolhido.


Agora é aguardar os trâmites burocráticos da prefeitura para o recolhimento.


Vai ficar um certo vazio, as fotografias e as lembranças.


É difícil desapegar do que foi nosso por tanto tempo.


Deu vontade de beber….



30/06/2015.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Diário - leituras - Crônica da Paixão Inútil


Diário - leituras - Crônica da Paixão Inútil



"Crônica da Paixão Inútil" se apresenta como romance, mas, talvez, nas suas noventa páginas alguém pudesse chamá-lo de novela. Mas aí teria que haver uma definição de conceitos.  Então fiquemos como romance.


A "Crônica da Paixão Inútil" narra basicamente o fracasso do relacionamento de Francisco e Gabriela, em algum momento dos anos 1980, na cidade de Porto Alegre, muito embora a narrativa comece nos Andes Peruanos, para onde Francisco viaja, numa tentativa de autoconhecimento, e, talvez, redenção.


O desenvolvimento da história é para demonstrar como Francisco chegou ali.


Paralelamente há alguns flashes sobre como podiam ser as campanhas políticas naqueles anos 1980, invasões de terrenos para o estabelecimento de favelas, e a cooptação de lideranças comunitárias para a política partidária.


Me chamou a atenção que, num relato para demonstrar a falência de um relacionamento amoroso, o autor não explore as vidas prévias das suas personagens. Francisco surge na história já expatriado no Peru. Gabriela aparece quando se prepara para o casamento. Há ainda Maria Rita, irmã de Gabriela, que nunca se casou, e tem dificuldades com a sexualidade. A propósito, essas duas mulheres têm problemas com a sexualidade. E o autor trata o tema da sexualidade com certo sarcasmo. Pelo menos foi o que me pareceu, com certa histeria das mulheres, aproximando a história da farsa.


O cansaço de Francisco com o relacionamento é demonstrado, mas não de maneira exaustiva. Talvez o autor pudesse explorar mais esse cansaço psicológico de Francisco.





LAITANO, José Carlos. Crônica da Paixão Inútil. Porto Alegre: Editora Movimento, 1992.


28/10/2015.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Esbarrando em Emilio Pacheco


Esbarrando em Emilio Pacheco


Já deve fazer uns dois anos que os blogues estão ultrapassados, que o quente é o Feicibuque. Acho que a afirmação foi mais ou menos na mesma época que me disseram que o pessoal não usava mais correio eletrônico, só o programa de mensageria eletrônica do Feicibuqui. Hoje deve ser o Zapzap.


Mas acho que na primeira década do século XXI existiam encontros de blogueiros. O único encontro para o qual eu fui convidado, eu não pude comparecer.


Mas, curiosamente, eu acompanho o Blog do Emilio Pacheco faz anos. Talvez, principalmente, por ser um blogue de Porto Alegre. Além disso, pelas indicações do blogue, eu imaginava que ele trabalhasse, como eu, nas vizinhanças da Praça da Alfândega.


Pois na quinta-feira passada (acho que foi nesse dia, 11/02/2016), eu estava em meu intervalo de almoço, em frente ao Shopping Rua da Praia, quando vi saindo dali o Emílio Pacheco. Dei duas hesitadas antes de me apresentar, mas resolvi fazê-lo. O segui, e o alcancei quando já ia passando a frente do prédio do Clube do Comércio. Bati no ombro do Emílio, e quando ele se virou, eu me apresentei e disse que seguia o blogue dele. Aí ele falou "Ah! O famoso!...". Famoso? Huummm... Não sei. Aí eu soube que ele não trabalhava nos arredores da Praça da Alfândega, mas no bairro Menino Deus, ou seja, bem longe do centro. Eis um bom motivo para nunca termos nos encontrado antes. Não somos vizinhos como eu imaginava.


Nesse dia, o Emilio informou que precisava fazer um intervalo de almoço um pouco mais longo, e veio ao Centro para resolver algumas coisas, entre elas pegar seu ingresso para o show dos Rolling Stones, que deverá acontece em breve por aqui. Legal, não?


Ele comentou dos meus diversos blogues, e isso merece uma explicação. É possível que eu já tenha feito essa explicação em outro local. Ou não.


Comecei comentando em blogues de outras pessoas, depois resolvi começar o meu. Quando eu quis comentar política, comecei outro blog. E a coisa parecia tão fácil que comecei um blogue em que eu me dispunha a falar sobre o mundo da tecnologia, mas não mantive o pique, e desisti desse. No início da segunda década do século XXI, eu resolvi reorganizar as coisas. Tenho o meu blogue, esse aqui, e tenho um blogue para colocar coisas que não escrevi, mas acho interessante, sempre citando a fonte, chamado Colagens do Umbigo e da Mosca Azul. Além disso, participo de dois blogues coletivos, que não são meus, Blogoleone, do qual fui tornado colaborador principal, e Games & Cia, cujo dono o abandonou, e eu também.


Enfim, não foi um esbarrão, como sugere o título, mas foi uma apresentação, um encontro. Valeu, Emílio, espero que nos encontremos mais vezes.


16/02/2016

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Diário - filmes antigos - Tubarão


Diário - filmes antigos - Tubarão


"Tubarão" ("Jaws", Estados Unidos, 1975) é um dos inventores do filme catástrofe, uma espécie de novidade naqueles anos 1970, embora algo comum nos dias de hoje. Por conta do vídeo sob demanda, finalmente vi uma versão inteira do filme. É um interessante filme, ainda com um ritmo razoavelmente lento, um tanto de suspense, e pouca violência mostrada, ficando as situações críticas mais sob a sugestão do que sob a explicitação. A começar pela cena inicial do filme, quando a moça, num rompante sedutor resolve nadar nua no mar que circunda Amity Island. O espectador vê a ação do tubarão, mas não vê o bicho, nem o corpo da banhista sendo atacado.


Essa cidade, Amity Island, é uma cidadezinha litorânea que vive para a temporada de férias no verão, tal qual muitas cidades litorâneas do sul do Brasil. E quando esse ataque por um tubarão vem à tona, o xerife local, o Chefe Brody (Roy Scheider) quer proibir os banhos, mas o prefeito (Murray Hamilton) impede que isso seja feito, pois a economia da cidade depende da temporada de verão que está prestes a começar.


É justamente sob esse pano de fundo que novos ataques acontecerão.


Em consequência, o xerife aceita fazer parte de uma expedição para caçar o tubarão, junto com um oceanógrafo Matt Hoper (Richard Dreyfuss), e um pescador ou caçador de tubarões, Mr. Quint (Robert Shaw). É dessa expedição que vem uma frase icônica do filme: "You're gonna need a bigger boat" ("Você vai precisar de um barco maior"), diz o chefe Brody quando tem um vislumbre do tamanho do bicho que eles estariam caçando.


Um bom filme, que não perdeu o viço ao envelhecer, embora, como eu disse, possa parecer um tanto quanto lento, para as audiências dos dias de hoje.


E temos essa curiosidade que o filme se chama originalmente "Jaws", isto é, "Mandibulas". Concordo com os tradutores, que um título assim, não faria muito sucesso por aqui.



31/01/2016.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O último dia de Paulo

O último dia de Paulo




Naquela quarta-feira, Paulo acordou às seis da manhã como costumava fazer.


Levantou-se e foi ao banheiro se liberar de suas primárias necessidades fisiológicas.


Deixou a mulher dormindo, pois era muito cedo, e ela não precisava sair para trabalhar.


Olhou-se no espelho, rapidamente, sem se deter em sua própria imagem.


Lavou o rosto com água abundante, mas sem usar sabonete. Secou-se.


Pegou o jornal largado em frente a porta pelo porteiro.


Colocou pó de café e água na cafeteira. E esperou alguns minutos. Enquanto isso, pegou pão, manteiga, leite e frios, e colocou sobre a mesa na cozinha.


A cafeteira aprontou o café. Ele pegou a jarra e se serviu. Completou com leite. Fez um sanduíche com o pão, a manteiga e os frios. Comeu, bebeu. Estava feito o desjejum.


Era hora de se vestir. Camisa azul, como muitas vezes. Sapatênis preto. Meias sociais pretas. Calça jeans cargo. Separou também a jaqueta de couro. Apesar de já ser verão, muitas vezes sentia frio no serviço por causa da força do ar condicionado.


Meteu o jornal dentro da pasta executiva, onde já estavam a agenda de papel e o óculos de grau. Pegou o rayban aviador preto com cordinha e enfiou no pescoço.


Saiu porta afora.


Como sempre, o elevador desceu rápida e suavemente os dez andares que o separavam do estacionamento do prédio.


Entrou no Peugeot 208 preto e se foi em direção ao centro da cidade.


Dezembro. Após o fim das aulas, o trânsito flui com mais facilidade, ou com menos dificuldade, no caos urbano de Porto Alegre. Paulo vai conduzindo praticamente no piloto automático. Não pensa muito. Vai ouvindo a música, La Luna, por Sarah Brightmann, e seguindo o mesmo roteiro de todos os dias, desde a zona norte da cidade.


Já no centro, deixa o carro no mesmo estacionamento de sempre, e caminha para a repartição.


O elevador o leva dez andares acima, como o fazia sempre.


Atravessou a catraca, e foi para a mesa dele.


Ali havia uma diferença. Não havia nada para fazer. Os processos dos quais participava, já haviam passado por sucessão. Fazia alguns dias, que ele estava ali como um consultor, para tirar dúvidas sobre o que fizera por trinta anos.


Quando chegou o horário do almoço, Paulo saiu para almoçar com o João. Como era o último dia de Paulo, resolveram não ir nos restaurantes a quilo mais triviais, e foram em um mais chique (e mais caro). Não que a comida fosse muito melhor, mas o ambiente era mais ajeitadinho. Comeram. Em tempos de pan-fotografia, fotografaram-se a si mesmos e fotografaram a comida. Tudo devia ser celebrado naquele dia.


Tendo voltado do almoço, Paulo encontrou a mesa tomada por balões coloridos. Dezenas deles. Sorriu e levou na brincadeira. Mais fotos: abraçado nos balões, escondido atrás dos balões.


Depois os balões foram levados para uma sala, onde seria feita uma cerimônia de despedida. A cerimônia de despedida...


Foi por volta das três da tarde que aconteceu.


Carla organizou o pessoal para comprar salgadinhos, bolo e refrigerantes. E a sala ficou cheia de gente. Todos os colegas do setor, e mais alguns de outros setores, que haviam trabalhado com o Paulo anteriormente.


O Carlos deu um falso presente, um manual de processos da repartição. A Carla deu um presente verdadeiro, um livro, e o pessoal pediu discurso. Paulo compartilhou algumas palavras, muito breves, agradecendo a atenção do pessoal e dizendo que tinha sido bom trabalhar ali.


Naquela celebração, muitos abraçaram Paulo. Ele recebeu muitas palavras de carinho, muitos agradecimentos, muitos desejos de felicidade na nova fase da vida. Paulo recebeu todas as palavras com sobriedade. Ele não era muito dado a manifestações emocionais.


Terminada a celebração, Paulo voltou para sua mesa. Faltavam poucos minutos para o fim do expediente. A arrumação da sala havia ficado para as mesmas pessoas que haviam organizado a despedida.


Paulo esperou passarem os minutos.


Olhava o monitor de sua estação de trabalho. Pensava.


Talvez pensasse que era seu último dia ali, naquelas condições. Mesmo que um dia passasse para uma visita, para tomar um cafezinho com o pessoal, sua condição já não seria a mesma. Talvez pensasse que se voltasse, apesar do carinho, teria que se considerar um estorvo, pois, afinal, o trabalho tinha que continuar, e um visitante é alguém que precisa de um mínimo de atenção. Talvez pensasse que não valeria a pena voltar ali. Algo que ele dizia era que nunca queria atrapalhar alguém.


Chegou a hora.


Paulo levantou, e começou a se despedir do pessoal. Pela última vez. Por isso, os colegas chamaram mais sua atenção, dizendo "tchau" com mais veemência.


Paulo caminhou firme em direção à porta, como sempre fazia. Sem choro, sem emoção visível.


Passou pela catraca.


Uma nova vida o aguardava.

16/12/2015, 04/01/2016, 22/01/2016.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Leituras na Piauí - Janeiro / 2016 - Nathaniel H. Leff


Leituras na Piauí - Janeiro / 2016 - Nathaniel H. Leff



A revista Piauí de janeiro de 2016 traz um comentário sobre um pesquisador norte-americano que esteve pelo Brasil, em meados da década de 1960, para pesquisar o desenvolvimento econômico daqui. Seu nome é Nathaniel H. Leff.


O texto de Rafael Cariello comenta sobre o pesquisador, seu quase completo desconhecimento por parte de uma parcela importante da academia brasileira, tanto na área de Economia, quanto na de História. Fala um pouco de sua vida acadêmica após o retorno para os Estados Unidos, e seu súbito desaparecimento na metade dos anos 1990.


Na busca de Cariello, ele encontrou ex-colegas de Leff, todos tendo perdido o contato com ele, alguns supondo o seu falecimento.


Cariello o vai encontrar numa cidadezinha de New Jersey, bastante debilitado pela doença de Parkinson, com dificuldades de locomoção e comunicação. Mas ainda vivo. As suposições sobre sua morte foram precipitadas.


O interessante são os poucos comentários no texto sobre o trabalho acadêmico de Leff sobre o Brasil. Entre as causas do subdesenvolvimento estariam o desejo da elite econômica do final do século XIX e início do XX em manter o custo do trabalho barato. Esse seria o motivo de não ter sido realizada nenhuma reforma agrária quando houve a libertação dos escravos, e da importação de mão de obra europeia para o caso dos ex-escravos não se dispuserem a trabalhar nas lavouras de café, principal produto de exportação do Brasil desde o segundo reinado. Sendo que essa distribuição de terras foi sendo feita nos Estados Unidos ao longo do século XIX, o que tornava a mão de obra de lá relativamente mais cara. Uma hipótese a ser testada. Mas uma hipótese instigante, sem dúvida.


Os livros de Nathaniel H. Leff, "Underdevelopment and Development in Brazil: Volume I: Economic Structure and Change, 1822-1947" e "Underdevelopment and Development in Brazil: Volume II: Reassessing the Obstacles to Economic Development" estão disponíveis, em inglês, por exemplo na Amazon, pela módica quantia de US$ 45, cada um, mais o frete.

02/02/2016.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Sob o Sol de Verão de Porto Alegre


Sob o Sol de Verão de Porto Alegre


Acho que foi numa antiga crônica do Luís Fernando Veríssimo que eu li sobre ninguém se aventurar no sol do meio-dia nos trópicos, a não ser cachorros loucos e os ingleses. Não me lembro de muito mais, mas parece que ele usou isso como ponto de partida de explicação para os ingleses terem construído seu império onde o sol nunca se põe durante o século XIX, tendo o tal império durado até a metade do século XX. Os ingleses se lançaram às conquistas além mar para fugir do clima frio e úmido das Ilhas Britânicas.


Quando pesquisei sobre o assunto, cheguei a uma canção de Noel Coward que fala nisso, "Mad Dogs and Englishmen" ("Cachorros Loucos e Ingleses"). Possivelmente a inspiração para aquela crônica de LFV que mal me lembro.


Tudo isso para referir um passeio por Porto Alegre num domingo de janeiro, pleno verão, temperatura de aproximados 38 graus, céu sem nuvens, baixa umidade relativa, alta radiação ultravioleta. Para sair de casa é fundamental o uso de filtro solar, tanto mais alto o fator de proteção quanto mais clara for a sua pele.


A questão é: por que motivo alguém inventaria de sair, se não tivesse a obrigação? Uma vizinha, por exemplo, técnica de enfermagem, saiu para o plantão de que estava encarregada. Saiu com roupas leves, e não deixou de se proteger sob uma sombrinha, e nesses dias, uma sombrinha se torna mesmo uma sombrinha, e não um guarda-chuva.


Enfim, meio por estupidez, meio por vontade de sair de casa, saí, em direção à Redenção. Meus pés e um ônibus foram usados no trajeto.


E lá chegando era fácil constatar. As barracas do brique ficam sob a sombra. E quem caminhava no brique, caminhava junto às barracas, sob a sombra das árvores da José Bonifácio. O leito da José Bonifácio estava vazio. Mesmo os vendedores ambulantes, de bebidas, pipoca ou sorvetes, ficavam sob a sombra das árvores, deixando os carrinhos aparentemente abandonados. Do outro lado da rua, as poucas pessoas que se animaram a deixar suas casas, se escondiam do sol, sob a vegetação ali.


Certo é que os espaços onde o sol predominava estavam vazios. Ninguém se expunha, ninguém se bronzeava. Era como se a alameda central do Parque Farroupilha ou o Monumento ao Expedicionário vivessem um dia útil, como uma segunda-feira. Quase vazios. Todos abrigados à sombra.


Naquela tarde de domingo ensolarada, verão de Porto Alegre, parecia não haver por ali nenhum "Englishman", nem algum cachorro louco.


31/01/2016, referente a 24/01/2016.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Diário - leituras - Campo de Sonhos


Diário - leituras - Campo de Sonhos


Houve um tempo em que o Orkut era um ponto de encontro para as pessoas debaterem todo tipo de assunto, e criarem todo tipo de produção artístico-cultural.


Um desses nichos era a poesia.


Desse tempo, recebi uma coletânea de poemas da poeta Ana Wagner, que faz pouco mais de um ano reli. Acho que reli...


Ler isso é uma maneira de perceber que há dons artísticos a serem explorados pelas pessoas que quiserem perscrutar seu potencial.


São pouco mais de cem poemas, e entre eles, claro que uns são melhores que outros. Destaco dois.


Insônia


Sonho-te acordada
na madrugada insone
mãos em delicado
girassol
seara de trigo teu corpo
incendiado
semeio carícias
pele estremece
florescem desejos
na alvura da pele
um apelo, arrepio
flores de inverno
sedução
sementes
de paixão
Cio

O outro:


Longa Jornada


Frias tardes
uma existência contida
botão de rosa desfolhada
chegada ao ponto de partida
relógio quebrado
estilhaçando as horas
o sol, negra melancolia
esquálido pássaro rastejante
fragmentos de sonhos fugidios
voando nuvens púrpuras brilhantes.
Como crer que o todo é nada,
se o tempo da vida é um instante
e é longa, longa a jornada?

De maneira geral, os poemas são sucintos, com versos de apenas uma palavra. Por serem sucintos parece que mais omitem que expressam. Mas são a expressão de uma pessoa.


Pelo que eu soube, a poeta parou de escrever. Será que pensou sobre essas poesias como uma fase da vida? Fase esta superada?


Não sei.


Sei que há o velho ditado, "a prática leva à perfeição", e uma obra, mesmo de expressão artística é mais transpiração que inspiração. Provavelmente, se Ana Wagner continuasse escrevendo, sua obra ficaria cada vez melhor.

WAGNER, Ana. Campo de Sonhos. Porto Alegre: edição caseira da autora, S.D.

28/05/2015.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O Doutrinador


O Doutrinador




Já andei com diversos motoristas de táxi, mas esse foi o primeiro a querer me doutrinar. Nunca tinha visto isso.
Houve uma vez que me transtornei com um motorista velhinho porque ele disse que na ditadura era melhor. Pensando que se tratava de um apologista dos generais, das cassações políticas, e das torturas e extermínios praticados no país entre o final dos anos 1960 e o início dos 1980, fiz menção até de abandonar aquele táxi, no que fui demovido pela minha mulher. Só depois, tosco e paranoico que sou, entendi que o que o homem queria dizer é que ele era taxista há muito tempo, e naquela época sofreu menos assaltos que nos últimos anos. Não é que ele defendesse a ditadura, mas ele achava que naquela época tinha menos infortúnios. Bom, essa percepção eu não podia tirar dele, e eu não podia me transtornar por isso.


Mas voltando ao primeiro parágrafo. Eu sentei ao lado do motorista, e disse o destino. Não havíamos andado cem metros quando ele iniciou a doutrinação.


"Pelo jeito, vão eleger o Lula de novo, em 2018. Povo burro, o senhor não acha?"


Eu respondi que até 2018 muita coisa podia acontecer, inclusive o Lula morrer (isso para não pensar em mim mesmo, ou neste motorista).


"Ah sim. Tudo bem, eu sou um cara democrático." então tá...


"O Lula foi o cara que piorou tudo no Brasil. Olha essa Copa do Mundo. A Copa do Mundo quebrou o Brasil. O Governo do Estado não consegue pagar suas contas por causa do que gastaram na Copa do Mundo."


Eu respondi que faz pelo menos trinta anos que o Estado do Rio Grande do Sul está quebrado, com um governador sucedendo o outro como administrador de massa falida.


"Se a Copa do Mundo na África (2010) foi comprada, a Copa no Brasil também foi comprada".


É. Eu poderia concordar com isso. Todo mundo suspeita de falcatruas relacionadas à FIFA, e a definição de sedes de Copa do Mundo é uma das coisas  mais suspeitas entre todas. Em todo caso, judicialmente não há ainda nada envolvendo a compra da Copa do Mundo de Futebol pelo Brasil.


"O Tarso fez uma imensa renúncia fiscal por causa, das estruturas temporárias requeridas pela FIFA. Tem umas duas empresas grandes do Rio Grande do Sul que vão ficar vinte anos sem pagar ICMS por causa dessas estruturas. Foi isso que quebrou o Estado." Eu não respondi, mas pensei. O dinheiro gasto nas estruturas temporárias era troco de cachaça perto da dívida pública do Estado. Deixa assim.


"E aquilo dos professores apanhar no Paraná, o senhor sabe? Aquilo foi culpa da Copa." Hein? Como assim? Foi o que eu pensei.


"Quando estava se aproximando o início da Copa, a Arena lá não ficava pronta. Aí veio o Valcke (o secretário executivo da FIFA), e pediu para apressarem. Aí o Beto Richa teve que dar dinheiro para terminarem o estádio, e ficou sem caixa."


Ah sim, eu pensei, e pensar que a Arena do Atlético Paranaense era um dos poucos estádios privados da Copa.


Ele continuou. "Aí o Beto Richa viu que tinha esse fundo dos professores, e quis pegar para o caixa do Estado. Os professores não quiseram, e aí houve aquela briga. Mas ele ia devolver depois".


Nossa, eu pensei, era só o que faltava. Por que eu não vi essa hipótese levantada pelo próprio Governador Beto Richa, quando li nos noticiários sobre a repressão aos professores no Paraná?


Mas o motorista continuou. Ele era incansável.


"E por que doze sedes? Que fizesse a Copa só no sudeste que estava bom. Gastaram esse dinheiro no Paraná para quê? Para quatro joguinhos murrinhas..."


E eu pensei, é e foram outros quatro aqui em Porto Alegre. Mas eu gostei que houve quatro jogos aqui.


"Naqueles dias, eu só fiz uma corrida com turistas estrangeiros. Deu dezessete reais. Ninguém ganhou dinheiro com a Copa, só os botecos da Lima e Silva, com os argentinos bêbados."


A razão das doze sedes fazia sentido. Aproveitar a presença de turistas estrangeiros no pais, e levá-los a conhecer outros lugares do Brasil, além do Rio de Janeiro. Foi por isso que Inglaterra e Itália jogaram em Manaus. Mesmo que não haja um futebol profissional de qualidade em Manaus. Mas talvez fosse melhor mesmo que as sedes ficassem restritas às cidades onde o futebol era mais profissional. Mas aí, Porto Alegre, Curitiba, Salvador e Recife continuariam. É, talvez fosse melhor mesmo oito sedes, mas agora a Copa já tinha acontecido. Que adiantava chorar agora, um ano depois?


Aí o homem passou para a crescente frota de automóveis do Brasil, e consequentemente de Porto Alegre.


"Aí a pessoa ganha mil reais por mês, faz uma economia, dá mil reais de entrada, e assume uma prestação de duzentos reais por mês, por um carro 2004, em sessenta prestações. Essa pessoa pensa que tem um carro, mas não vai poder utilizar. Ganha mil, paga duzentos de prestação, tem que pagar combustível, tem que comer. Se estraga o alternador do carro, como faz?" "O conserto de um alternador sai no mínimo uns duzentes reais".


O homem não parava.


"E agora tem o combustível. Subiu a gasolina e o diesel. Como toda a produção do Brasil depende do diesel, tinha que manter o preço do diesel, e subir só a gasolina. Ela subiu, mas ainda está acessível. Tinha que subir mais para diminuir esses engarrafamentos que temos nos horários de pique."


Então eu disse para ele, que, se a gasolina subisse muito, a tarifa do táxi teria que subir também, e ele iria ter menos passageiros.


E aquele corrida por fim terminou.


O homem tinha 60 anos, gostava de falar alto (parecia que não conseguia parar de falar, na verdade), e tinha uma visão toda enviesada da realidade nacional. Achava o povo burro. Provavelmente se achava inteligente e informado.


Num dia em que eu estivesse "normal" eu teria brigado com o taxista, e pedido para parar.


Mas eu estava de sangue doce, não sei porque.



23/06/2015.