sábado, 31 de dezembro de 2016

Dezembro um mês comum, coisa de um ano incomum


Dezembro um mês comum, coisa de um ano incomum

 

O mês de dezembro é normalmente picotado por dois feriados, e semi-feriados, na sua segunda quinzena. Um é a celebração do Natal, o outro é o Final de Ano. Claro que isso vale para os países que contam o tempo pelo calendário cristão, como o Brasil, ou seja, a maioria de nós está celebrando o nascimento de Jesus Cristo, e comemorando o final do ano 2011 após o nascimento de Jesus.

Embora a exatidão dos dias possa ser contestada, como, por exemplo, não existiu um ano zero, ou Jesus de fato teria nascido uns 4 ou 5 anos antes do que é normalmente contado, normalmente contamos que agora esteja terminando o ano 2011 da chamada era cristã. E dias atrás celebramos o nascimento de Jesus.

Casualmente este ano, vi na Internet um gaiato que se professa ateu desejar “Feliz Dia do Sol Invicto para você também”. O Sol Invicto era a crença professada pelo Imperador Constantino, imperador do Império Romano entre 306 e 337, que foi talvez o principal responsável pela regularização do cristianismo naquele Estado. Quando o cristianismo foi regularizado o nascimento de Jesus passou a ser celebrado na mesma data do Sol Invicto. Não estou certo que todos os historiadores endossem esta tese, mas ela é mais ou menos aceita por quem tenha algum conhecimento sobre essa época.

Mas, voltando ao nosso título, e ao primeiro parágrafo, neste ano de 2011, o dia 24 e o dia 31, os “semi-feriados” caem no sábado, e os dias 25 e 1º de janeiro de 2012, os feriados caem no domingo. Assim, de maneira excepcional, temos 22 dias apelidados de úteis em dezembro. Se o Banco Central não tivesse decretado feriado bancário no dia 30 de dezembro, para alegados fins contábeis, até os bancos ficariam abertos por 22 dias em dezembro. É um fenônomo raro em dezembro. 22 dias de bancos abertos é coisa para agosto, mês sem feriados!

Ou como me disse alguém, “Natal no domingo devia ser proibido. Se o Natal caísse no domingo, deveria ser adiado para a segunda-feira, e a véspera do Natal para a sexta-feira antecedente.”


Eu acho que concordo.


30/12/201
1.


P.S. Republicando texto que eu havia publicado em dezembro de 2011, pela repetição da circunstância dos dias de Natal e Ano Novo terem caído no domingo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Diário - leituras - Cobras na Cabeça


Diário - leituras - Cobras na Cabeça



"Cobras na Cabeça" é um livro onde Rubem Penz convoca seus "cobras" (o trocadilho é inescapável), para organizar um novo livro de crônicas, comemorando os quarenta anos do surgimento das personagens das cobras (obviamente) de Luís Fernando Veríssimo. Nesse caso, uma tirinha iniciava um capítulo e era a base para seis crônicas. 18 autores escreveram 72 crônicas para este livro.
Vamos aos meus destaques.
"Autobiografia Anônima", de Giancarlos Carvalho Borges, tem um título auto-explicativo, e uma ironia que combina com Luís Fernando Veríssimo.
"Hum...", de José Elias Flores Jr., sobre um casal discutindo a relação é quase uma comédia da vida privada do LFV.
"...", de Camila Leão, sobre uma menina que tem dificuldades no relacionamento com o pai, é um ótimo conto, arrolado como crônica.
"Um Copo que Cai", de Tiago Pedroso, é uma bela e fabulosa crônica em que os utensílios da cozinha discutem quem "matou" o copo.
"Sexta-Feira", de Gabriela Ferreira, comenta os cuidados em família, dentro de um capítulo que explora o conflito de gerações.
"Vou para Paris", sobre um homem em crise de relacionamento, que resolve largar a namorada, e como diz o título, ir para Paris.
"A Foto da Última Viagem", de Tiago Pedroso, é outro bom conto em forma de crônica, sobre, bem, sobre a foto da última viagem.
"Clóvis", de Luciana Farias, conta a história de Clóvis, o segundo melhor funcionário do ano da empresa, que aproveita o prêmio para se aproximar de Sílvia, a supervisora de estoque, que tinha longos cabelos vermelhos e uma fama que ultrapassava o departamento...
"O Feio é uma Honestidade Estética", de Gerson Kauer, é uma reflexão sobre, digamos, a falta de beleza.
Enfim, mais um livro lido.


PENZ, Rubem (Org.). Cobras na Cabeça. Porto Alegre: Buqui, 2015

21/02/2016.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Diário - leituras - Leituras na Piauí, novembro de 2016


Diário - leituras - Leituras na Piauí, novembro de 2016


A revista Piauí de novembro de 2016 trouxe alguns textos bem interessantes: mais um excerto de livro da escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch; o diário da convivência de uma mãe argentina com seu filho radicado no Japão; uma reportagem perfil da filósofa estadunidense Martha Nussbaum; um perfil literário do escritor V. S. Naipaul; e um texto da escritora Ana Cássia Rebelo, também excerto de um livro sendo publicado, no caso, "Ana de Amsterdã".
Com dois excertos de livros, é possível parabenizar a revista como veículo de publicidade.
Acho que para contrabalançar, a revista publica reportagem de Júlia Dualibi sobre a advogada Janaína Paschoal. Coisa que não consegui ler.
O texto de Aleksiévitch é mais uma vez muito interessante. "O Fim do Homem Soviético" repete a fórmula dos livros anteriores da escritora bielorrussa publicados por aqui, "Vozes de Chernobil" e "A Guerra não tem Rosto de Mulher". Como nos outros livros, ela dá voz a diversas pessoas que teve condições de ouvir, para elaborar e publicar. Nessas vozes ela dá um sentido humano a eventos que costumamos pensar como abstrações. A peculiaridade deste livro é que ele mostra como uma série de pessoas atravessaram e sofreram o fim da União Soviética, de alguma maneira me esclarecendo como foi isso. Contemporaneamente eu também vivi o fim da União Soviética, mas essa era uma realidade distante. Afinal como foi o fim daquilo? A mídia aqui narrou como uma grande "libertação", o fim de uma ditadura. Mas foi isso mesmo? As pessoas passaram a viver melhor ou pior? Também, excepcionalmente, nesse livro, Alesiévitch dá seu próprio depoimento aos dias do fim da União Soviética. Para completar o assunto, a revista publica um pequeno artigo do historiador Orlando Figes, onde ele comenta a obra e critica um pouco da falta de método de Aleksiévitch. Como se ela estivesse preocupada em seguir metodologias de História. Aparentemente não está.
Mori Ponsory, escritora argentina, narra seus dias durante cerca de 15 dias no Japão, junto com seu filho, um admirador da cultura nipônica. O rapaz estava vivendo no país como uma espécie de bolsista do governo japonês. Ela narra seu estranhamento com o país, com as poucas pessoas fluentes em outro idioma que não o japonês, com o sentimento de ser iletrado num país que tem um sistema de escrita muito diferente do alfabeto latino. E por fim, a descoberta que seu menino não é mais o seu menino, mas um homem que aprendeu a viver só num país distante. "Okasan" é o título dessa edição de diários.
A reportagem biogŕafica, escrita por Rachel Aviv, sobre a filósofa Martha Nussbaum me surpreendeu pela minha ignorância. Segundo esse texto, Nussbaum é uma filósofa prolífica, que já escreveu sobre diversos assuntos, da estética ao feminismo, passando pela desigualdade econômica. Mas eu nunca havia ouvido falar nela. Sendo ela aparentemente tão importante, talvez eu devesse saber.
Alejandro Chacoff escreve um perfil literário do escritor caribenho-britânico Vidiadhar Surajprasad Naipaul, ou mais simplesmente V. S. Naipaul. É um perfil curioso porque aparentemente Chacoff não procurou seu perfilado, mas tratou de compilar reportagens. Naipaul é nascido na ilha de Trinidad (aquela que forma com a outra ilha, Tobago, um pequeno país no Caribe), em família de origem indiana. Naipaul procurou se tornar um escritor importante na Inglaterra, e não apenas na sua Trinidad natal. Mas, segundo Chacoff, em grande parte rejeitou suas origens, para tentar se projetar como um escritor branco, num país de elite branca. Chacoff fala principalmente dos romances que Naipaul escreveu, e depois deixou de escrever, principalmente "A House for Mr. Biswas", possivelmente inspirada na vida do pai de Naipaul. Eu, por exemplo, conheci a obra de Naipaul por seus relatos de viagens, "Entre os Fiéis" ("Among the Believers: An Islamic Journey") e "Além da Fé" ("Beyond Belief: Islamic Excursions among the Converted Peoples"). Ambos falando de países não árabes, cuja população, em sua maioria professa a fé islâmica: Irã, Paquistão, Indonésia, Malásia.
Por fim, há o excerto de "Ana de Amsterdã". O livro "Ana de Amsterdã" foi recentemente lançado no Brasil. Se trata de uma seleção de textos que a escritora portuguesa Ana Cássia Rebelo publicou em seu blogue, entre 2006 e 2014. Aqui acabamos compartilhando um pouco da intimidade, das tristezas e alegrias, de Ana, que na época usou o blogue como um desabafo.
Foi uma edição boa da revista.

25/12/2016.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um inventário pessoal da 62a Feira do Livro de Porto Alegre


Um inventário pessoal da 62a Feira do Livro de Porto Alegre


A Feira do Livro de Porto Alegre é um tema recorrente para mim. Desde que me tornei blogueiro sempre procuro falar algo a respeito desta feira de livros que acontece no início de novembro de cada ano.
A feira de 2016, a 62ª edição, teve um tamanho reduzido em relação a anos anteriores. Por exemplo, o espaço em frente ao antigo cinema Imperial não foi ocupado por conta das obras para o Centro Cultural da Caixa que estão sendo realizadas ali.
A área internacional contou com apenas quatro estantes que ficaram armadas dentro do Memorial do Rio Grande do Sul, o antigo prédio dos Correios. Além dessas estantes, também dentro do Memorial ficou a representação da região homenageada nesta edição da Feira, o arquipélago de Açores. Este ano, a Feira homenageou uma região em lugar de um país, como vinha sendo feito. Açores é uma "região autônoma" da República Portuguesa, e está bastante ligada por laços históricos à cidade de Porto Alegre. Acho que as crianças porto-alegrenses aprendem na terceira ou quarta série que casais de açorianos foram fundamentais na colonização do município que se tornou capital do Rio Grande do Sul.
A praça de alimentação, ao lado do Memorial, também estava acanhada, com algumas barracas de alimento, e o monopólio de bebidas da cervejaria Schin, com refrigerantes da linha Pepsi.
Contudo essa edição da Feira foi mais que especial para mim, por conta de minha primeira participação na condição de autor, ou, pelo menos, coautor. No caso, eu participei da coletânea de crônicas, "Santa Sede, Safra 2016 – Crônicas de Botequim", organizada pelo Rubem Penz. Houve um sarau no dia 7 de novembro, e uma sessão de autógrafos coletiva no Memorial. Eram nove cronistas, mais o Rubem. O livro já havia sido lançado no Bar Apolinário anteriormente, mas foi uma bela experiência estar, para usar um chavão, "do outro lado do balcão" numa sessão de autógrafos.
Essa experiência, mais o fato de ter participado da coletânea de contos "Metamorfoses", lançado também com sessão de autógrafos, em julho passado, me fez perceber com mais intensidade como existe um universo de escritores com público mais restrito, e livros com pequenas tiragens. Não porque suas obras sejam ruins, mas porque a luta pela atenção dos potenciais leitores é encarniçada, e quem conta com maior penetração nos meios de comunicação hegemônicos sai em vantagem.
Isso não vale apenas para o Rio Grande do Sul. Até o Nobel está apelando para esse tipo de expediente, haja visto a premiação de Bob Dylan como Nobel de Literatura em 2016.
A esse respeito, num dos primeiros dias da Feira esteve autografando um dos convidados internacionais, o escritor peruano Jeremias Gamboa. Final de tarde do dia 29 de outubro, sábado. Gamboa deve ter tido bem uns quinze leitores que lhe foram pedir autógrafos do deu livro "Contar Tudo". Ao seu lado, numa fila interminável, Adriana Calcanhoto, artista mais relacionada à música, autografava "Para que é que serve uma canção como esta?".
Estive em algumas sessões de autógrafos. A primeira foi esta já citada do Jeremias Gamboa e seu livro "Contar Tudo".
No sábado do final de semana seguinte, dia 5 de novembro, foi a tarde dos autores da Editora Metamorfose / WWLivros. Adquiri um livro de poesias de Mário Ulbrich, "Folhas ao Vento". Mário Ulbrich é um homem que descobriu sua vocação poética na maturidade. Se tornou poeta publicado após os 60 anos.
Também adquiri "Raidman", de Gilmar Delvan, meu colega no Curso de Formação de Escritores Metamorfose. Delvan foi a minha maior surpresa na praça de autógrafos. Dos livros que adquiri para serem autografados, a fila de autógrafos de Gilmar Delvan só perdeu para o do consagrado escritor Daniel Galera.
Nessa tarde de 5 de novembro, a fila interminável era para a cronista Martha Medeiros.
No dia seguinte houve a palestra "1999 não tem fim", de fato um bate-papo sobre a "newsletter", ou "fanzine-mail", "Cardosonline". Como foi dito, o Cardosonline foi como um blogue que circulou por emeio, antes que os blogues surgissem, com opiniões sobre diversos assuntos, contos, ensaios. Estavam palestrando André Czarnobai (o Cardoso propriamente dito), Daniel Galera, Daniel Pelizzari e Clarah Averbuck.
Depois da palestra, Galera, Pellizzari e Averbuck foram autografar seus livros. Eu adquiri "Meia-Noite e Vinte", de Galera, "Digam a Satã que o recado foi entendido", de Pellizzari, e "Toureando o Diabo", de Averbuck. Pellizzari e Averbuck tiveram relativamente poucos leitores querendo autógrafos. Já a fila para o autógrafo de Daniel Galera foi longa. Seria Galera uma espécie de celebridade do mundo da literatura?
Por fim, no dia 9, estive no Memorial para autógrafos da coletânea de contos da Oficina Literária do Luiz Antônio de Assis Brasil, "Onisciente Contemporâneo". Peguei o de Ana Luiza Tonietto Lovato, e de alguns outros contistas.
E houve uma sessão de autógrafos que eu gostaria de ter ido, mas não pude. Foi dia 1º de novembro, no Memorial, a sessão de "A Persistência do Amor", também organizado pelo Rubem Penz.
Enfim, uma Feira que foi diferente para mim.
Quanto a esses livros, na medida do possível vamos lendo. Na medida do possível, registrando aqui.


12/12/2016.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Encontro na Livraria


Encontro na Livraria


- E aí? Como te sentes?
O homem levantou os olhos da mesa junto a qual estava sentado, e olhou para o seu interlocutor. Sorriu. Havia uma razoável fila atrás desse interlocutor, na livraria. Início de uma noite de quinta-feira. De fato, ali estavam parentes, amigos, velhos colegas de faculdade, alguns curiosos que haviam visto uma notinha num dos jornais locais, e, óbvio, os colegas de criação literária.
- Bem. - Ele respondeu. - Na verdade, muito bem.
- É. Eu imaginei... Disse o interlocutor, oferecendo um livro. - Podes assinar o meu?
- É claro. - Ele falou com um sorriso que parecia já não caber nos lábios.
- Parabéns, Vellinho! A gente nunca sabe como as coisas serão quando elas se apresentam. Mas acompanhando a tua escrita desde lá, foi possível ver o talento suingado, sempre com um humor sutil nas tuas crônicas. Tu realmente tiveste teus momentos de Luis Fernando Veríssimo. Bom, na verdade, um sub-Luís Fernando Veríssimo, mas isso é um tremendo elogio, pois o que muitos de nós queremos é ser Luís Fernando Veríssimo.
Vellinho assinou o livro, levantou-se e o devolveu a José. Se abraçaram. E, claro, posaram para que o fotógrafo do evento registrasse aquele breve momento.
Como a fila continuava ali, José saiu para explorar a livraria.
Vellinho sentou-se novamente junto à mesa, e olhou para o próximo potencial leitor. Sorriu.
- E aí? É para você, ou para presente? Em nome de quem é a dedicatória?



03/05/2016.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Diário - leituras - Terra Negra


Diário - leituras - Terra Negra


"Terra Negra" é um livro que é, como diz o subtítulo, "uma viagem pela Rússia pós-comunista".
De fato, o autor narra em longa reportagem, uma viagem aos quatro cantos da Rússia pós-soviética.
Começa falando de Moscou, a capital. O novo capitalismo, surgido do desmonte da antiga União Soviética. Fala do gangsterismo que ainda existia quando ele estava por lá, no final dos anos 1990. Fala dos riscos que corriam os jornalistas independentes.
Depois vai para o sul, para fazer uma reportagem sobre como estaria a Tchechênia, após anos de guerra, e intervenção russa. Como a região foi arrasada, e como isso influenciou mesmo a reorganização das forças armadas russas para intervir ali. O retrato que ficou é de uma devastação, e uma situação que sempre pode ficar pior.
Depois vai para o norte. Sobe um rio num barco com passageiros, em direção a uma zona mineração russa na região do Ártico. Norilski é uma cidade de referência. A cidade que já foi uma colônia penal, hoje é um polo de extração de metais. As minas saíram da mão do Estado, para algum oligopólio privado.
E do Ártico para o extremo oriente: Sakalina. Uma curiosidade já na chegada: Meier percebe que há alguns japoneses no avião que o leva à Sakalina. Imagina turistas. Estava enganado. Eram moradores locais, descendentes dos habitantes da época que as ilhas foram tomadas (retomadas?) ao Japão, no final da Segunda Guerra. Mas enfim, ele tenta mostrar como se vive nessa região tão longe do governo federal.
E do extremo oriente, para o Ocidente: São Petersburgo. A cidade cosmopolita, voltada para o ocidente, com agitada vida cultural, e também minada pelo tráfico de drogas.
Terra Negra tem a ver com uma citação de Tolstoy (ou seria de Dostoievski?) quando de uma viagem pelo Cáucaso no século XIX.
A imagem que fica é realmente de uma terra semi-arrasada, de um caos que toma conta do país após a queda do comunismo.
Como reportagem, o autor faz muitas citações a autores antigos e consagrados. São recorrentes as palavras de Dostoieviski, ou de Gogol, ou de Tchekov. Claro, a reportagem tem que tomar corpo, e incluir a citação de alguns autores do século XIX faz render.
O que falta? Análise. O autor parte da situação dada. Descreve, entrevista, comenta. Mas não tenta entender o porquê de tudo, o porquê se chegou àquela situação. É certo que é assim mesmo. Ele claramente não se propôs a explicar o que estava acontecendo. Apenas narra.

MEIER, Andrew. Terra Negra. Rio de Janeiro: Globo, 2005.

02/01/2016.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Diário - cinema - A Chegada


Diário - cinema - A Chegada


"A Chegada" ("The Arrival", Estados Unidos, 2016) é um filme de ficção científica, em que uma linguista, Louise Banks (Amy Adams), é convocada pelo exército americano para tentar entender o propósito de alienígenas que chegaram à Terra repentinamente, e, aparentemente, sem terem sido previamente detectados. Uma série de naves, que são chamadas de conchas, e que me pareceram como seixos muito bem alisados, estão estacionadas em diversos sítios ao redor do planeta. E as diversas autoridades destes locais também estão em busca de decifrar os propósitos dos extraterrestres.
É um bom filme.
Há suspense, na ponta da questão que as autoridades querem responder: "o que querem esses alienígenas?". E também no espectador, afinal, os alienígenas são perigosos? Atacarão a humanidades, ou, pelo menos, os cientistas que estão tentando entrar em contato com eles?
Há uma certa exposição do trabalho dos linguistas. Parece que bem representados. E uma série de conceitos que o filme expõe sobre a linguagem.
E há a interpretação de Amy Adams, como a linguista sensível, que tem uma vida sentimental, em meio à perplexidade causada pelas naves aliens à Terra. E nós somos levados nos ciclos da Dra. Banks. A atuação comovente de Amy Adams me arrancou lágrimas.
E me fez gostar muito do filme. Um filme de ficção científica bastante incomum, com poucos tiros e explosões, onde somos conduzidos um pouco pelo suspense, e muito pelo drama.


08/12/2016.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Diário - filmes antigos - Ghost in the Shell


Diário - filmes antigos - Ghost in the Shell

"Ghost in the Shell", neste caso, é uma animação japonesa, lançada em 1995. É um filme "cult", que teria tido bastante influência em obras de ficção científica sobre sociedades futuristas, distópicas e tecnológicas, inclusive o filme "Matrix".
Nesse caso, a agente Motoko Kusanagi, membra da equipe Seção 9 de segurança, está em busca de um hacker chamado "Mestre dos Bonecos" (ou "Puppet Master", se você preferir). Nesta busca, ela vai acabar se confrontando com outros agentes do governo, sem ter em quem confiar.
Dentre temas que o filme desenvolve estão, por exemplo, a questão da identidade - o que faz de cada pessoa uma pessoa, cibernética e inteligêância artificial.
Era um filme que há muito eu queria ter visto, e agora assisti.
Há uma adaptação hollywoodiana que deve ser lançada em 2017, com Scarlett Johanssonn no papel de Motoko.



07/12/2016.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Mário Sérgio (1950-2016)

Mário Sérgio (1950-2016)

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Além dos jogadores e equipe técnica da Chapecoense, no avião que levava o time para a primeira partida da final da Sulamericana 2016 em Medellín e que caiu na semana passada, havia muitos jornalistas.

Entre eles o ex-jogador Mário Sérgio. Ele estava indo cobrir a partida como comentarista do canal Fox Sports.

Para mim, Mário Sérgio ficou marcado como um dos principais jogadores da equipe do Internacional que venceu, de maneira invicta, o Campeonato Brasileiro de Futebol de 1979. Naquele ano, ele mostrou todo seu talento. Cheguei a ir à semifinal contra o Palmeiras, e à final contra o Vasco naquele ano.

Curiosamente ele acabou jogando no rival Grêmio a final do Mundial Interclubes, quando o clube gaúcho sagrou-se campeão mundial de futebol contra o Hamburgo da Alemanha.  

Pelo que andei lendo, como jogador ele teve uma extensa carreira, começando pelo Flamengo, e terminando no Bahia.  

E ainda voltou ao Inter de Porto Alegre como técnico em 2009, conseguindo colocação no Campeonato Brasileiro daquele ano, que permitiu ao clube disputar, e vencer, a Taça Libertadores 2010.  

Fazia alguns anos desenvolvia carreira como comentarista esportivo.  

Entre tantas vidas perdidas nesse acidente, um antigo ídolo de infância.


Comoção


Comoção


A tragédia da Chapecoense na semana passada foi muito triste. O pior acidente de avião envolvendo uma equipe de futebol profissional.  

As manifestações de pesar e apoio em Medellin e em Chapecó foram muito comoventes. Momentos de reflexão para a fragilidade da vida, e para aquilo que pode nos irmanar.


7/12/2016.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Diário - leituras - A Alma Imoral


Diário - leituras - A Alma Imoral


"A Alma Imoral" é um livro sobre, bem, sobre a alma. Mas um livro que se afasta um pouco da noção estabelecida de alma do ocidente.
Nilton Bonder é um rabino e este texto vai buscar sua inspiração no Velho Testamento, isto é, no Gênesis, e em toda a tradição de sabedoria judaica através dos séculos.
Qual é a noção estabelecida de alma no ocidente? A alma como a parte imaterial dos seres humanos, o espírito, o que faz dos seres humanos diferentes dos demais animais que habitam o planeta. Uma parte imaterial, talvez mesmo imortal.
Esta noção vem em parte da filosofia grega, com a alma sendo a parte nobre do ser humano, a que veio do mundo ideal, segundo a concepção platônica, e que não está sujeita à corrupção do corpo. Esta ideia foi apropriada pelo Cristianismo, que reforçou a dicotomia entre o espírito bom, e o corpo mau, como fica exemplificado, por exemplo, na Epístola de Paulo aos Gálatas, "Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei. Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, fornicação, impureza, lascívia, Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei." (Gálatas 5:18-23). Há que se dizer que "Espírito" aqui está relacionado também ao Espírito Santo, não apenas à alma dos cristãos da região da Galácia, mas é uma boa ilustração do que foi dito anteriormente. Há um corpo (a carne no texto) decadente, sujeito ao pecado, e um espírito que deve superar o pecado, mostrando bons frutos.
Nilton Bonder altera essa visão.
Ele equipara a alma à consciência no Gênesis. Ou seja, quando o homem e a mulher transgrediram o mandamento, e tomaram consciência que estavam nus diante de Deus, que a alma se manifestou como consciência. Talvez antes, o homem (e a mulher) não fossem muito diferentes dos demais animais do Éden, mesmo tendo sido criados à "imagem e semelhança de Deus" (a propósito, o autor não escreve "Deus" assim, mas da seguinte maneira: "D'us"). Para seguir o "crescei e multiplicai-vos" não era necessário muito raciocínio, apenas seguir o instinto.
E por aí o autor vai discutindo como a alma é a verdadeira imoral nessa relação, porque a alma é que vai ter o fardo de transgredir a moral estabelecida. Moral esta que, segundo o autor, é sempre a moral do corpo.
Por isso, a alma é imoral.


BONDER, Nilton. A Alma Imoral. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

02/01/2016.